domingo, 27 de novembro de 2011

Uma palavra sobre a itinerância e os “itinerantes” (parte 2)


Até o fim dos anos de 1990 não havia tantos “itinerantes” nas Assembleias de Deus. A pregação bíblica sem malabarismos ainda reinava. Pregadores que expunham a Palavra do Senhor, na dependência do Espírito Santo, ainda eram respeitados. Mas, com o falecimento de alguns homens de Deus e a queda espiritual de outros, começaram a surgir, em grande quantidade, ainda na aludida década (que compreende o período de 1991 a 2000), os “conferencistas internacionais”, animadores de auditório.

Hoje, o modelo que prevalece e encanta multidões é o da pregação interativa dos “itinerantes”, no melhor estilo diga-isso-e-aquilo-para-o-seu-irmão, com pouquíssimo conteúdo bíblico e malabarismo de sobra. Como consequência, muitos crentes já não suportam a exposição da viva e eficaz Palavra do Senhor (Hb 4.12). Isso, para eles, é simples demais e enfadonho; querem movimento, animação, berros prolongados ao microfone, gracejos, exibição teatral, etc.


A exposição verdadeiramente ungida das Escrituras perdeu o seu espaço. E quem não gosta de animação de auditório, como este expoente, é considerado pela maioria como retrógrado, ultrapassado, invejoso, sem unção, incapaz de “gerar a graça”, inimigo do “mover de Deus”, cético, etc.


Entretanto, a minha batalha — ainda que às vezes me sinta como alguém tirando água do oceano com uma pequena caneca — pela recuperação da exposição da Palavra de Deus continuará, segundo a graça do Senhor Jesus. Enquanto Deus me der força, perseverarei em protestar contra a animação de plateia e em asseverar que precisamos voltar às “veredas antigas” (Jr 6.16). Afinal, avivamento também significa reconquistar o que foi perdido (Lm 5.21).


Com base no que está escrito em 2 Timóteo 3.14, posso dizer que o ministério que o Senhor me outorgou foi grandemente influenciado por eminentes pregadores e ensinadores da Palavra, especialmente Valdir Nunes Bícego (segundo, na foto acima), cujo ministério envolvia i
tinerância.


Não havia, à época da virada do milênio, um pregador que reunisse tantas qualidades como Valdir Bícego. De alguma forma, Deus o usava com todos os dons ministeriais mencionados em Efésios 4.11. Assim como Paulo, que recebeu do Senhor um ministério multíplice (1 Tm 2.7), Bícego era, ao mesmo tempo, um
mestre, um pastor, um evangelista, um profeta e um apóstolo do Senhor.


Influenciado diretamente por homens de Deus, como os verdadeiramente apóstolos Cícero Canuto de Lima e Eurico Bergstén (primeiro, na foto acima), Valdir Bícego reunia em si um pouco dos dois. Era seguro e zeloso como o primeiro e compromissado com a sã doutrina e com a pregação biblicocêntrica, como o segundo. Tive o privilégio de ser encaminhado ao ministério por ele, servindo ao Senhor sob seu pastorado na Assembleia de Deus da Lapa, em São Paulo, durante quinze anos.


Desde o dia em que vi o pastor Valdir Bícego expor a Palavra do Senhor, em um congresso de jovens, acendeu-se em mim uma chama para proclamar o Evangelho e defendê-lo (Mc 16.15; Fp 1.16). Na sua última pregação, em 27 de abril de 1998 (um dia antes de sua repentina morte), a qual também tive o privilégio de ouvir, ele asseverou: “Não fiquem em torno do pastor. Fiquem em torno de Jesus, da Palavra e do ministério, pois o pastor pode morrer a qualquer momento”.


No início do século XXI, a pregação da Palavra de Deus tornou-se escassa e obsoleta nos púlpitos assembleianos. Os animadores de auditório começaram a encantar os jovens pregadores, em razão de serem aqueles os protagonistas dos grandes congressos pretensamente pentecostais, transmitidos ao vivo pela Internet. Pregações triunfalistas e antropocêntricas, com temas exóticos, como “Grávidos de um avivamento” ou “Sonhe e ganhará o mundo”, passaram a ser vendidas, alugadas e pirateadas em toda a parte, tornando os tais 
“itinerantes” verdadeiras celebridades.


Coincidentemente ou não, depois das mortes de Bernhard Johnson (em 1995), Valdir Bícego (em 1998) e Eurico Bergstén (em 1999), e com as quedas espirituais de importantes expoentes da Palavra de Deus (algumas irreversíveis), cresceu, e muito, a animação de plateia. Não obstante, hoje, graças a Deus e ao legado de pregadores do passado, o quadro já começa a melhorar. Há um forte clamor pela pregação cristocêntrica, centrada na imutável Palavra do Senhor, e começam a surgir pregadores à moda antiga. Aleluia!


Diante do exposto, continuarei com o propósito de imitar os grandes pregadores e ensinadores que conheci no milênio passado (1 Co 11.1). E continuarei lutando para que, em nossos cultos e congressos, voltemos a valorizar a poderosa exposição da Palavra de Deus (Sl 119.130; Jo 5.24), sem exibicionismo, invencionices, ilusionismo, berros desnecessários, malabarismo, gracejos sem graça, triunfalismo e outros devaneios e aberrações que desviam o povo da verdade e do temor do Senhor.


Ciro Sanches Zibordi

17 comentários:

Otoniel disse...

Sinto saudades das ministrações que primavam pela ortodoxia bíblica, especialmente de homens tais quais se referiu o combativo articulista deste blog. Eu estou cansado daqueles que dizem que nós somos invejosos do seu sucesso "ministerial" desses que saem pelo Brasil a fora alardeando virtudes que não suportam uma análise bíblica. Tenho saudades do Pastor Rodrigo Santana, do Pastor Eurico Bergsten, do Pastor Valdir Bícego entre outros que são ainda lembrados pelas ministrações poderosas, sem articificialismos...

Xavier Campos Joaquim disse...

Lindo demais.
Que nós os pequeninos sigamos os passos dos grandes homens dos nossos dias para continuarmos expondo o evangelho de Cristo.
Tenho pensado até que o próprio nome "pregador", talvés tem deixado cair a muitos, que tal lembradores? Risos.
Porque afinal o que precisamos como pregadores,é lembrar as palavras das Escrituras.
Que haja mais Bícegos,Ciros, e etc para continuar a pregação do evangelho do Reino.

Que Deus abençoe pr. Ciro.

Xavier Campos Joaquim

Assembleia de Deus de Água Azul do Norte-PA disse...

Estive em uma Assembleia de Deus e o pregador, que veio de uma cidade distando aproximadamente 1300km, leu em Ez 12.3. Durante a ministração ele disse que esta passagem referia a ida dos crentes para o nosso país celestial. O povo, ao ouvir isto, gritava muito, jogava as mãos para o alto, pulava e rodopiava no templo. Fiquei sem entender o motivo.

Thiago Leal disse...

A paz do Senhor Pastor Ciro, sou o irmão Thiago da Assembléia de Deus Ministério Rocha Eterna de Catujal, Portugal. Por favor gostaria que o senhor me explicasse sobre os Bolaines do Mar Morto. É que eu assisti um vídeo que falava sobre o assunto e não entendi muito bem. Obrigado!

Pr. Marcos disse...

Prezado pastor Ciro Zibordi, O Senhor não está sozinho nesta batalha. Ainda existe muita gente, e bota gente nisso que não se conforma com esta situação. Agora isso só acontece porque pastores sem a visão de Deus abrem espaço em suas igrejas para essas pessoas. Eles passam em nossas igrejas semeando uma semente maldita, de confusão. Apresentam uma pirotecnia que são só fogos de artifício, que no final não proporcionam nenhuma mudança na vida das pessoas. Estamos saturados disso e Deus enojado com essas coisas. BASTA!

Gilmar Valverde disse...

Caro Pr. Ciro,

Quando o Sr. comentou sobre a queda espiritual de alguns pregadores, o Sr. disse que algumas delas eram irreversíveis. Como assim?

Deu a entender que não tinha como eles se levantarem novamente para continuar como expoentes da Palavra de Deus.

Gostaria muito que o Sr. me explicasse isso melhor.

Atenciosamente,

Gilmar

Talles Marins disse...

Pastor, pode ter certeza que tem amis uma caneca neste mar para tirar esta agua! hehehe

Na verdade creio que alguns irmãos Deus esta levantando, com intrepidez, para expor o verdadeiro Evangelho de Cristo, a pregação Cristocêntrica e uma correta exposição das Escrituras.

Eu ajudo na minha Igreja, Assembleia de Deus, fico na parte do projetor, bem pertinho do púlpito, e só Deus sabe o quanto o meu coração ja chorou naquele lugar por ouvir a Palavra de Deus, sendo levada tão superficialmente, e sendo pregado um "evangelho" sem poder, e pregador tendo que persuadir o povo no emocional para que aja um suposto "mover".
Mas, o incrivel, é que no fim dos cultos, ninguem sai conversando sobre a Palavra que foi pregada, nem sobre como impaquitou em sua vida, mas sim em todos os outros tipos de assunto que o senhor possa imaginar, é triste Pastor.

Se o senhor quiser trocar algum email ficaria feliz Pastor, o meu é talles_talao@hotmail.com

Paz

Deus abençoe!

sylasneves disse...

Pr. Ciro,

Mais uma vez assino em baixo o que o sr. disse.

Abraços..........

Antonio Batalha disse...

O desejo do meu coração é que você a uma benção, publicando o que Deus colocar em seu coração, e o meu objectivo é unir mais o cristão a Jesus Cristo, e juntos levarmos a Palavra, sermos edificados e um vaso nas mãos do Grande Oleiro, vamos estabelecer parceria e construirmos juntos uma fortaleza contra as trevas. Um abraço.

Maely disse...

Pastor, me responde uma coisa como tratar os falsos profetas que se levantam no meio da igreja com sua profecias, eu sendo usada com o dom de discernimento não tenho o direito de levantar a igreja em oração porq isso eh constrangimento?

Robert Neves disse...

Paz do Senhor Pr. Ciro!
Digo: Não se sinta sozinho tirando água do oceano com uma caneca. Pois se você olhar para a direita e a esquerda vai ver outros pregadores cada um com a sua caneca tirando água deste imenso oceano.
Pois este que escreve também na sua humildade prega o evangelho verdadeiro, sem as falsificações de hoje e apoia o seu ministério e de tantos outros que expõem a verdade. Por onde prego, ensino, digo: "Isto aprendi com o Pr. Ciro". Posso dizer então que o sr. é meu pastor também e sou grato a Deus pela sua existência e por este blog maravilho. O sr. e sua família está nas minha orações. Pois sei que o trabalho é árduo, mas não desanime nunca, pois o Senhor Jesus é contigo por onde quer que andares e concerteza nos dará vitória sobre todas estas coisas.
Também fico triste ao ouvir e ver tantas coisas que fazem a igreja perder a identidade o foco.
Mas Deus que é reto juiz não dorme e nem dormita.
Glória a Deus! Aleluia!

Pr, Mauro disse...

Meu irmão, o seu blog não é lido só por membros da AD, eu não sou e o acompanho seu blog diariamente.Infelizmente esses fatos a que o Pr. se refere não acontece só na AD.Hoje ser um "itinerante" tornou-se profissão, e até que muito rentável, não só financeiramente, mas confere prestígio aos tais.Almas? Quem se importa com elas? Deus que o faça ! Apenas vire para o irmão que esta ao seu lado e diga: o que voce "semear" é o que voce vai colher.Ou então diga qualquer outra coisa o que vale é o que voce vai "semear".

Márcio Cruz disse...

Paz do Senhor Pr. Ciro!!

Apenas isto:

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Parabéns pela postagem. Como li certa vez em um post: "HOUVE UM TEMPO".
Que este tempo retorne e a Noiva do Mestre volte a ser fortalecida de fato pelo ÚNICO alimento que ela necessita: "A PALAVRA DE D'US".

CHEGA DE MIOJO!!!

Em Cristo, a Fonte Legítima de Vida,

Ir. Márcio Cruz

Ev. Nelson Fernandes disse...

Pastor Ciro será que estamos ouvindo um clamor por mudança? Posso perceber que muitos cristão estão sendo despertado,estão acordando para essa terrível realidade e isto é extremamente maravilhoso.Mas o que fazer para preencher este vácuo que será deixado em nome de Jesus por estes aproveitadores? se homens de Deus compromissado com a verdade não se manifestar virão outros mercenários e ocuparam os lugares.Que o grande Deus levante mais homens como estes que o amado Pastor cita e que nos deixaram saudades. Obrigado Pastor por trazer a lembrança estes baluarte da verdade!
Peço sua permissão para divulgar o meu blog: wwwevnelsonfernandescom.blogspot.com
Que Deus o abençoe Pastor.

DANNILO STELIO disse...

Pr. Ciro,

Compartilho de seu desabafo.

Como pregador itinerante nas congregações de minha cidade, sinto às vezes na pele o boicote de alguns “senhores feudais” de igrejas e ministérios.

Por vezes, encontramos mais aceitação em ministérios co-irmãos do que naquele em que nos congregamos.

Já tive dois obreiros muito chegados que foram empossados na liderança da mocidade evangélica de toda a Capital. Sabe quantas vezes me convidaram para dar um “amém” à juventude ? Nenhuma...

Mas é confortador quando, ao descer do púlpito após uma pregação, com os olhos ainda marejados e a voz claudicante, nos vem a sensação de dever cumprido e mensagem entregue.

Mais ainda é quando, ao final do culto, algumas das ovelhas mais humildes nos cumprimentam e afirmam que foram edificadas pela Palavra pregada. A resposta é sempre a mesma: “ore por nós”.

Esse parece ser o rumo de todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus, e pregar o evangelho sem malabarismos e modismos. Fazer o quê ? Para isso fomos chamados e comissionados, e não podemos embarcar para Társis.

Mas sejamos consolados com o pensamento de que “ainda existem 7mil que não se renderam a Baal”.

“Com valor, sem temor/
Por Cristo prontos a sofrer/
Bem alto erguei o seu pendão/
Firmes sempre até morrer” (HC Nº 46)

Anônimo disse...

Pastor Ciro
Poderiamos chamar esses pregadores de "Pregadores Autônomos", visto que eles não tem compromisso em pregar o verdadeiro evangelho e o que eles pregam excede as escrituras?

Eli Leite

Ev. Anderson Ferreira disse...

Continue assim, varão valoroso.Deus é contigo!