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quarta-feira, 22 de março de 2017

Pentecostalismo, pseudopentecostalismo e antipentecostalismo


Considero os cristãos cessacionistas — que não creem na continuidade da obra do Espírito Santo tal qual ocorreu nos tempos da Igreja primitiva — meus irmãos e tenho, inclusive, amigos que não concordam com as doutrinas esposadas pelos pentecostais. Mas eu, como cristão pentecostal convicto, considero deselegantes os antipentecostais, já que são extremistas, além de cessacionistas, e não distinguem o pentecostalismo do pseudopentecostalismo. Chamar as aberrações pseudopentecostais de práticas pentecostais revela ignorância e preconceito.

Por outro lado, considero igualmente deselegante a afirmação de que todos os cessacionistas são sectários e extremistas, pois muitos deles, a despeito de não aceitarem o pentecostalismo, não colocam pentecostais e neopentecostais no mesmo bojo. Passarei agora a fazer algumas distinções importantes, a fim de que não se confunda pentecostalismo com pseudopentecostalismo.

O que é o pentecostalismo?

Muitos crentes se dizem pentecostais, mas não vivem o que pregam. Eles compõem o pentecostalismo nominal. São teóricos e dificilmente experimentam a sobrenaturalidade do Evangelho. O pentecostalismo é um segmento cristão, biblicocêntrico — já que tem as Escrituras como a sua fonte primária de autoridade —, formado por crentes em Jesus Cristo, verdadeiramente salvos, fiéis, sinceros, que seguem ao que está escrito na Palavra de Deus.

Os pentecostais creem no que a Palavra de Deus assevera acerca da ministração multifacetada do Paracleto: batismo no Espírito como revestimento de poder com a evidência de falar em línguas de modo sobrenatural (At 2; 1 Co 12-14 etc.), o fruto do Espírito (Gl 5.16-23; Ef 5.9-19; Cl 3; 2 Pe 1.4-9 etc.), além de dons congregacionais e ministeriais (1 Co 12.1-11; Mc 16.15-20; 1 Co 14.26, Ef 6.11-15 etc). Eles respeitam o primado das Escrituras, considerando estas a sua regra de fé, de prática e de viver.

O que é o pseudopentecostalismo?

Há irmãos que se dizem e pensam ser pentecostais, mas não querem abraçar as Escrituras. Estas não são a sua fonte primacial de autoridade. A maioria deles é de neopentecostais, cristãos experiencialistas e ingênuos, que seguem a qualquer manifestação pseudopentecostal sem nenhuma análise, ao contrário dos crentes de Bereia (At 17.11). Para os neopentecostais ou pentecostais mal-orientados, modismos, como “cair no Espírito”, “unção do riso”, “unção do leão” etc., são obras divinas. Mas a Palavra de Deus nos manda julgar, examinar tudo e reter o que é bom, verdadeiro (1 Co 2.15; 1 Ts 5.21; 1 Jo 4.1; 1 Co 14.29; 10.15).

Existe também o neopentecostalismo apóstata, formado, não por experiencialistas ingênuos, mas por pessoas que já propagaram e defenderam o pentecostalismo bíblico e apostataram da fé. Elas deram ouvidos a espíritos enganadores e a doutrinas de demônios (1 Tm 4.1). Propagam heresias e modismos pseudopentecostais, supostas conversas com santos mortos, arrebatamentos em grupo, transferência de unção, “avivamento extravagante” etc.

O pseudopentecostalismo também subsiste fora do arraial evangélico. E é formado por pessoas não regeneradas, que creem na intercessão dos “santos”, na mediação de Maria, ignorando 1 Timóteo 2.5 e João 14.6, etc. No entanto, a Bíblia nos ensina que o Espírito Santo é dado somente aos que obedecem a Deus (At 5.32). O próprio Senhor Jesus afirmou que o mundo não pode receber o Espírito de verdade (Jo 14.17).

O que é o antipentecostalismo?

Os antipentecostais, diferentemente dos cessacionistas, além de não crerem nas verdades bíblicas esposadas pelos pentecostais, ridicularizam estes. Aliás, é um direito que lhes assiste privar-se da sobrenaturalidade do Evangelho, à disposição de todos os salvos (At 2.39). Mas eles vão mais além e zombam dos crentes que creem na atualidade da manifestação multíplice do Espírito. Eles são extremamente racionalistas e tradicionalistas (cf. 1 Co 2.14,15).

Reconheço que há um grupo de cessacionistas que diz aceitar apenas uma parte das manifestações do Espírito descritas nas Escrituras. Eles alegam que determinadas operações do Espírito Santo foram apenas para os dias dos apóstolos. Entretanto, os cessacionistas extremistas (antipentecostais) nutrem uma aversão aos pentecostais, chegando a afirmar que estes estão endemoninhados.

Os antipentecostais também se mostram iracundos, irônicos e zombeteiros, a ponto de fazerem gracejos deselegantes com as línguas ditas pelos pentecostais (estes creem que elas lhes são dadas pelo Espírito Santo) ou chamá-los de 'pentecas'. E mais: alguns antipentecostais têm até desafiado os pentecostais para embates na Internet e os consideram ignorantes, incapazes de refutar as suas argumentações.

Que Deus nos ajude a combatermos o erro de fora e de dentro (At 20.27-30; 2 Pe 2.1,2). E, para fazermos isto de modo honesto e verdadeiro, primeiro temos de saber identificar e distinguir bem todas as coisas, a fim de que não julguemos tudo segundo a aparência, mas “segundo a reta justiça” (Jo 7.24).

Ciro Sanches Zibordi

terça-feira, 14 de março de 2017

Estudo de Escatologia na Rádio CPAD


Acompanhe nosso estudo de Escatologia Bíblica na Rádio #CPAD.

Nesta semana discorreremos sobre os Sinais Indicadores da Segunda Vinda. Nossa participação é de segunda a sexta, às 11h, às 15h e às 21h.

Para ouvir de qualquer parte do mundo a Rádio CPAD, que está no ar 24 horas por dia, acesse o site da rádio.

Baixe o aplicativo Rádio CPAD para ouvir toda a programação pelo seu smartphone.

Outrossim, escreva aqui as suas perguntas sobre a Escatologia e procurarei respondê-las na rádio.

Ciro Sanches Zibordi

quinta-feira, 9 de março de 2017

O que é o MDA e por que preocupa


De modo geral, as igrejas evangélicas têm adotado dois modelos de discipulado. O primeiro, ortodoxo, prioriza o Evangelho e emprega os “ultrapassados” cultos de ensino, Escola Dominical e cursos teológicos. Já o segundo, heterodoxo, prega “outro evangelho”, à base de pragmatismo e utilitarismo, e mescla verdades bíblicas com filosofias antropocêntricas, apesar de utilizar uma metodologia “mais eficaz”, que atende aos anseios do mundo pós-moderno. A “visão celular” — mais conhecida pelas siglas G12, M12 ou MDA — faz parte do modelo heterodoxo, visto por muitos como uma “quebra de paradigmas” e, ao mesmo tempo, um retorno aos princípios da igreja de Atos dos Apóstolos.

O MDA (Modelo de Discipulado Apostólico) se baseia no tripé: células, encontros e discipulado um a um, que é uma microcélula ou “coração da célula”, já que discípulo e discipulador fazem parte da mesma célula. E, embora seu fundador afirme que Deus lhe deu um modelo exclusivo para o Brasil, trata-se de uma espécie de G12. Ele mesmo admitiu que, ao estudar “diferentes modelos de igreja em células, observando-os de perto e gastando tempo com os líderes envolvidos em sua prática, encontramos vários bons modelos, como o [...] ‘Modelo do Governo dos 12’, do pastor Cesar Castellanos, da Colômbia” (HUBER in ZIBORDI, 2016). Em essência, esses modelos são gêmeos e, de modo patente ou latente, propagam a Teologia da Prosperidade, a Confissão Positiva etc.

Nos dois, o templo é usado prioritariamente para celebrações dançantes, visto que o discipulado ocorre nas células, e as ministrações principais, nos encontros. Para ambos, a célula é a essência da igreja, onde “a vida do Corpo se encontra de forma sintetizada em todos os seus muitos aspectos, tais como: adoração, intercessão, evangelismo, integração, discipulado, treinamento de líderes, comunhão, assistência social etc.” (HUBER, 2016). Há alguns anos, um pastor, decepcionado com o MDA, me disse: “A primeira coisa que fizemos foi acabar com a Escola Dominical, porque os estudos seriam nas células. O louvor da igreja virou show, tiramos os hinos da Harpa Cristã e colocamos luzes no altar. Fui líder de várias células e cada vez mais me impressionava o desaparecimento da mensagem bíblica, que antes tínhamos”.

Quanto aos encontros do MDA para iniciantes, há vários depoimentos na Internet que nos ajudam a compreendê-los (cf. TOMÁZ, 2016). Eles são realizados em lugares secretos, onde os discípulos são recebidos com muita festa, ficam incomunicáveis por três dias e participam de várias ministrações. A primeira, logo após a chegada, à noite, é “Peniel”, pela qual se enfatiza que o discípulo deve ser transformado a fim de participar das próximas ministrações. As luzes, então, se apagam, para que cada um fale com Deus “face a face”. Após o jantar, todos são aconselhados a dormir e se preparar para o dia seguinte, que “será tremendo”. A segunda ministração, de manhã, é “encontro com Deus”: os discípulos são acordados e, ainda em jejum, ouvem vários bordões de autoajuda junto com um fundo musical. Eles recebem, ainda, um manto vermelho, para o primeiro “ato profético”.

A terceira é “libertação”, por meio de imposição de mãos, exorcismo e quebra de maldições. A quarta é “cura interior”, a partir da qual o discípulo, mesmo se sentindo liberto, precisa tratar das feridas da alma, confessando seus pecados e liberando perdão a todos, inclusive a Deus! Tudo ocorre à base de sugestão, com as luzes reduzidas e um fundo musical. Já na parte da noite, vem a quinta: “sonhos”, e os discípulos, “transformados”, expõem seus sentimentos. Novamente com fundo musical, ocorrem mais “atos proféticos”. Em um destes, alguém faz o papel do Tentador, que procura destruir os sonhos das pessoas.

Embora chamada de “cruz de Cristo”, a ênfase da sexta ministração não recai sobre a obra redentora do Senhor. O MDA é antropocêntrico: apresenta Jesus como um homem que venceu mediante uma declaração de fé no Inferno e ignora que Ele venceu o Diabo e suas hostes na cruz (Hb 2.14,15), ao dizer: “Está consumado” (Jo 19.30). Os participantes, então, recebem pregos e oram de braços abertos até sentirem dores e começarem a chorar. Quando abaixam os braços, alguém os ajuda a permanecerem “crucificados”. Antes de o local se transformar em uma discoteca, eles — ignorando os gloriosos efeitos da obra expiatória de Jesus, realizada de uma vez por todas (Cl 2.14,15) — fazem uma lista de pecados e a cravam numa cruz!

No dia seguinte, vem a sétima ministração: “oração”, com músicas de fundo que mantêm os discípulos no “mesmo espírito”. Não há ensino da Palavra de Deus, na prática. E a oração limita-se a “línguas estranhas”, sem a observância do ensino de 1 Coríntios 14. Vem então a oitava ministração: “nova vida em Cristo”, e um discipulador, após ler um texto bíblico, diz a todos: “Preparem-se! O mover de Deus está só começando”. E, ao som música pesada, inicia-se uma peça teatral que, de modo tácito, apresenta o Diabo como um ser muito mais poderoso do que é, rebaixando, assim, o Todo-poderoso. Ora, as hostes do mal agem por permissão do Senhor, que, no momento certo, as vencerá “pelo assopro da sua boca” (2 Ts 2.8).

Com luzes apagadas e janelas fechadas, os discípulos se ajoelham, e suas cabeças são lavadas. Ainda há três ministrações, que têm lugar com um “bom” fundo musical: “finanças” — visando-se a uma “grande semeadura” —, “visão do MDA” e “somos amados”. Nesta, a décima-primeira, o pastor da igreja entra em cena e diz a todos o quanto eles são amados. Enquanto ele ora com muita emoção, mochilas são depositadas aos pés dos discípulos, nas quais há cartas e presentes de familiares e/ou amigos que já fazem parte do MDA. Trata-se de uma estratégia para “fidelizar” o discípulo.

Na última ministração, “batismo com o Espírito Santo”, todos se prostram diante de uma arca; mais um “ato profético”. Em seguida, as luzes se apagam, e eles, de mãos dadas, ouvem mais uma palavra emotiva por parte do pastor, e a histeria toma conta do ambiente. Forma-se uma espécie de “corredor polonês”, por onde os discípulos passam para receber uma “nova unção”, precedida de unção literal e abundante. Eles saem do outro lado — encharcados de óleo —, pulando ou dando gargalhadas; alguns até caem ou andam como animais quadrúpedes. Ignora-se completamente o que está escrito em 1 Coríntios 14.37-40. E, ainda antes de entrarem no ônibus, os pastores ungem seus pés. Quase todos saem dali dizendo: “O encontro foi tremendo; agora sim eu sei o que é sentir a presença de Deus”.

Os proponentes do MDA dizem que Jesus priorizou o discipulado “um a um”, em que cada discípulo deve estar debaixo da “cobertura espiritual” de um discipulador — este, segundo seu idealizador, “tem compromisso total de não falar nada para pessoa alguma daquilo que o discípulo confidenciou, a não ser que obtenha primeiramente sua permissão”. Eles também interpretam de modo equivocado a Grande Comissão (Mt 28.19,20), já que supervalorizam o “fazei discípulos”, dizendo que isto “tem que ser priorizado, pois sem dúvida é um assunto de máxima importância” (HUBER, 2016).

Como se sabe, a Grande Comissão abarca evangelização, discipulado e ensino teológico (cf. Mc 16.15; At 1.8). Na ordem “ensinai todas as nações”, o verbo (gr. matheteuo) denota “fazer discípulos”, mas em “ensinando-as a guardar todas as coisas”, o verbo, literalmente, significa “doutrinar” (gr. didasko), o que envolve metodologia e sistematização. E, aqui — diferentemente do primeiro caso — o tempo verbal indica que o ensino teológico, e não o discipulado, deve ser contínuo. Segue-se que as igrejas que priorizam a Escola Dominical e dão ênfase ao ensino teológico, que abrange doutrinas fundamentais como Trindade, Cristologia, Soteriologia, Pneumatologia etc., estão sendo fiéis ao que o Senhor Jesus ordenou!

Quanto ao MDA, como vimos, a ênfase recai sobre prosperidade financeira, batalha espiritual, falsa cura interior etc. Ademais, cada discípulo presta contas a um discipulador, que tem o direito de se intrometer na vida pessoal daquele, em seus negócios, decisões e até em sua vida conjugal! Afinal, quem está em uma determinada escala hierárquica “protege” quem está abaixo dela. Resultado: o discipulador é uma espécie de “anjo da guarda”. Ou, ainda pior: ele usurpa o lugar do Espírito Santo, pois através da “cobertura espiritual” supostamente impede que seu discípulo se desvie da “visão”.

Diante do exposto, não há dúvida de que o MDA (1999) é irmão mais novo do G12 (1983), e que ambos são “outro evangelho” (Gl 1.8). Atentemos, portanto, para o que a Palavra de Deus diz em 1 Coríntios 15.1,2: “vos notifico, irmãos, o evangelho que já vos tenho anunciado, o qual também recebestes e no qual também permaneceis; pelo qual também sois salvos, se o retiverdes tal como vo-lo tenho anunciado, se não é que crestes em vão”.


Ciro Sanches Zibordi

Artigo publicado no jornal Mensageiro da Paz, ano 87, número 1.581, de fevereiro de 2017


Referências

HUBER, Abe. A importância da igreja local na visão do MDA. In: ZIBORDI, Ciro Sanches. Sim, o MDA é o irmão mais novo do G12. Disponível em: http://www.cpadnews.com.br/blog/cirozibordi/apologetica-crista/199/sim-o-mda-e-irmao-mais-novo-do-g-12.html. Acesso em: 31 dez. 2016.
HUBER, Abe. A visão. Disponível em: http://www.associacaomda.org/a-visao/. Acesso em: 20 dez. 2016.
TOMÁZ, Gilmar Caetano. Um engano chamado MDA. Disponível em: http://admidia.blogspot.com.br/2014/08/um-engano-chamado-mda-o-que-esta-por.html. Acesso em: 14 dez. 2016.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Fim ou recomeço?


No princípio, Deus criou o mundo e pôs nele o primeiro casal, e este o decepcionou. O que aconteceu? Bem, a vida no jardim do Éden perdeu o sentido. Fim? The End, como outrora terminavam os filmes de Hollywood? Não! Simplesmente, um recomeço.

O Criador vestiu Adão e Eva de peles e estabeleceu novas metas para a humanidade. Enfim, o que passou, passou. O fim do período da Inocência deu início ao da Consciência. E mais uma vez o homem decepcionou a Deus. Os “filhos de Deus”, descendentes de Sete — filho de Adão —, se misturaram aos ímpios e possuíram suas filhas, e a Terra ficou cheia de violência e materialismo. Veio, então, o Dilúvio. Fim? Não. Recomeço. Deus preservou Noé e sua família, para com eles estabelecer um novo pacto e um novo período, o do Governo Humano, por assim dizer.

Mais uma vez, os homens fracassaram, ao tentar construir uma cidade, com uma grande torre, para glória própria, esquecendo-se de que toda a glória pertence ao Criador (Is 42.8). O que fez Ele, pôs fim a tudo? Não! Frustrou aquele mau intento, a fim de que houvesse um novo começo para os homens. Mas não pense que Deus estava tentando ajudar o ser humano sem saber o que aconteceria. Quando o pecado entrou no mundo, o Senhor já tinha um plano estabelecido — tanto que Jesus Cristo é o “Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” (Ap 13.8); isto é, todos os cordeiros mortos desde a criação do mundo tipificam o Cordeiro de Deus (Jo 1.29). Os fins e recomeços são oportunidades para a humanidade se reencontrar e entender os propósitos do Criador.

Bem, o chamado Governo Humano não deu certo, e a Torre de Babel caiu. Como diz a Palavra de Deus, “Do homem são as preparações do coração, mas do Senhor é a resposta da boca” (Pv 16.1). Quando fazemos planos e eles desmoronam, isso não significa o fim. Deus, naquela ocasião, espalhou as pessoas, para um novo começo: o período Patriarcal.

O Senhor fez alianças com Abraão, Isaque e Jacó, e nasceram aqueles que formariam as doze tribos de Israel, mas o livro dos começos, o Gênesis, terminaria de modo aparentemente trágico: “E morreu José da idade de cento e dez anos; e o embalsamaram, e o puseram num caixão no Egito” (Gn 50.26). Que ironia! O livro que começa com uma frase cheia de vida “No princípio, criou Deus os céus e a terra” termina com morte, embalsamamento e caixão, palavras que gostaríamos de riscar do vocabulário!

Mas não podemos nos esquecer de que cremos no Doador da vida! E de que a morte, para os seus servos, é um recomeço, em outra dimensão, a celestial! Nem a morte pode nos separar do amor de Deus (Rm 8.38,39).

Começa, então, o período da Lei, com a saída dos filhos de Israel do Egito — liderados por Moisés —, que não eram mais uma família, mas um grande povo. Esse período duraria até a plenitude dos tempos, quando Deus enviaria seu Filho, “nascido de mulher, nascido sob a lei, para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos” (Gl 4.4,5). No decurso desse período, entre os livros de Êxodo e Malaquias, houve vários fins e recomeços. E, como a humanidade não foi capaz de retomar o rumo segundo a vontade de Deus, mais um período teria de acabar, como lemos em João 1.17: “a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo”.

Cristo, o Deus-Homem, o verdadeiro Deus encarnado (Jo 1.1,14; 1 Tm 3.16), dá início ao período da Graça. Mas somente a sua encarnação não seria suficiente. Teria Ele de passar pelas angústias humanas. O véu precisaria ser rasgado. E não estou falando do véu do Templo, partido em dois para “dizer” que o caminho para a salvação está aberto. Para isso acontecer, um outro véu teria de ser rasgado: o corpo de nosso Senhor (Hb 10.20).

Jesus nasceu, viveu e morreu. Fim? Bem, se a sua morte fosse o fim, estaríamos perdidos. Mas... Ah, como eu gosto desta palavrinha! Às vezes, até usamo-la de modo inconveniente, para criticar alguém: “Gosto de fulano, mas...” Contudo, veja como ela se encaixa como uma luva em 1 Coríntios 15.17-20. Leia esta passagem agora, em voz alta, por favor. Glória a Deus! Se Jesus não tivesse ressuscitado, a nossa fé seria vã e estaríamos perdidos. Mas Cristo ressuscitou!

Que recomeço maravilhoso e triunfante, não acha? Imagine a alegria das mulheres que foram visitar o corpo de Jesus, e encontraram a pedra revolvida e o túmulo vazio (Mc 16.1-4). Que recomeço para elas, que já não tinham esperanças! Você pode escolher ao passar por uma decepção ou tragédia uma das duas palavrinhas de três letras: “fim” ou “mas”.

É possível que você esteja enfrentando grandes angústias agora. Há, quem sabe, muitas decepções em seu coração: a perda de um ente querido em uma tragédia, a interrupção de uma gravidez, um sonho não realizado, uma enfermidade, o fim de um relacionamento... Bem, você tem a oportunidade de deixar para trás as frustrações e começar uma nova fase da vida com alegria e satisfação.

O fim não é um fim em si mesmo. Lembre-se de que sempre haverá um “mas”. O que seria de nós se alguns versículos terminassem antes dessa palavrinha? Imagine se Romanos 6.23 terminasse assim: “o salário do pecado é a morte”. Mas há um complemento animador: “o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus, nosso Senhor”. Temos dificuldades e aflições, mas o Senhor é o nosso Pastor! O Inimigo se levanta contra nós, mas maior é Aquele que está conosco! Os nossos corações nos condenam, mas maior é Ele do que os nossos corações!

Você pode ter enfrentado uma grande dificuldade, frustrações e decepções; mas tudo isso acabará, se você tiver esperança, e uma nova fase de vitórias terá início, pois cremos que o fim traz um grande recomeço para aqueles que depositam a sua esperança em Jesus Cristo!

O mundo está em guerra. O Brasil, dominado pela corrupção. O profeta Miqueias vivia dias semelhantes aos nossos (Mq 7.1-6). Contudo, havia um “mas”, um “porém”. Qual? A sua certeza em um recomeço em Deus estava inabalável, e ele exclamou: “Eu, porém, esperarei no Senhor; esperei no Deus da minha salvação: o meu Deus me ouvirá” (Mq 7.7). Pessoas especiais morreram, porém Cristo está vivo e consola o seu coração. O ano pode não estar sendo bom para você... “Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou” (Rm 8.37). Recomece!

Ciro Sanches Zibordi

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Escola Bíblica de Obreiros em Curitiba-PR



A Escola Bíblica de Obreiros da Assembleia de Deus em Curitiba, Paraná, pastor-presidente Wagner Gaby, é uma das mais tradicionais do Brasil. Por graça de Deus, há alguns anos tenho atendido a honrosos convites dessa amada igreja, cujo pastor verdadeiramente tem compromisso com a Palavra de Deus e com o Deus da Palavra.

Se eu pudesse, não perderia a oportunidade de estar ali neste ano para aprender um pouco mais da sã doutrina com homens verdadeiramente chamados por Deus, como o próprio pastor Wagner Gaby e o mestre Antonio Gilberto, que tem cadeira cativa nessa EBO, além de outros convidados especialmente para a edição 2017.

Para maiores informações, acesse:
www.assembleiadedeus.org.br/ebo2017

Ciro Sanches Zibordi

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Anjos podem possuir mulheres?


A expressão hebraica benê’elõhîm, que aparece em Gênesis 6.1-4, tem sido interpretada, muitas vezes, como uma menção a anjos, os quais teriam possuído mulheres, que teriam dado à luz gigantes. Entretanto, para defendermos essa posição — que agrada muito a roteiristas de filmes —, teríamos de ignorar o contexto imediato e outras passagens em que a mencionada expressão alude a seres de natureza completamente diferente da angelical.

Tem sido contestada — por alguns eruditos, mas principalmente pelos proponentes da seita Testemunhas de Jeová — a posição de que os filhos de Deus em Gênesis 6 seriam pessoas pertencentes à linhagem piedosa de Sete, filho de Adão. Para eles, a menção a homens tementes a Deus, em Gênesis 5, não indica, necessariamente, que os filhos de Deus do capítulo seguinte são piedosos servos do Senhor. Nesse caso, seria mais plausível acreditar que a passagem em apreço alude a seres angelicais que teriam se relacionado sexualmente com mulheres?

Quero reafirmar — uma vez que já escrevi sobre o assunto, inclusive em meus livros —, neste texto, que, após estudar detidamente Gênesis 6 por alguns anos, consultando os eruditos, continuo não vendo nenhuma plausibilidade na posição de que os filhos de Deus ali são anjos. Creio que eles são, sim, os servos do Senhor, pertencentes a um linhagem piedosa, por alguns motivos.

Primeiro: se os mencionados seres fossem mesmo anjos — e nesse caso anjos caídos, posto que os mensageiros do Senhor jamais cometeriam o pecado descrito em Gênesis 6.2 (cf. Sl 103.20), o de possuir mulheres —, seriam eles chamados de “filhos de Deus”, sem nenhuma observação ao fato de que eram seres angelicais que haviam se rebelado contra Deus?

Segundo: se não há indicação no contexto imediato — mas há! — de que os filhos de Deus não eram os descendentes de Sete, como dizem alguns teólogos, que indicação haveria nele de que os filhos de Deus, ali, eram seres angelicais?

Terceiro: alguns teólogos se apegam à suposição de que gigantes teriam surgido em decorrência do fato descrito em Gênesis 6.2. Mas observe que antes de os “filhos de Deus” tomarem para si mulheres dentre os “filhos dos homens” já havia gigantes na terra: “Havia, naqueles dias, gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus entraram às filhas dos homens e delas geraram filhos” (v. 4).

Quarto: em Mateus 22.30, vemos que no Céu os salvos serão como anjos, que nem se casam nem se dão em casamento. Entretanto, nos dias de Noé, era exatamente isso que acontecia (24.38)! As palavras de Jesus, por conseguinte, confirmariam o fato de que ocorreram diversos casamentos mistos entre os “filhos de Deus” (justos) e as “filhas dos homens” (ímpias). A terra se encheu, pois, de maldade por causa dessa mistura, e Deus então a destruiu por meio do dilúvio.

Quinto: os anjos são “espíritos ministradores” (Hb 1.14) e, conquanto possam aparecer sob a forma corpórea e interagir até certo ponto com os seres humanos (cf. Gn 12-19), não têm corpos físicos para manterem relações sexuais com mulheres. À luz das palavras de Jesus em Mateus 22.30, podemos afirmar que os anjos, repito, interagem com os seres humanos até certo ponto, mas não podem possuí-los sexualmente, já que o Senhor Jesus ensinou que eles não se casam, isto é, não podem se relacionar sexualmente com mulheres, muito menos depositar nelas a sua semente.

Sexto: Deus fez tudo com perfeição. Dois animais, macho e fêmea, de espécies completamente diferentes, por exemplo, não conseguem se relacionar a fim de gerar uma nova vida. O homem, por sua vez, pode até possuir sexualmente um animal, uma fêmea, mas não consegue efetivamente depositar nela a sua semente. O que dizer de uma relação entre anjos e humanos, cujas naturezas são completamente distintas?

Sétimo: alguns citam o caso de Jesus, gerado no ventre de Maria, já que a semente divina foi depositada em uma mulher. Entretanto, a encarnação de Jesus, o Deus-Homem, que é um mistério (1 Tm 3.16), foi excepcional, visto que Ele foi gerado por obra e graça do Espírito Santo. Não se tratou de algo que pode ser repetido. O próprio Anticristo não será gerado pelo próprio Satanás no ventre de alguma mulher, como alguns pensam. O preposto do Diabo será um homem qualquer, que nascerá como qualquer outro, assim como hoje muitos não nascem anticristos, mas “se têm feito anticristos” (1 Jo 2.18).

Oitavo: em Jó 1.6; 2.1, sem dúvida, filhos de Deus são anjos. Mas afirmar que todas as vezes em que se menciona esta expressão no Antigo Testamento é uma alusão a anjos não reflete boa exegese. Esse termo aparece em muitas outras passagens, referindo-se a anjos e a homens (Dt 14.1; 32.5; Sl 73.15; Os 1.10 etc.). No Novo Testamento, os que nascem de novo também são chamados de filhos de Deus (Jo 1.11,12; Gl 4.4,5). Como não se trata de uma designação exclusiva dos anjos, precisamos examinar com cuidado o contexto imediato e a analogia geral da Bíblia.

Diante do exposto, reafirmo que Gênesis 6.1-4 nos apresenta a primeira ocorrência de casamento misto entre crentes e incrédulos. Os filhos de Deus, isto é, os descendentes de Sete, jovens tementes ao Senhor, em vez de permanecerem fiéis e leais à sua herança espiritual, cederam à tentação e se uniram a belas jovens ímpias, seguidoras da tradição e do exemplo de Caim. E o resultado disso foi a depravação da natureza humana, no tocante às gerações mais jovens, até que os antediluvianos se afundaram nas profundezas da iniquidade (v. 5). Fica aqui o alerta para todos os filhos de Deus: o Senhor não aprova a mistura. “Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis” (2 Co 6.14).

Ciro Sanches Zibordi

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Você propaga "fake news" na Internet?


Há alguns anos, vários cristãos (cristãos?), por meio de blogs, sites e seus perfis em redes sociais, propagaram a notícia de que certo líder evangélico teria dito, em uma reunião: "Se não tiver espaço pra mim, eu racho a igreja no meio". Em razão de eu conhecer muito bem tal líder, surpreendi-me com essa suposta afirmação e resolvi averiguar com diligência os fatos.

Muitos divulgaram a frase mencionada com grande destaque. E vários internautas — evangélicos e não-evangélicos —, no espaço de comentários, não economizaram nos adjetivos e impropérios contra o autor da suposta frase. Entretanto, verifiquei que todos os textos sobre o assunto diziam que "a frase teria sido dita pelo próprio líder, segundo sites e blogs de pastores da Convenção".

Observe: "teria sido dita". Mas onde está a prova de que a frase fora, de fato, pronunciada? Veja o poder de propagação dos boatos pela grande rede! Alguns disseram que "fulano teria dito", e outros propagaram que "beltranos teriam dito que fulano teria dito". Em seguida, outros afirmaram que "sicranos teriam dito que beltranos teriam dito que fulano teria dito". Por fim, cheguei à conclusão de que tudo não passava de "fake news" (notícia falsa).

É impressionante como pessoas que se dizem cristãs têm a capacidade de propagar suposições e invencionices etc. como se fossem verdades absolutas! E, com isso, caluniam e difamam! Quando Jesus disse: "Não julgueis para que não sejais julgados" (Mt 7.1), referiu-se a este tipo de julgamento, calunioso ou difamatório, já que Ele mesmo afirmara que devemos julgar segundo a reta justiça (Jo 7.24).

Segue-se que devemos julgar todas as coisas com honestidade, retidão, justiça etc. Em contraposição, o julgar constante da primeira citação bíblica equivale a caluniar, difamar, julgar de maneira apressada, sem fundamento, propagar suposições como se fossem notícias verdadeiras.

Reflitamos, pois, sobre o nosso papel como cristãos formadores de opinião. E lembremos do que está escrito nas Escrituras, em Romanos 14.10 e 2 Coríntios 5.10, respectivamente: "Mas tu, por que julgas teu irmão? Ou tu, também, por que desprezas teu irmão? Pois todos havemos de comparecer ante o tribunal de Cristo"; "Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem, ou mal".

Ciro Sanches Zibordi

domingo, 12 de fevereiro de 2017

O que é um culto com animação de plateia [e algumas heresias]?


Era um culto de domingo, em uma grande e tradicional igreja evangélica. O templo estava lotado, e tudo transcorria normalmente, após a oração de abertura, que terminou com o primeiro “amém” da noite.

Havia muitas pessoas não crentes para ouvir a exposição da Palavra de Deus. No púlpito, os obreiros folheavam a Bíblia, esperando ter uma oportunidade para falar. E isso poderia acontecer, uma vez que o pastor pregara no domingo anterior e não costumava avisar com antecedência o pregador do próximo culto.

Após o momento de cânticos, com todos os conjuntos musicais, e a leitura da Bíblia Sagrada, o pastor anunciou:
— Vamos fazer uma oração e, em seguida, ouviremos uma saudação pelo pastor José dos Clichês, que hoje deixou a sua congregação, e gostaríamos de ouvi-lo transmitir uma rápida palavra.

O dirigente do culto começou a orar, e José, assentado na galeria por ter chegado tarde à reunião, lembrou-se de uma pregação que ouvira sobre o texto de 1 Pedro 3.15, cujo tema foi: “Estai sempre preparados”.

Terminada a oração com mais um “amém”, José se levantou calmamente e dirigiu-se ao púlpito, sem saber o que falaria, pois, mesmo sendo um ministro, não tinha nenhuma mensagem preparada... A fim de ganhar tempo, fez questão de cumprimentar os vinte obreiros que ali estavam, um por um. Ajustou, então, lentamente, o pedestal do microfone e começou a falar:
— Saldo os irmãos com a paz do Senhor e os amigos com uma boa noite de salvação! Amém?

Como poucos irmãos responderam, ele reclamou:
— Parece que esse “amém” foi para mim. Saldo os irmãos com a paz do Senhor! Amééém?
— Amééééééééém! — o público respondeu.
— É motivo de grande alegria estar aqui neste lugar, pois anjos, arcanjos, querubins e serafins estão aqui, nesta noite. Amém, irmãos?

Ao som de um desconfiado “amém”, José continuou:
— O povo de Deus é um povo alegre! Olhe para o seu irmão e diga: “Eu profetizo unção de alegria sobre a sua vida!” — isso fez com que todos se movimentassem, se cumprimentassem e conversassem em voz alta durante alguns minutos.

Depois desse momento de — digamos — “descontração”, José continuou:
— Desejo, antes de proferir a poderosa e magnânima mensagem que já está em meu coração, cantar um hino para Jesus. Minha voz não está boa, mas vou cantar para Jesus!

Pedindo aos músicos uma nota, começou a cantar de forma desafinada a canção Jesus Tomou as Chaves do Diabo. Alguns irmãos sorriam, outros olhavam para o relógio, e a maioria cochichava:
— Que desafinado — todos, na verdade, sabiam que ele, por não conhecer música, pedira um tom muito alto. Pior que isso: estava cantando fora do tom pedido. Mesmo assim, não se intimidou e cantou o “hino” duas vezes!

Os obreiros do púlpito permaneciam de cabeça baixa, olhando para a Bíblia, enquanto o pastor da igreja — que parecia antever o que aconteceria — pronunciava em tom baixo um pejorativo “amém”. Quando ele pensava que nada pior poderia acontecer...
— Irmãos — disse José dos Clichês. — Esse hino é maravilhoso e me faz lembrar do tempo em que eu era um pecador, e a poderosa mão de Deus me alcançou... E quantas pessoas estão sofrendo, no pecado... Glória a Deus! Aleluia! Como disse o apóstolo Pedro, em Hebreus: “Horrenda coisa é cair na mão do Deus vivo”.

Não percebendo que havia aplicado o versículo de modo contraditório e citado a fonte erroneamente, ainda acrescentou:
— E essa mão vai tocá-lo nesta noite! Se você crê, levante a mão direita e comece a liberar a sua fé! Você é vencedor! Declare isso!

Apesar de gritar e pular, a ponto de suar e quase perder a voz, percebeu que não houve o “retorno” que esperava. O povo não estava tão impressionado com as suas palavras e atitudes. Assim, resolveu fazer uma oração:
— Fiquemos em pé! Vamos fazer uma oração de conquista! Vamos tomar tudo o que o Diabo nos roubou! Comece a liberar a sua fé! Determine agora a sua vitória! Exija que o Diabo deixe a sua vida!

Quando a estranha oração já durava vários minutos, e alguns irmãos já estavam sentados, ele concluiu:
— Em o nome de Jesus, eu determino que haja vitória para o seu povo e profetizo que todos recebam a bênção agoooooooooora! Diabo, eu exijo: Pegue tudo o que é seu e saia, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

A essa altura, todos pensavam que ele terminaria a sua “rápida” saudação. Mas, folheando a Bíblia de um lado para o outro, prosseguiu:
— Bem, irmãos, para não ficar somente em minhas palavras, quero deixar um versículo para a meditação de todos. Desejo ler uma passagem conhecida, pois o salmista disse que a Palavra de Deus se renova a cada manhã...

Após alguns segundos de procura, voltou-se para os obreiros do púlpito e perguntou:
— Irmãos, quero deixar para a igreja aquele versículo que diz: “Quem não vem pelo amor, vem pela dor”. Onde está mesmo? Acredito que esteja em Eclesiástico...
— Irmão José, é Eclesiastes — manifestou-se um dos obreiros, em tom baixo.

Nesse instante, enquanto alguns irmãos riam de cabeça baixa, José continuava a procurar o versículo... Ele já havia consultado a concordância resumida que havia em sua Bíblia, mas... Faltavam apenas vinte minutos para o término do culto, e o horário da pregação já estava atrasado em quase meia hora. Para complicar mais a situação, o pastor havia convidado Antonio das Revelações, um famoso pregador da Igreja do Evangelho Antropocêntrico, que chegara poucos minutos depois do início da “saudação”.

Antes que o pastor, um homem muito paciente, puxasse o paletó do irmão José, ele tomou uma atitude: fechou a Bíblia de forma brusca e, um tanto trêmulo, abriu-a de novo, lentamente, mantendo os olhos fechados e um dedo sobre uma passagem.
— Irmãos, eu resolvi tirar uma palavra, e caiu aqui em Salmos 32.9. E o Senhor vai falar com você agora, pois o nome de Deus é Já! Quem achou, diga “amém”. Quem não achou, diga “misericórdia”.

Ao ouvir um fraco “amém”, ele firmemente procedeu a leitura:
— “Não sejais como o cavalo, nem como a mula, que não têm entendimento, cuja boca precisa de cabresto e freio, para que se não atirem a ti”.

Lido o texto, o dirigente do culto, que mantinha um olho na Bíblia e outro no relógio da parede, não suportando a sucessão de atitudes inconvenientes, disse em alto e bom tom:
— Amém, pastor José. Agora é a hora da Palavra! Vamos ouvir a pregação!

José olhou para o pastor e, entendendo que dissera aquelas palavras em sinal de aprovação, para que ele continuasse falando e iniciasse, de fato, a pregação, respondeu, com ar de soberba:
— Esse versículo é muito profundo, e eu poderia ficar aqui falando muito tempo. Só não vou fazer isso porque o pastor me deu a oportunidade para apenas uma saudação. E eu quero ser fiel ao meu pastor. No entanto, gostaria de fazer só mais uma coisa. Olhem para mim!

Nesse instante, houve um momento de expectativa...
— Lemos um versículo que mostra o poder das palavras. Olhe para o seu irmão e diga: “Aprenda a usar o poder de suas palavras, pois com elas você pode produzir bênção e maldição”.

Boa parte do povo estava um tanto impaciente, haja vista a expectativa de ouvir o pregador convidado, e acabou não seguindo as ordens de José.
— Parece que os irmãos estão um tanto desanimados. Repreenda esse espírito de desânimo, irmão! Amém?

Sem ouvir sequer um irmão dizendo “amém”, José preferiu não insistir e, finalmente, concluiu:
— Eu agradeço a oportunidade, e que o Espírito Santo fale melhor em cada coração.

Como faltavam poucos minutos para terminar o culto, e o grupo de coreografia ainda pediria para se apresentar antes da mensagem — mais quinze minutos! —, a saudação, propriamente dita, ficaria a cargo do pregador convidado...

No entanto, este ainda falaria por mais cinquenta minutos, pedindo que o povo respondesse a mais alguns “améns”. Antes de pregar sobre os seus assuntos preferidos, a prosperidade, os direitos do crente e os demônios, pediu a todos que olhassem para o irmão ao lado e dissessem:
— Eu te abençoo agora! E profetizo prosperidade sobre a tua vida!

O público acabou se animando um pouco com essa sessão de “profecias”, mas cansou-se logo, pois, a cada frase de efeito que o pregador empregava, dizia:
— Diga isso para o seu irmão...

De fato, ele parecia ser um homem de fé, pois relatou inúmeros encontros que teve com Jesus e os apóstolos, no céu, e com o Diabo, no inferno. Ele aproveitou para oferecer o livro As Revelações do Céu e do Inferno que Paulo Não Teve Coragem de Escrever, lançado pela editora Fé na Fé.
— Irmãos, eu recebi este livro quando visitei o céu pela primeira vez e conversei com o apóstolo Paulo. Ele me disse que não teve coragem de escrever em suas epístolas tudo o que viu, mas que me autorizava a divulgar essa mensagem para a Igreja dos últimos dias. Neste livro, estão revelados muitos mistérios que não se encontram na Bíblia.

Após a longa e polêmica pregação, o pastor — cheio de dúvidas quanto a tudo o que ouviu — impetrou a bênção apostólica e encerrou a reunião com o último “amém”!

Há um versículo que parece definir bem o que foram as pregações do José dos Clichês e Antônio das Revelações: “O princípio das palavras de sua boca é a estultícia, e o fim da sua boca um desvario péssimo” (Ec 10.13).

Ciro Sanches Zibordi
Este texto ficcional foi publicado sob o título O último amém no livro (bestseller): Erros que os Pregadores Devem Evitar (CPAD, 2005)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Novedad: El futuro glorioso de la Iglesia


¡Ha llegado la nueva edición de 'Estudios Bíblicos' del SETEIN: Seminario Teológico Internacional!

Tema: El futuro glorioso de la Iglesia.

Comentarista: Ciro Sanches Zibordi

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Correo electrónico: setein@setein.com.br

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

O que significa "tocar nos ungidos"?


Maus obreiros, falsos profetas, celebridades gospel e até políticos “evangélicos” têm empregado a frase bíblica “Não toqueis nos meus ungidos” (Sl 105.15) para ameaçar seus críticos. E crentes mal-orientados também a aplicam para reforçar a ideia de que não cabe aos servos de Deus julgar ou criticar heresias e práticas antibíblicas.

Quando examinamos os contextos literário e histórico-cultural da frase acima, vemos o quanto ela tem sido usada fora de contexto. Uma leitura atenta do Salmo 105 não nos deixa em dúvida de que os ungidos mencionados são os patriarcas Abraão, Isaque, Jacó (Israel) e José (vv. 9-17). Ademais, o título “ungido do Senhor” refere-se tipicamente, no Antigo Testamento, aos reis de Israel (1 Rs 12.3-5; 24.6-10; 26.9-23; Sl 20.6; Lm 4.20) e aos patriarcas, em geral (1 Cr 16.15-22).

Embora a frase em apreço não encerre um princípio geral, podemos, por analogia, é claro, afirmar que Deus, na atualidade, protege os seus ungidos assim como cuidou dos seus servos do passado. Mesmo assim, não devemos presumir que todas as pessoas que se dizem ungidas de fato o sejam. Lembremo-nos do que o Senhor Jesus disse em Mateus 7.21: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! Entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus”.

A Bíblia, evidentemente, apoia o pensamento de que o Senhor cuida dos seus servos e os protege (1 Pe 5.7; Sl 34.7). Mas isso se aplica aos que verdadeiramente são ungidos, e não aos que parecem, pensam ou dizem ter a unção de Deus (Mt 23.25-28; Ap 3.1; 2.20-22). “O Senhor conhece os que são seus, e qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniquidade” (2 Tm 2.19).

Quando Paulo andou na terra, havia muitos “ungidos” ou que aparentavam ter a unção de Deus (2 Co 11.1-15; Tt 1.1-16). O imitador de Cristo nunca se impressionou com a aparência deles (Cl 2.18,23), mas afirmou: “E, quanto àqueles que pareciam ser alguma coisa (quais tenham sido noutro tempo, não se me dá; Deus não aceita a aparência do homem), esses, digo, que pareciam ser alguma coisa, nada me comunicaram” (Gl 2.6). Aparência, popularidade, eloquência, títulos, status, anos de ministério, quantidade de votos obtidos... Nada disso denota que alguém esteja sob a unção de Deus e imune à contestação à luz da Palavra de Deus.

Muitos enganadores, ao serem questionados quanto às suas pregações e práticas antibíblicas, têm citado, além da frase em análise, o episódio em que Davi não quis tocar no desviado rei Saul, que fora ungido pelo Senhor (1 Sm 24.1-6). No entanto, a atitude de Davi não denota que ele tenha aprovado as más obras daquele monarca. Se alguém, à semelhança de Saul, foi um dia ungido por Deus, não cabe a nós matá-lo espiritualmente, condená-lo ao Inferno. Entretanto, isso não significa que devamos silenciar ou concordar com todos os seus desvios do Evangelho (Fp 1.16; Tt 1.10,11). O próprio Jônatas reconheceu que seu pai turbara a terra; e, por essa razão, descumpriu, acertadamente, as suas ordens (1 Sm 14.24-29).

O texto de Salmos 105.15, portanto, não proíbe o juízo de valor, o questionamento, o exame, a crítica, a análise bíblica de ensinamentos e práticas de líderes, pregadores, milagreiros, cantores, etc. Até porque o sentido de “toqueis” e “maltrateis” é exclusivamente quanto à inflição de dano físico. E é curioso como certos “ungidos”, ao mesmo tempo que citam o aludido bordão em sua defesa — quando as suas práticas e pregações são questionadas —, partem para o ataque, fazendo todo tipo de ameaças!

O showman, e não pregador, como muitos pensam, Benny Hinn, por exemplo, verberou: “Vocês estão me atacando no rádio todas as noites — vocês pagarão e suas crianças também. Ouçam isto dos lábios dum servo de Deus. Vocês estão em perigo. Arrependam-se! Ou o Deus Altíssimo moverá sua mão. Não toqueis nos meus ungidos” (citado em Cristianismo em Crise, CPAD, p.376). Quem são os verdadeiros ungidos, que, mesmo não se valendo da frase citada, têm de fato a proteção divina, até que cumpram a sua vontade? São os representantes de Deus que, tendo recebido a unção do Santo (1 Jo 2.20-27), preservam a pureza de caráter e a sã doutrina (Tt 1.7-9; 2.7,8; 2 Co 4.2; 1 Tm 6.3,4). Quem não passa no teste bíblico do caráter e da doutrina está, sim, sujeito a críticas e questionamentos (1 Tm 4.12,16).

Muitos líderes, pregadores, cantores e crentes em geral, infelizmente, considerando-se ungidos ou profetas, escondem-se atrás da frase “Não toqueis nos meus ungidos”, mentem e cometem todo tipo de pecado, além de torcerem a Palavra de Deus. Caso não se arrependam, serão réus naquele grande Dia! Os seus fabulosos currículos — “profetizamos”, “expulsamos”, “fizemos” — não os livrarão do juízo (Mt 7.21-23).

Portanto, que jamais aceitemos passivamente as heresias de perdição propagadas por pseudo-ungidos, que insistem em permanecer no erro (At 20.29; 2 Pe 2.1; 1 Tm 1.3,4; 4.16; 2 Tm 1.13,14; Tt 1.9; 2.1). Mas respeitemos os verdadeiros ungidos (Hb 13.17), que amam o Senhor e sua Santa Palavra, os quais são dádivas à sua Igreja (Ef 4.11-16). Quanto aos que, diante do exposto, preferirem continuar dizendo — presunçosamente e sem nenhuma reflexão — “Não toqueis nos meus ungidos”, dedico-lhes outro enunciado bíblico: “Não ultrapasseis o que está escrito” (1 Co 4.6, ARA). Caso queiram aplicar a si mesmos a primeira frase, que cumpram antes a segunda!

Ciro Sanches Zibordi