Anúncio

terça-feira, 23 de maio de 2017

Por que Trump visitou Israel?


Nesta semana, Donald Trump tornou-se o primeiro presidente dos Estados Unidos a visitar o Muro das Lamentações, o que fez da sua passagem por Israel um evento histórico. Sua visita à Terra Santa, aliás, não aconteceu por acaso. Ele aproveitou o mês de maio, muito significativo para o Estado de Israel, para retomar a bem-sucedida parceria israelo-estadunidense, praticamente ignorada por seu antecessor, Barack Obama, que preferiu agradar os inimigos históricos de Israel.

Por que a visita de Trump à Terra Santa ocorreu no mês de maio. Grandes acontecimentos se deram em Israel, nesse mês, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a começar pela derrota da Alemanha nazista, em 8 de maio de 1945. Depois da vitória dos Aliados, Israel finalmente pôde se estruturar para, em poucos anos, ter o seu Estado proclamado. E isso aconteceu em 14 de maio de 1948, quando terminou o Mandato Britânico.

O domínio da Grã-Bretanha sobre Israel perdurou por trinta anos (1918-1948). À época, a população judaica na Terra de Israel era de 650 mil pessoas e já formava uma comunidade organizada, com instituições políticas, sociais e econômicas bem desenvolvidas. Israel já era uma nação em todos os sentidos, faltando apenas a oficialização do Estado. Naquele mesmo dia foi proclamado o Estado de Israel, de acordo com o plano de partilha da ONU (Organização das Nações Unidas) de 1947.

Apenas onze minutos após essa proclamação, o presidente dos Estados Unidos, Harry S. Truman, reconheceu a legitimidade do Estado de Israel, o que marcou o início de uma profunda amizade e respeito mútuo, baseados em valores democráticos comuns, decorrentes de sistemas políticos e jurídicos firmemente apoiados nas tradições liberais. O relacionamento entre eles é tão bom que, às vezes, eles “concordam em discordar”. Em um único dia, 14 de maio de 1948, Israel se tornou independente da Grã-Bretanha, teve o seu Estado proclamado e firmou uma amizade com a maior potência mundial.

No dia seguinte, surgiram enormes dificuldades. Aliás, menos de 24 horas após a proclamação do Estado de Israel, os exércitos regulares de Egito, Jordânia, Síria, Líbano e Iraque já tinham invadido o novo país, forçando Israel a defender a soberania que acabara de conquistar. Essa, que ficou conhecida como a Guerra da Independência, foi vencida por Israel, após quinze meses de batalha, entre maio de 1948 e julho de 1949. Ela ceifou a vida de seis mil israelenses (quase 1% da população). Ainda durante esse período, os israelenses obtiveram uma grande vitória no âmbito político: em 11 de maio de 1949, o Estado de Israel se tornou o 59º membro das Nações Unidas.

Em 1960, um dos principais organizadores do programa de extermínio nazista durante a Segunda Guerra Mundial, Adolfo Eichmann, foi levado para Israel a fim de ser julgado segundo a legislação israelense de punição aos nazistas e seus colaboradores, criada em 1950. Eichmann, considerado culpado de crimes contra a humanidade e o povo judeu, foi condenado à morte e enforcado em 30 de maio de 1962. Essa foi a única vez em que a pena de morte foi aplicada sob a lei israelense.

Cinco anos mais tarde ocorreu a Guerra dos Seis Dias. Em maio (novamente em maio) de 1967, o Egito novamente deslocou um grande número de tropas para o deserto do Sinai, ordenando que as forças de manutenção de paz da ONU se retirassem da Palestina. Israel, então, invocando seu direito inerente de autodefesa, obteve grande vitória, após seis dias de combate.

Em maio de 1994, com o objetivo de por termo ao conflito israelo-palestino e, pelo menos, minimizar o conflito árabe-israelense, Israel e a então OLP (Organização para Libertação da Palestina) deram um importante passo. Israelenses e palestinos, que tinham assinado em Washigton D.C., nos Estados Unidos, uma Declaração de Princípios, começaram a conversar, visando ao estabelecimento de um autogoverno na Faixa de Gaza e na área de Jericó. A última etapa das negociações entre eles se iniciaram, de acordo com o que estava previsto, em maio de 1996. Nesses mesmos mês e ano, Israel abriu escritórios de representação comercial em Oman e no Qatar.

Durante os oito anos de obamismo houve poucos avanços no fortalecimento da relação israelo-estadunidense, a qual beneficia a ambos os países. Barack Obama, que se diz cristão, ignorou isso, preferindo cumprir a agenda progressista (contrária à cosmovisão judaico-cristã) das Organizações Unidas e da União Europeia, que, de modo geral, têm dado as costas para as Escrituras. Em razão disso, o terrorismo tem crescido em todo o mundo. Trump, inteligente e temente a Deus, na medida do possível tem se mostrado um líder conservador e, ao mesmo tempo, que busca a paz.

Aproveito, portanto, este mês de maio para parabenizar, mais uma vez, a todo o povo israelense pelo aniversário de 69 anos de proclamação do Estado de Israel. E finalizo este texto citando um trecho veterotestamentário das Escrituras Sagradas: “Rogai ao Eterno pela paz em Jerusalém! Prosperem os que te amam, ó Jerusalém! Haja paz em teus baluartes e segurança em teus palácios. Por amor a meus irmãos e companheiros, rogarei por Tua paz. Por amor à Casa do Eterno, nosso Deus, buscarei sempre o Teu bem” (Bíblia Hebraica, Editora Sêfer, Salmo 122).

Ciro Sanches Zibordi

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Conselhos aos youtubers evangélicos


Como tem aumentado o número de youtubers evangélicos, especialmente na área do humor — alguns deles, inclusive, foram entrevistados, recentemente, por Pedro Bial, da Rede Globo (foto) —, resolvi republicar aqui uma entrevista que concedi à revista Geração JC (ano XIII, número 106; CPAD, 2015) a respeito dos limites do humor cristão.

GJC: O senhor é um apologista que já usou bastante do humor em algumas de suas obras e artigos, hoje até bem menos. Atualmente, talvez por influência da nova geração de humoristas no Brasil, que usam muito vídeos na internet como trampolim, muitos jovens evangélicos estão se dedicando ao humor na internet, chamando a atenção até dos não evangélicos. Muitos destes jovens começam bem, com um humor sadio, mas acabam depois decepcionando, partindo para um humor mais escrachado, mundano. Até a GeraçãoJC já passou por essa experiência, de divulgar jovens que usam canais do YouTube para fazer humor e evangelismo, e depois se decepcionar com alguns casos. Por que muitos desses jovens acabam tomando esse caminho?
CSZ: A palavra grega apología aparece pela primeira vez, no Novo Testamento, em Atos 22.1, em alusão à autodefesa de Paulo perante seus acusadores. Esse apóstolo — que foi um grande apologista, isto é, um defensor do Evangelho (Fp 1.16) — valeu-se muito da comicidade em suas cartas. Em 2Coríntios 11.5, por exemplo, ele ironiza os falsos pregadores chamando-os de “excelentes apóstolos”. Mas Paulo usava o humor apenas como um meio de pregar e defender o Evangelho, e não como um fim. Ou seja, ele não era um humorista cristão! O problema do chamado humor evangélico é que o seu objetivo, claramente, é a autopromoção. Muitos jovens estão fazendo vídeos de humor, prioritariamente, para serem vistos, e não para glorificarem a Deus. E aí está o grande desvio do alvo, visto que a Palavra de Deus ensina: “fazei tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31).

GJC:
Quais os limites para o humor cristão? O que a Bíblia fala sobre isso?
CSZ: A Bíblia é um Livro de princípios. Um deles já foi citado: tudo o que fazemos deve glorificar a Deus. Outro, muito importante, é: “Abstende-vos de toda aparência do mal” (1Ts 5.22:). A Palavra de Deus também afirma que todas as coisas são lícitas, mas algumas são inconvenientes, dominadoras e não edificantes (1Co 6.12 e 10.23). Caso um jovem me pergunte: “Posso fazer um vídeo de humor para satirizar o culto pentecostal?”, minha resposta será: “Pode”. E, em seguida, lhe farei outra indagação: “Como servo de Deus, você deve fazer tal vídeo?” Embora não haja proibição expressa na Bíblia ao humor, quando o empregamos devemos perguntar a nós mesmos: Isso glorifica a Deus, convém aos cristãos e os edifica? #FicaADica (risos).

GJC:
Que orientações o senhor dá ao jovem para que ele perceba pessoalmente que está passando dos limites nessa área?
CSZ: Os princípios da Palavra de Deus citados nos conduzem a uma reflexão sobre o que podemos e o que devemos fazer. Isso também se aplica aos pregadores que se valem da comicidade. Ao escrever aos crentes de Corinto, o apologista Paulo afirmou: “nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado. [...] A minha palavra e a minha pregação não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração do Espirito e de poder” (1Co 2.2-4). Em outras palavras, o legítimo pregador do Evangelho não deve aparecer mais que Jesus Cristo. Seu alvo é apresentar o Evangelho. Quando alguém prioriza o humorismo e o utiliza como o fim, e não como um meio, quem fica em evidência? A Pessoa central do Evangelho, ou o humorista?

GJC:
O YouTube está cheio de vídeos que tentam evangelizar através de sátiras. Até que ponto isto é uma estratégia de evangelismo? E esta forma de evangelização, contribui para o Reino de Deus?
CSZ: Como eu já disse, à luz da Bíblia, os meios de evangelização devem ser usados para atingir o fim: apresentar Cristo ao mundo. Nesse caso, “evangelizar através de sátiras” seria um meio de evangelização ou um fim em si mesmo? De que maneira vídeos que satirizam a fé cristã ou o culto evangélico de modo ultrajante estão aproximando os pecadores de Jesus Cristo? Quando há bom senso, pregar o Evangelho usando o humorismo pode ser um meio válido. Mas valer-se da comicidade para autopromoção na Internet, tendo a evangelização como álibi, é um grande engano. #PenseNisso.

GJC:
Como a igreja pode orientar os jovens que estão dentro deste perfil?
CSZ: Nunca houve tanta necessidade de as igrejas promoverem eventos para orientar a juventude cristã, uma vez que o mundo tem mudado rapidamente, e as novidades não param de surgir. Alguns líderes evangélicos já têm investido na instrução dos jovens e adolescentes, mas há muitos que ainda não perceberam o quanto isso é importante. O ideal é que os pastores de grandes igrejas — os líderes de líderes — sigam o exemplo de Paulo, que reunia os presbíteros para transmitir-lhes orientações, recomendando que eles as retransmitissem a seus liderados (At 20.17 e 2Tm 2.2). Algumas igrejas têm a figura do pastor ou líder geral de jovens, o qual, além de promover eventos para a juventude, reúne-se regularmente com os líderes juvenis das congregações a fim de lhes transmitir orientações. Ademais, nesses tempos cibernéticos, se os pastores querem atingir um maior número de jovens com a instrução necessária, devem também usar as ferramentas da Internet: vídeos, blogs, redes sociais etc.

GJC:
Finalmente, como pastor e aconselhador de jovens, que conselho o senhor dá aos jovens para que eles saibam selecionar o tipo de conteúdo que assistem na internet?
CSZ: Meu conselho final se baseia em Filipenses 4.8: “Quanto ao mais, irmãos, tudo é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai”. Todo jovem cristão pode usar a grande rede de modo passivo, assistindo a vídeos, ouvindo podcasts, lendo textos etc., bem como ativamente, propagando o que pensa por meio de aplicativos e sites como YouTube, SoundCloud, Facebook, Twitter, Google+, Instagram, Blogger etc. Em outras palavras, ele pode fazer tudo o que pensa na Internet, desde que pense somente no que é verdadeiro, honesto, justo, puro, amável, de boa fama, virtuoso e louvável. #ProntoFalei.

Ciro Sanches Zibordi

terça-feira, 9 de maio de 2017

Sete conselhos para as pregadoras


Já tenho escrito, de modo geral, sobre o ministério feminino, no portal CPAD News (ZIBORDI, 2015) e também em meu livro Mais Erros que os Pregadores Devem Evitar (CPAD, 2007). Neste texto, tendo em vista o crescimento do número de pregadoras, nos últimos anos (e com ele o surgimento de alguns perceptíveis desvios da sã doutrina), apresento-lhes, sem nenhuma presunção, estes sete conselhos. A rigor, são os mesmos que tenho apresentado aos pregadores, desde 2005 — quando a CPAD publicou Erros que os Pregadores Devem Evitar, primeiro de uma série para pregadores —, mas com alguns destaques específicos alusivos ao que tenho presenciado em ministrações femininas, in loco, e também assistindo a vídeos na Internet. Vamos aos conselhos.

1. Sejam femininas, e não imitadoras de homens. Gosto de ouvir pregadoras. Mas é desagradável ver mulheres abrindo mão de sua feminilidade para imitar os pregadores performáticos. Pense na situação inversa: um homem imitando uma mulher. Isto não causa estranheza? Há alguns anos, quando uma pregadora atualmente ex-ex-lésbica (isto mesmo: ex-ex-lésbica) fazia sucesso na Assembleia de Deus, me presentearam com uma de suas mensagens em VHS. Que decepção! Postura masculinizada, voz de machão, trejeitos e bordões de animadores de auditório etc. As mulheres deveriam falar como mulheres, pois têm um modo especial de comunicar as verdades de Deus. Por isso, no âmbito familiar, Deus deseja que pai e mãe participem da educação dos filhos: “Filho meu, ouve a instrução de teu pai e não deixes a doutrina da tua mãe” (Pv 1.8). Ou seja, a sã doutrina é a mesma, porém a maneira de comunicá-la, por parte de homem e mulher, é diferente.

2. Preguem a Palavra de Deus. Repito: os conselhos que eu tenho dado aos pregadores são extensivos às pregadoras. Se Paulo disse a Timóteo: “Prega a palavra” (2 Tm 4.2, ARA), isso vale para todas e todos que desejam pregar o Evangelho. O apóstolo não disse: “Anime auditório”, “Pregue o feminismo” ou “Desafie seus desafetos em público”. Mas, na atualidade, para tristeza do Espírito Santo, muitos pregadores — e pregadoras — embarcaram na canoa furada da pregação performática, ofensiva e desafiadora. Berram ao microfone. Ofendem seus pares, ainda que de modo indireto. Valem-se de bordões. Movimentam-se, coreograficamente, como se estivessem liberando algum tipo de raio destruidor etc.

Parem com isso, por favor! Honrem a chamada que receberam do Senhor. Muitos dizem que cada um tem o seu estilo. Quer saber qual é o estilo de pregação que agrada a Deus? Leia 1 Coríntios 2.1-5, em oração. O que vemos quando olhamos para o pregador Paulo, um imitador de Cristo? Um showman? Um pregador malabarista? Um coreógrado de púlpito? Não! Aprendemos com ele que não é preciso animar auditório nem chamar todos os holofotes para si. Preguemos, pois, a Palavra de Deus! Com graça e ousadia, como fez Estêvão diante daqueles que o acusavam. Ele foi apedrejado, é verdade; taparam os ouvidos, também é verdade. No entanto, quando Estêvão, cheio do Espírito, olhou para o céu, viu Jesus em pé, em sinal de aprovação, à direita de Deus (At 7).

3. Sejam um exemplo em tudo. Como arautos de Cristo, não pregamos apenas com o microfone à mão, pois devemos pregar o que vivemos e viver o que pregamos. Algumas irmãs, infelizmente, parecem ter a “unção do microfone”, já que fora do púlpito têm uma conduta completamente diferente da que ostentam nas igrejas. Não existem supercrentes, mas, com exceção de alguns recursos de oratória que usamos durante a pregação, nossa vida nos bastidores não deve ser muito diferente da que ostentamos no púlpito. Observe o que o apóstolo Paulo disse aos presbíteros de Éfeso: “Vós bem sabeis, desde o primeiro dia em que entrei na Ásia, como em todo esse tempo me portei no meio de vós” (At 20.18).

Cuidado com o porte, amada irmã! Este abarca conduta e postura, o que você de fato é e o que aparenta ser. Se você aparenta ser santa no púlpito, por que não ser santa nas redes sociais e no trato com as pessoas? Lembre-se de que a pregação neotestamentária não consiste apenas em palavras. Ela abarca três termos gregos que aparecem em 1 Tessalonicenses 1.5, uma das passagens que definem a pregação, no Novo Testamento: logos, pathos e ethos. Em outras palavras, abrange a pregação propriamente dita (logos), a forma como a mensagem é apresentada, com unção do Espírito Santo e uso de recursos homiléticos (pathos) e porte: conduta e postura éticas (ethos).

4. Não busquem títulos e posições. Pregadora é pregadora. Pregador é pregador. Não precisam de um título pomposo para pregar o Evangelho, a menos que queiram prevalecer pelo “braço de carne”, e não pelo Espírito Santo (cf. 2 Cr 32.8; Zc 4.6). Filipe era pregador do Evangelho, apesar de ter sido escolhido para cuidar do trabalho material da igreja em Jerusalém (At 6.1-5; cap. 8). Só no fim da terceira viagem missionária de Paulo, em Cesareia, Filipe foi chamado de evangelista (21.8). Mas, antes de receber esse título, ele já pregava, pois não é o título que faz a pessoa; é a pessoa quem faz o título.

Sinceramente, fico preocupado quando vejo pregadoras procurando ostentar títulos para terem maior credibilidade. Ao que me parece, elas não acreditam que Deus está com elas, caso não tenham um título pomposo. Precisam ostentar o título de “bispa”, uma invencionice, já que, a rigor, além de esse ofício não constar das páginas sagradas, o feminino de bispo seria episcopisa; ou o título de “pastora”, outra extravagância, uma vez que a única mulher chamada de pastora — de ovelhas — na Bíblia foi Raquel (Gn 29.9). Não nos esqueçamos de que Paulo, constituído por Deus pregador, apóstolo e doutor dos gentios (1 Tm 2.7), fazia questão de se apresentar, prioritariamente, como “servo de Jesus Cristo” (Rm 1.1), a quem servia em seu espírito (v. 9).

5. Sejam humildes. Paulo honrou várias mulheres, mencionando-as em Romanos 16 — como Priscila, citada primeiro que seu próprio marido (v. 3) —, porque elas certamente eram humildes. Priscila, inclusive, foi quem contribuiu para o aprendizado de Apolo, um homem que já era “poderoso nas Escrituras” (At 18.24-28). Ainda que o Senhor é excelso, atenta para quem é humilde (Sl 138.6; 1 Pe 5.5,6), mas é triste ver pregadoras agindo com soberba no púlpito e dizendo frases impróprias, como: “Se eu, sem ter uma gravata, faço o que faço, imagine o que eu faria se tivesse uma”; “Mesmo com os homens atrapalhando, eu continuo vencendo” ou “Como os homens são frouxos, Deus tem levantado as mulheres, que são corajosas”. Lembremo-nos, sempre, de que a “soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda” (Pv 16.18).

6. Respeitem os pastores. Há uma tendência, pelo que tenho notado, de as pregadoras famosas serem tentadas a verberar contra os pastores, sugerindo que eles as invejam, se opõem ao seu ministério e são machistas etc. Essa rebeldia, que tem levado muitas irmãs a promover a inglória guerra de gêneros, a nada leva. Já pensou o que aconteceria, se os pastores resolvessem responder a cada provocação feminista? Onde isso vai parar? Homens e mulheres devem ser submissos a Deus e ao ministério estabelecido pelo Senhor (1 Co 12.28; Ef 4.11). Qualquer crente deve obedecer ao claríssimo mandamento de Hebreus 13.17: “Obedecei a vossos pastores e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossa alma, como aqueles que hão de dar conta delas”.

7. Sejam femininas, e não feministas. Muitas pregadoras não abrem mão da feminilidade (o que é bom, como já vimos), mas têm um outro defeito: adotam um discurso bastante hostil em relação aos homens. Apesar de elas estarem pregando em grandes congressos e sendo tratadas com todo o respeito, inclusive pelos homens, elas agem como se estivessem sendo oprimidas pelo patriarcado! Sempre quando têm oportunidade, numa entrevista ou mesmo durante suas prédicas, dizem que nas igrejas ainda prevalece o machismo. Alegam que isso é herança do judaísmo, da conduta machista de Paulo etc. E verberam contra os homens, pregando o questionável igualitarismo feminista, que, embora esteja na moda, não se coaduna com o ensinamento neotestamentário.

Em relação ao Antigo Testamento, quem deu a lei a Moisés? O próprio Deus! Não há que se falar de patriarcado opressor. Isso é linguagem de movimentos feministas de esquerda, e não de servas do Senhor que se prezam! Se defendermos que havia machismo na lei dada a Moisés, chegaremos à conclusão de que o próprio Deus era machista! Quanto a Paulo, nenhum machista mandaria os homens amar a sua própria mulher (Ef 5.25) nem faria questão de mencionar nominalmente as mulheres que o ajudaram (Rm 16 etc.). Em relação a Jesus — já que para as “feministas cristãs”, Ele não valorizou mais as mulheres por causa da prevalência do machismo na sociedade patriarcal —, sabemos que o Mestre veio para quebrar paradigmas. E, se quisesse, teria escolhido seis casais, e não doze homens, visto que “chamou para si os que ele quis” (Mc 3.13).

Infelizmente, algumas pregadoras já foram cooptadas pelo pernicioso movimento feminista, que, em geral, é abortista, se opõe à cosmovisão judaico-cristã e às Escrituras, além de demonizar o homem (SCRUTON, 2014; ZIBORDI, 2016). Sei que há vários tipos de feminismo, alguns mais extremistas e outros mais moderados. Reconheço os direitos femininos pelos quais homens e mulheres cristãos devem lutar. Mas o discurso belicoso, oriundo do feminismo anticristão, que produz frases como “Mexeu com uma, mexeu com todas”; “Machistas não passarão” etc., não deve ser adotado pelas pregadoras que se prezam. Machismo e feminismo devem ser rechaçados por todos os cristãos, indistintamente, pois são filosofias contrárias à Palavra de Deus. Preguemos, pois, o Evangelho, e não ideologias polarizantes (Rm 1.1,16; 1 Co 9.16).

Ciro Sanches Zibordi

Referências


SCRUTON, Roger. Como Ser um Conservador. Rio de Janeiro: Record, 2014.
ZIBORDI, Ciro Sanches. Por que as mulheres não podem ser pastoras? CPAD News. 24 mar. 2015. Disponível em: http://www.cpadnews.com.br/blog/cirozibordi/apologetica-crista/134/por-que-mulheres-nao-podem-ser-pastoras.html. Acesso em: 8 mai. 2017.
ZIBORDI, Ciro Sanches. Existe mesmo a cultura do estupro? Blog do Ciro. 2 jun. 2016. Disponível em: https://cirozibordi.blogspot.com.br/2016/06/o-feminismo-e-suposta-cultura-do-estupro.html. Acesso em: 8 mai. 2017.

sábado, 6 de maio de 2017

Formigas versus águias


A vergonhosa e inglória disputa entre fãs de pregadores famosos continua na grande rede, depois que um conhecido animador de auditório, em um grande congresso, resolveu expor, de cima do púlpito, uma célebre pregadora performática, comparando-a, indiretamente, a uma formiga. Esta errou, evidentemente, ao usar o mesmo púlpito, antes, não prioritariamente para pregar a Palavra, e sim para desafiar seus pares. Mas seu fã-clube foi mais além e transformou a presente discussão em guerra de gêneros, no melhor estilo mundano e feminista.

Como o pregador, demonstrando estar indignado com o que ouvira, disse que a pregadora jamais seria águia, pois é tanajura, suas fãs, inclusive algumas "pastoras", criaram a hashtag #SomosTodosFormigas. E, inflamando-se em seus discursos feministas, estão empregando frases desafiadoras, muito usadas nestes tempos de polarização política, como: "Mexeu com uma, mexeu com todas". E mais: passaram a verberar contra os homens, de maneira geral. Pura carnalidade.

Há alguns anos, um famoso pregador — idolatrado por muitos — me xingou de canalha de cima do púlpito, ao som de "glórias a Deus" e "aleluias". E, como se isso não bastasse, ele ainda deu a entender que gostaria muito de ter um encontro nada amistoso comigo, "numa hora dessas, no aeroporto", a fim de me dizer "algumas verdades, para eu me converter e não ir para o inferno".

Enquanto o ofensor, cheio de ira, gritava, me xingava e, tacitamente, me ameaçava, muitos irmãos, inclusive pastores, além de usar palavras de glorificação, diziam: "Fala mesmo, Jeová" ou "Queima ele". Era como se eu fosse um emissário do mal, um opositor do "mover de Deus", que precisasse ser "barrado". Mas, sabe quais eram os motivos da revolta de todos? Meus livros, especialmente: Evangelhos que Paulo Jamais Pregaria (CPAD, 2006) e Mais Erros que os Pregadores Devem Evitar (CPAD, 2007), os quais contém críticas à pregação performática, que ainda sobrevive, para tristeza do Espírito Santo!

Passado pouco tempo — veja como Deus trabalha por aqueles que nEle esperam; não é necessário se vingar —, estava eu no mesmo púlpito de onde os tais impropérios haviam partido! A expectativa ali era grande, não porque sou importante, e sim porque alguns queriam "ver o circo pegando fogo". Soube, depois, através de alguns irmãos, que houve até uma certa decepção, pois se esperava que eu usasse parte do tempo para me defender dos mencionados ataques e alfinetar quem me desafiara.

De fato, eu tinha a oportunidade de me vingar e verberar contra quem me atacou. E sabia que tudo iria parar na Internet! Mas meu coração estava em paz. Que noite memorável! Eu apenas preguei a Palavra de Deus! Quem saiu vitorioso? Eu? Não! O pregador que me xingou de canalha e seu hostil fã-clube? Também não! Quem venceu? O Cordeiro de Deus! Ele foi glorificado. Sua Palavra — e somente sua Palavra — foi pregada naquela noite!

Não sou melhor do que ninguém. Aliás, enquanto uns dizem que são águias, e outras afirmam que são formigas, me lembro sempre do que está escrito em Isaías 41.24: "Eis que sois menos do que nada e a vossa obra é menos do que nada". Ora, se nada já é nada, quanto seria menos do que nada? É o que somos quando pensamos que somos alguma coisa!

Entretanto, louvo ao Senhor Jesus pela formação ministerial que recebi. Tive a honra de aprender, desde a minha adolescência, aos pés de grandes mestres, imitadores de Cristo, como Valdir Bícego e Antonio Gilberto. Com eles aprendi — e tenho aprendido — que púlpito é lugar de pregar o Evangelho e ensinar a Palavra.

Quem foi o pregador mais antipático que andou na terra? Possivelmente, João Batista, que verberava sem medo contra o que estava errado, mas sua prioridade era falar do Cordeiro de Deus, e não de si mesmo ou dos outros: "João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (Jo 1.29). Sua meta não era ser o pregador dos pregadores, pois era um "enviado de Deus" (v. 6). Não objetivava ser maior do que ninguém. Pelo contrário, queria ser menor que Jesus Cristo, já que seu lema era: "Convém que ele cresça e que eu diminua" (3.30, ARA).

Ciro Sanches Zibordi

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Guerra entre pregadores: até quando?


Dois episódios recentes envolvendo pregadores famosos me fizeram refletir profundamente sobre o que Paulo, próximo da morte, escreveu a Timóteo: “Conjuro-te, pois, diante de Deus e do Senhor Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, na sua vinda e no seu Reino, que pregues a palavra” (2 Tm 4.1,2). O que é pregar a Palavra? Evidentemente, a resposta a essa pergunta passa pela menção da conduta ética (gr. ethos, “modo de ser”, “caráter”, “procedimento”), que está se tornando rara nos púlpitos dos grandes eventos evangélicos.

Há pouco tempo, um pregador não pentecostal e calvinista — não tido, até então, como antipentecostal —, em um grande congresso interdenominacional, criticava, e bem, as heresias e modismos pseudopentecostais da atualidade, quando resolveu fazer um gracejo sem graça com o dom de línguas. Foi uma provocação desnecessária e infeliz. Primeiro, porque ele também ministra a Palavra na Assembleia de Deus, igreja que sempre o respeitou. Segundo, porque não fez distinção alguma entre os pentecostais sérios (que têm a Bíblia como sua regra de fé, prática e viver), muitos deles participantes do evento, e os adeptos de movimentos pseudopentecostais, místicos, que não têm a Bíblia como a sua fonte primacial de autoridade.

Todo pentecostal que se preza — embora reconheça que há muitas falsificações dos dons do Espírito Santo — se sente ofendido quando vê um pregador zombando das línguas sobrenaturais mencionadas no Novo Testamento, já que tem a convicção de que elas são ministradas pelo Paracleto (At 2; 1 Co 12-14). Ninguém é obrigado a abraçar o pentecostalimo. E eu, como pentecostal, respeito os cessacionistas. Mas não convém zombar da fé pentecostal e dos pentecostais.

Como se esperava, a conduta antipentecostal do tal pregador acabou gerando uma reação por parte dos pentecostais mais exaltados, que passaram a criticá-lo ferrenhamente nas redes sociais, reacendendo os debates inglórios entre calvinistas e arminianos, entre cessacionistas e pentecostais. Para piorar a situação, encontrou-se um vídeo em que o pregador não pentecostal verbera contra um famoso conferencista pentecostal, que resolveu responder às críticas. A partir daí o que se viu, na grande rede, foi um verdadeiro tiroteio, uma disputa recheada de zombaria, generalizações etc.

Recentemente, outro episódio de guerra entre pregadores fomentou discórdia nas redes sociais. Um pregador e uma pregadora, em um mesmo congresso considerado pentecostal, resolveram se alfinetar ao som de “glórias a Deus” e “aleluias” — mais uma faceta da disputa igualmente inglória entre pregadores performáticos, que se julgam intocáveis e se portam como celebridades. A pregadora, usando de ironia e tom desafiador, verberou contra a conduta de alguns pastores e pregadores itinerantes, animadores de auditório, grupo do qual ela faz parte, para ser justo em minha abordagem.

No quesito performance, ela agradou o povo, que vibrava com as suas alfinetadas e “coreografia”. Mas o conteúdo da sua mensagem gerou um grande mal-estar entre os preletores convidados. E, diante das provocações, um famoso pregador, quando teve oportunidade, reagiu, falando em nome daqueles que se sentiram “atingidos”. Ele, então, atacou a pregadora, também de modo indireto, fazendo uma comparação entre a águia e a formiga.

A partir daí, começou nas redes sociais uma vergonhosa disputa entre os gêneros masculino e feminino. E as fãs da pregadora passaram a usar frases feministas, como “Mexeu com uma, mexeu com todas”, e também “Sou formiga e não temo águia”, além de chamarem o pregador de racista. Isso porque ele, ironicamente, comparara o “pregador águia” com a “pregadora formiga”, dando destaque para a “tanajura”, o que gerou também a hashtag #SomosTodosFormigas! Bom seria que todos levassem a sério as metáforas da Bíblia, fossem ter com a formiga (Pv 6.6) e se renovassem como a águia (Is 40.28-31), não é mesmo?

Observa-se que o maquiavelismo e a chamada ética consequencialista estão prevalecendo. E não é de hoje que pregadores — e pregadoras — itinerantes usam o púlpito para verberar contra desafetos e ameaçá-los. Portando-se com arrogância e ar de superioridade, alfinetam e desafiam inclusive os pastores sentados à sua retaguarda, pedindo que o povo glorifique, corra, pule, rode etc. Entretanto, ao discorrer sobre a pregação, o apóstolo Paulo asseverou que a conduta ética é que dá força à exposição da Palavra: “o nosso evangelho não chegou até vós tão-somente em palavra [gr. logos], mas, sobretudo, em poder, no Espírito Santo e em plena convicção [gr. pathos], assim como sabeis ter sido o nosso procedimento [gr. ethos] entre vós e por amor de vós” (1 Ts 1.5, ARA).

Na passagem citada, o termo ethos — de onde se originou a palavra “ética” e que diz respeito ao caráter percebido do orador — está associado a logos (o conteúdo verbal da mensagem, incluindo-se arte e lógica na sua exposição) e a pathos (o fervor, a paixão, o sentimento e a eloquência do pregador). Em outras palavras, a pregação bem-sucedida está centrada na ética cristã, a qual, segundo as cartas paulinas, abrange a conduta do crente (Ef 4.17-24), o cultivo dos bons costumes (Rm 12; 1 Co 15.33) e o relacionamento com o próximo (Rm 15.2-5).

O que é, pois, pregar a Palavra? Se a pregação antipentecostal é zombeteira, agressiva e teológicocéntrica, a pregação pseudopentecostal é performática, igualmente agressiva e antropocêntrica. Ainda que ambos os modelos enlouqueçam fãs, o modelo de pregação está na Bíblia, especialmente em 1 Coríntios 2.1-5: “E eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não fui com sublimidade de palavras ou de sabedoria. Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado. E eu estive convosco em fraqueza, e em temor, e em grande tremor. A minha palavra, e a minha pregação, não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder; para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria dos homens, mas no poder de Deus”.

Pregadores e pregadoras, preguemos — de fato — a Palavra de Deus! Julguemos o que está errado (não me oponho a isto), pois não é pecado julgar, mas façamos isso segundo a reta justiça (Jo 7.24), e não de maneira caluniosa ou difamatória (Mt 7.1,2). E sejamos humildes, lembrando sempre do alerta de Provérbios 16.18: “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda”.

Ciro Sanches Zibordi

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Arrebatamento — secreto — da Igreja

A doutrina do Arrebatamento da Igreja foi inventada pela Assembleia de Deus ou pelos dispensacionalistas?

O que é o Arrebatamento da Igreja?

Há como provar que a doutrina do Arrebatamento é uma doutrina bíblica?

O Rapto da Igreja será secreto ou todo olho verá os salvos sendo arrebatados?

sábado, 29 de abril de 2017

O que é a salvação, a graça preveniente e a fé salvífica?

Graça de Deus é uma só. Quando teólogos empregam termos como 'graça comum' (dispensada a toda a Criação no sentido de preservá-la), 'graça preveniente' (a qual vem antes da salvação, a fim de capacitar o pecador morto em ofensas e pecado) e afins, aludem a diferentes facetas do multifacetado favor do Céu: a Graça de Deus.

Quais são as principais doutrinas da salvação?
O que é Soteriologia Objetiva? Tem o ser humano participação na salvação? O que é a regeneração, a justificação e a santificação? Como atua a graça preveniente de Deus? O que é a fé salvífica?

Predestinação e livre-arbítrio; calvinismo e arminianismo etc.

Eleição, predestinação e graça comum não são doutrinas calvinistas. Livre-arbítrio, segurança da salvação somente em Cristo e graça preveniente não doutrinas arminianas. Todas elas são doutrinas bíblicas.

Quais são as doutrinas da salvação? O que é a adoção de filhos? Filho de Deus, deusinho é? Que relação existe entre a presciência de Deus e a eleição? Deus elegeu indivíduos antes da fundação do mundo?

Que relação há entre a eleição e a predestinação? A predestinação e o livre-arbítrio estão mesmo na Bíblia ou são excludentes? Quais são as diferenças entre o arminianismo e o calvinismo?

terça-feira, 25 de abril de 2017

Não confunda a Segunda Vinda com o Arrebatamento da Igreja

Por que a Segunda Vinda durará cerca de sete anos?

Quais são as chaves para entender a Escatologia?

O que nos ensinou o Senhor Jesus em Lucas 21.36?

Qual é a melhor escola de interpretação do Apocalipse: a preterista, a futurista, a idealista ou a historicista?

Por que o Arrebatamento da Igreja não deve ser confundido com a Manifestação do Senhor?

O que é o MDA e por que preocupa


De modo geral, as igrejas evangélicas têm adotado dois modelos de discipulado. O primeiro, ortodoxo, prioriza o Evangelho e emprega os “ultrapassados” cultos de ensino, Escola Dominical e cursos teológicos. Já o segundo, heterodoxo, prega “outro evangelho”, à base de pragmatismo e utilitarismo, e mescla verdades bíblicas com filosofias antropocêntricas, apesar de utilizar uma metodologia “mais eficaz”, que atende aos anseios do mundo pós-moderno. A “visão celular” — mais conhecida pelas siglas G12, M12 ou MDA — faz parte do modelo heterodoxo, visto por muitos como uma “quebra de paradigmas” e, ao mesmo tempo, um retorno aos princípios da igreja de Atos dos Apóstolos.

O MDA (Modelo de Discipulado Apostólico) se baseia no tripé: células, encontros e discipulado um a um, que é uma microcélula ou “coração da célula”, já que discípulo e discipulador fazem parte da mesma célula. E, embora seu fundador afirme que Deus lhe deu um modelo exclusivo para o Brasil, trata-se de uma espécie de G12. Ele mesmo admitiu que, ao estudar “diferentes modelos de igreja em células, observando-os de perto e gastando tempo com os líderes envolvidos em sua prática, encontramos vários bons modelos, como o [...] ‘Modelo do Governo dos 12’, do pastor Cesar Castellanos, da Colômbia” (HUBER in ZIBORDI, 2016). Em essência, esses modelos são gêmeos e, de modo patente ou latente, propagam a Teologia da Prosperidade, a Confissão Positiva etc.

Nos dois, o templo é usado prioritariamente para celebrações dançantes, visto que o discipulado ocorre nas células, e as ministrações principais, nos encontros. Para ambos, a célula é a essência da igreja, onde “a vida do Corpo se encontra de forma sintetizada em todos os seus muitos aspectos, tais como: adoração, intercessão, evangelismo, integração, discipulado, treinamento de líderes, comunhão, assistência social etc.” (HUBER, 2016). Há alguns anos, um pastor, decepcionado com o MDA, me disse: “A primeira coisa que fizemos foi acabar com a Escola Dominical, porque os estudos seriam nas células. O louvor da igreja virou show, tiramos os hinos da Harpa Cristã e colocamos luzes no altar. Fui líder de várias células e cada vez mais me impressionava o desaparecimento da mensagem bíblica, que antes tínhamos”.

Quanto aos encontros do MDA para iniciantes, há vários depoimentos na Internet que nos ajudam a compreendê-los (cf. TOMÁZ, 2016). Eles são realizados em lugares secretos, onde os discípulos são recebidos com muita festa, ficam incomunicáveis por três dias e participam de várias ministrações. A primeira, logo após a chegada, à noite, é “Peniel”, pela qual se enfatiza que o discípulo deve ser transformado a fim de participar das próximas ministrações. As luzes, então, se apagam, para que cada um fale com Deus “face a face”. Após o jantar, todos são aconselhados a dormir e se preparar para o dia seguinte, que “será tremendo”. A segunda ministração, de manhã, é “encontro com Deus”: os discípulos são acordados e, ainda em jejum, ouvem vários bordões de autoajuda junto com um fundo musical. Eles recebem, ainda, um manto vermelho, para o primeiro “ato profético”.

A terceira é “libertação”, por meio de imposição de mãos, exorcismo e quebra de maldições. A quarta é “cura interior”, a partir da qual o discípulo, mesmo se sentindo liberto, precisa tratar das feridas da alma, confessando seus pecados e liberando perdão a todos, inclusive a Deus! Tudo ocorre à base de sugestão, com as luzes reduzidas e um fundo musical. Já na parte da noite, vem a quinta: “sonhos”, e os discípulos, “transformados”, expõem seus sentimentos. Novamente com fundo musical, ocorrem mais “atos proféticos”. Em um destes, alguém faz o papel do Tentador, que procura destruir os sonhos das pessoas.

Embora chamada de “cruz de Cristo”, a ênfase da sexta ministração não recai sobre a obra redentora do Senhor. O MDA é antropocêntrico: apresenta Jesus como um homem que venceu mediante uma declaração de fé no Inferno e ignora que Ele venceu o Diabo e suas hostes na cruz (Hb 2.14,15), ao dizer: “Está consumado” (Jo 19.30). Os participantes, então, recebem pregos e oram de braços abertos até sentirem dores e começarem a chorar. Quando abaixam os braços, alguém os ajuda a permanecerem “crucificados”. Antes de o local se transformar em uma discoteca, eles — ignorando os gloriosos efeitos da obra expiatória de Jesus, realizada de uma vez por todas (Cl 2.14,15) — fazem uma lista de pecados e a cravam numa cruz!

No dia seguinte, vem a sétima ministração: “oração”, com músicas de fundo que mantêm os discípulos no “mesmo espírito”. Não há ensino da Palavra de Deus, na prática. E a oração limita-se a “línguas estranhas”, sem a observância do ensino de 1 Coríntios 14. Vem então a oitava ministração: “nova vida em Cristo”, e um discipulador, após ler um texto bíblico, diz a todos: “Preparem-se! O mover de Deus está só começando”. E, ao som música pesada, inicia-se uma peça teatral que, de modo tácito, apresenta o Diabo como um ser muito mais poderoso do que é, rebaixando, assim, o Todo-poderoso. Ora, as hostes do mal agem por permissão do Senhor, que, no momento certo, as vencerá “pelo assopro da sua boca” (2 Ts 2.8).

Com luzes apagadas e janelas fechadas, os discípulos se ajoelham, e suas cabeças são lavadas. Ainda há três ministrações, que têm lugar com um “bom” fundo musical: “finanças” — visando-se a uma “grande semeadura” —, “visão do MDA” e “somos amados”. Nesta, a décima-primeira, o pastor da igreja entra em cena e diz a todos o quanto eles são amados. Enquanto ele ora com muita emoção, mochilas são depositadas aos pés dos discípulos, nas quais há cartas e presentes de familiares e/ou amigos que já fazem parte do MDA. Trata-se de uma estratégia para “fidelizar” o discípulo.

Na última ministração, “batismo com o Espírito Santo”, todos se prostram diante de uma arca; mais um “ato profético”. Em seguida, as luzes se apagam, e eles, de mãos dadas, ouvem mais uma palavra emotiva por parte do pastor, e a histeria toma conta do ambiente. Forma-se uma espécie de “corredor polonês”, por onde os discípulos passam para receber uma “nova unção”, precedida de unção literal e abundante. Eles saem do outro lado — encharcados de óleo —, pulando ou dando gargalhadas; alguns até caem ou andam como animais quadrúpedes. Ignora-se completamente o que está escrito em 1 Coríntios 14.37-40. E, ainda antes de entrarem no ônibus, os pastores ungem seus pés. Quase todos saem dali dizendo: “O encontro foi tremendo; agora sim eu sei o que é sentir a presença de Deus”.

Os proponentes do MDA dizem que Jesus priorizou o discipulado “um a um”, em que cada discípulo deve estar debaixo da “cobertura espiritual” de um discipulador — este, segundo seu idealizador, “tem compromisso total de não falar nada para pessoa alguma daquilo que o discípulo confidenciou, a não ser que obtenha primeiramente sua permissão”. Eles também interpretam de modo equivocado a Grande Comissão (Mt 28.19,20), já que supervalorizam o “fazei discípulos”, dizendo que isto “tem que ser priorizado, pois sem dúvida é um assunto de máxima importância” (HUBER, 2016).

Como se sabe, a Grande Comissão abarca evangelização, discipulado e ensino teológico (cf. Mc 16.15; At 1.8). Na ordem “ensinai todas as nações”, o verbo (gr. matheteuo) denota “fazer discípulos”, mas em “ensinando-as a guardar todas as coisas”, o verbo, literalmente, significa “doutrinar” (gr. didasko), o que envolve metodologia e sistematização. E, aqui — diferentemente do primeiro caso — o tempo verbal indica que o ensino teológico, e não o discipulado, deve ser contínuo. Segue-se que as igrejas que priorizam a Escola Dominical e dão ênfase ao ensino teológico, que abrange doutrinas fundamentais como Trindade, Cristologia, Soteriologia, Pneumatologia etc., estão sendo fiéis ao que o Senhor Jesus ordenou!

Quanto ao MDA, como vimos, a ênfase recai sobre prosperidade financeira, batalha espiritual, falsa cura interior etc. Ademais, cada discípulo presta contas a um discipulador, que tem o direito de se intrometer na vida pessoal daquele, em seus negócios, decisões e até em sua vida conjugal! Afinal, quem está em uma determinada escala hierárquica “protege” quem está abaixo dela. Resultado: o discipulador é uma espécie de “anjo da guarda”. Ou, ainda pior: ele usurpa o lugar do Espírito Santo, pois através da “cobertura espiritual” supostamente impede que seu discípulo se desvie da “visão”.

Diante do exposto, não há dúvida de que o MDA (1999) é irmão mais novo do G12 (1983), e que ambos são “outro evangelho” (Gl 1.8). Atentemos, portanto, para o que a Palavra de Deus diz em 1 Coríntios 15.1,2: “vos notifico, irmãos, o evangelho que já vos tenho anunciado, o qual também recebestes e no qual também permaneceis; pelo qual também sois salvos, se o retiverdes tal como vo-lo tenho anunciado, se não é que crestes em vão”.


Ciro Sanches Zibordi

Artigo publicado no jornal Mensageiro da Paz, ano 87, número 1.581, de fevereiro de 2017


Referências

HUBER, Abe. A importância da igreja local na visão do MDA. In: ZIBORDI, Ciro Sanches. Sim, o MDA é o irmão mais novo do G12. Disponível em: http://www.cpadnews.com.br/blog/cirozibordi/apologetica-crista/199/sim-o-mda-e-irmao-mais-novo-do-g-12.html. Acesso em: 31 dez. 2016.
HUBER, Abe. A visão. Disponível em: http://www.associacaomda.org/a-visao/. Acesso em: 20 dez. 2016.
TOMÁZ, Gilmar Caetano. Um engano chamado MDA. Disponível em: http://admidia.blogspot.com.br/2014/08/um-engano-chamado-mda-o-que-esta-por.html. Acesso em: 14 dez. 2016.