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terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Pentecostais rumo à igreja reformada?

A cada ano, por ocasião do aniversário da Reforma Protestante, elevam-se vozes em favor de uma nova reforma: “Voltemos ao evangelho da cruz! Chega de Teologia da Prosperidade! Somente as Escrituras! Somente Cristo! Somente a fé! Somente a graça! A Deus toda a glória!” etc. Sejamos sinceros. Isso é viável? Nada é impossível ao Senhor, mas há vários entraves para uma reforma do evangelicalismo, a começar pelo orgulho denominacional.

Nenhuma igreja dentre as tradicionais com mais de cem anos de história está disposta a abrir mão de seu sistema teológico-eclesiástico-consuetudinário, a fim de atender a uma agenda padronizadora benéfica para o Reino de Deus. E quem pede uma nova reforma, muitas vezes, tem contribuído para segregar a cristandade. Há pouco tempo, um influente teólogo usou suas mídias sociais para fazer declarações bombásticas — sem citar uma pesquisa que as confirmasse — sobre a migração em massa de pentecostais para denominações calvinistas.

Como era de esperar, houve reações diversas, já que tal teólogo não apenas afirmou que muitos pentecostais estão se tornando reformados, mas incentivou seus pares a se mobilizarem para recebê-los. Segundo ele, as igrejas reformadas não podem decepcionar centenas e centenas de pentecostais e neopentecostais que estão chegando. Estes, de acordo com outros expoentes calvinistas, encantados com a pregação expositiva pela Internet — e cansados de gritaria, pregações sem nexo e animação de auditório —, estariam procurando igrejas reformadas para ouvir a genuína exposição das Escrituras.

Calvinistas, evidentemente, vibraram com tais declarações, mas os pentecostais as consideraram para lá de exageradas e infundadas. Sinceramente, a priori, elas parecem coerentes, pois há mesmo um descontentamento por parte de muitos pentecostais com a pregação triunfalista, antropocêntrica, que tem tomado conta dos púlpitos assembleianos, especialmente em grandes eventos. E isso tem sido denunciado pelos próprios apologistas da Assembleia de Deus.

Entretanto, como saber se essas pessoas que ora deixam a fé pentecostal para supostamente abraçar o calvinismo — não se sabe ao certo quantas — conhecem, de fato, a diferença entre o pentecostalismo e o calvinismo? Ora, assim como um calvinista convicto dificilmente deixará essa tradição para abraçar outra, podemos dizer o mesmo dos crentes pentecostais igualmente convictos.

Para os críticos do pentecostalismo, esse termo abarca vários movimentos heterodoxos. Nesse caso, que tipo de “pentecostal” estaria migrando para igrejas reformadas? Seria o pentecostal instruído, praticante, frequentador de Escola Bíblica Dominical e de cultos de ensino, ou quem teve contato com igrejas pseudopentecostais que priorizam o famigerado “reteté”? Com todo o respeito, o assembleiano médio, batizado no Espírito Santo, amante das Escrituras, dificilmente se deixará convencer pelo “canto da sereia” de qualquer movimento.

Dizer que pentecostais só ouvem a verdadeira exposição da Palavra em igrejas reformadas, por outro lado, é uma afirmação preconceituosa, para dizer o mínimo. Aliás, alguns expoentes mais exaltados do calvinismo parecem sugerir, nas entrelinhas, que os pentecostais formam parte de um “evangelicalismo subdesenvolvido” ou “terceiro mundo teológico”. Ora, é verdade que os assembleianos, em especial, não priorizam a pregação expositiva como modelo homilético, mas isso não quer dizer que eles desprezam a exposição bíblica.

Presbiterianos e outros segmentos reformados praticamente “canonizaram” a pregação expositiva. Para eles, foi ela que “virou o mundo às avessas — não uma pregação por tópicos” (SPROUL, p. 276). Entretanto, isso é um equívoco, pois as pregações de Estêvão, perante o sinédrio, e a de Paulo, no Areópago, por exemplo, evidenciam que um sermão por tópicos ou até mesmo improvisado pode ser bíblico e cristocêntrico (cf. At 7; 17.15-34).

Ademais — embora nas festividades das Assembleias de Deus prevaleçam as pregações temáticas, que não são, necessariamente, antibíblicas —, é um exagero sem tamanho afirmar que não há pregações expositivas entre os pentecostais assembleianos. Na verdade, o problema não está no método, mas em quem prega e como prega (ZIBORDI, p. 84-85). Por outro lado, ainda que, no sermão expositivo, seja mais difícil haver desvios, já que o pregador fica “preso” a uma perícope, se este não for fiel ao texto sagrado, dará um jeito de torcê-lo.

Temos visto exemplos nesse sentido, aliás, inclusive entre os pregadores expositivos calvinistas. É comum, por exemplo, ouvimo-los amoldando o texto bíblico à sua maneira de pensar. Exemplo clássico: dizer que as palavras “todos” e “mundo”, quando referentes à obra expiatória de Jesus (cf. Rm 11.32; 1 Tm 2.4; Jo 1.29; 3.16), aplicam-se a todos os tipos de pessoas eleitas para a salvação, supostamente, antes da fundação do mundo, e não à totalidade do mundo.

Igrejas reformadas e pentecostais creem que Jesus é o único Senhor e Salvador. Ambas, embora tenham cosmovisões diferentes, creem nos princípios da Reforma Protestante (cinco solas). Ambas, portanto, devem priorizar a pregação aos perdidos, e não o proselitismo. A despeito de nosso orgulho denominacional, nenhuma denominação, por mais antiga que seja, é a detentora da mensagem de salvação.

Ainda que não existam pesquisas comprobatórias, é evidente que há um amplo movimento de troca de igrejas, desde a Reforma Protestante. Haja vista o próprio Lutero, que criticou os dogmas do romanismo e rompeu com o papado. Sem dúvida, há cristãos descontentes com as denominações, inclusive as tradicionais, e muitos têm preferido não pertencer a igreja alguma. Não obstante, por ironia, formam parte da “igreja dos desigrejados”, os quais dizem não ter pastor, mas seguem ensinamentos de gurus da Internet.

Voltando à afirmação do teólogo reformado de renome, como não veio acompanhada de pesquisa, podemos dizer, também, o contrário. Alguns expoentes pentecostais renomados têm dito que há uma grande migração de crentes de várias tradições cessacionistas para igrejas pentecostais, justamente porque buscam o equilíbrio entre a pregação bíblica e o poder do Espírito. Afinal, nosso evangelho não é “somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo, e em muita certeza” (1 Ts 1.5).

Finalmente, a bem da verdade, estudiosos da Bíblia têm grande dificuldade de permanecer em igrejas que não pregam a sã doutrina, independentemente do meio utilizado para isso. Fica aqui um alerta para os líderes pentecostais: se querem que seus membros permaneçam, devem ter uma Escola Bíblica Dominical forte, cultos de doutrina em que se apresente, verdadeiramente, a exposição da doutrina etc. Caso contrário, não poderão se indignar contra a migração — ainda que em pequena escala — para igrejas reformadas.

Ciro Sanches Zibordi

Referências
SPROUL, R. C. Estudos Bíblicos Expositivos em Atos. 1. ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2017.
ZIBORDI, Ciro Sanches. Paulo: o Príncipe dos Pregadores. 1. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2019.