quinta-feira, 14 de abril de 2016

O que significa "desde a fundação do mundo" em Apocalipse 13.8 e 17.8?


Em Apocalipse 13.8 e 17.8 encontramos a expressão 
“desde a fundação do mundo”. Em ambas as passagens se menciona o livro da vida, mas a primeira faz menção direta ao Cordeiro, e não ao livro da vida. Não obstante, como a Bíblia é análoga, um texto lança luz sobre o outro, como veremos.

Partindo-se da premissa de que o livro da vida é o registro de todos os salvos, de todas as épocas (Dn 12.1; Ap 13.8; 21.27), alguns teólogos têm afirmado que Deus já relacionou toda a humanidade nesse livro, riscando dele quem não recebe a Cristo como Salvador. Mas, considerando-se a analogia bíblica, fica claro que a promessa “de maneira nenhuma riscarei o seu nome do livro da vida” (Ap 3.5) é dirigida aos salvos que vencerem, permanecendo em Cristo (cf. Mt 24.13; 1 Co 15.1,2).


Outros teólogos têm afirmado que Deus inseriu no livro da vida somente os nomes dos eleitos para a salvação antes da fundação do mundo. Mas, em Apocalipse 17.8, está escrito que os nomes dos salvos são relacionados no livro da vida “desde a”, e não “antes da” fundação do mundo. Há uma enorme diferença entre “antes da” e “desde a”. No grego, o termo “desde” (apo) significa “a partir de”. A frase “cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo” — “whose name has not been written in the book of life from the foundation of the world” (NASB) — denota que os nomes dos salvos vêm sendo inseridos no livro da vida desde que o homem foi colocado na Terra criada por Deus (Gn 1).

Segue-se que a mesma construção frasal de Apocalipse 17.8 foi empregada em 13.8 para denotar que todos os cordeiros que foram sendo mortos desde o princípio apontavam para o único e perfeito sacrifício expiatório do Cordeiro de Deus (Is 53; Jo 1.29). Assim como Cristo não morreu antes da fundação do mundo, mas na plenitude dos tempos (cf. Gl 4.4), também não existe uma lista de eleitos previamente pronta antes que o mundo viesse a existir.

Quanto ao livro da vida, deve-se acrescentar que uma pessoa só pode ter o registro do nome em cartório depois de seu nascimento. Nesse caso, o nome de um salvo só passa a constar do livro da vida após seu novo nascimento (cf. Jo 3.3). Na medida em que os indivíduos creem em Cristo e o confessam como Senhor (Rm 10.9,10), vão sendo inscritos no rol de membros da Igreja dos primogênitos, a Universal Assembleia (At 2.47, ARA; Hb 12.23).


Em Filipenses 4.3, o apóstolo Paulo mencionou cooperadores “cujos nomes estão no livro da vida”, porém antes asseverara: “estai sempre firmes no Senhor, amados” (v. 1; cf. Ap 2-3). Isso mostra que 
existe, sim, a possibilidade de pessoas salvas, que não perseverarem até ao fim, terem os seus nomes riscados do livro da vida do Cordeiro (Ap 3.5; Êx 32.32,33). Serão, portanto, riscados do livro da vida os que permanecerem desviados do Senhor e em pecado (cf. Ap 3.3-5; 21.27; Hb 3; 6; 10; 2 Pe 2).

Ciro Sanches Zibordi

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Como entender as profecias escatológicas de Mateus 24 e 25?


Em minhas palestras de Escatologia Bíblica, tenho notado que uma das passagens das Escrituras que mais tem gerado questionamentos é Mateus 24 e 25. Isso, em grande parte, porque os eventos escatológicos mencionados nesses dois capítulos não foram apresentados por Jesus em ordem cronológica.

Muitos perguntam, por exemplo: “Se em Mateus 24.37-39 Jesus trata do Arrebatamento, como dizem os dispensacionalistas, por que esse evento é mencionado depois da Grande Tribulação? Isso não seria uma indicação clara de que a Igreja passará por esse período?” Em primeiro lugar, não se deve ignorar que a Bíblia é análoga: as Escrituras interpretam as Escrituras. Segundo: Jesus apresentou as verdades contidas em Mateus 24 e 25 a seus discípulos, que ali representavam a Igreja e também Israel, haja vista serem, ao mesmo tempo, os primeiros membros da Igreja e israelitas. Terceiro: Ele respondeu a uma pergunta tripartida, e a sua resposta, conquanto igualmente tripartida, não está, necessariamente, em ordem cronológica.

Mateus 24.1,2 
— a invasão de Jerusalém. Ao sair do Templo, o Senhor Jesus foi abordado por seus discípulos, que começaram a lhe mostrar a estrutura daquele edifício. No versículo 2 temos, então, o início do seu sermão profético, com a predição da invasão de Jerusalém pelos romanos no ano 70: “não ficará pedra sobre pedra que não seja derribada”. As profecias do Senhor sobre o futuro terminam em Mateus 25.46.

Mateus 24.3 — a pergunta tripartida dos discípulos. Ao fazer menção da invasão de Jerusalém e da destruição do Templo, o Senhor ouviu dos discípulos uma pergunta tripartida, abarcando questões alusivas a sinais para “estas coisas”, “tua vinda” e “fim do mundo”. Aqui está uma importante chave para se entender as profecias do Senhor. Ele, como veremos, responde aos discípulos de modo tripartido e faz menção de profecias veterotestamentárias, direta ou indiretamente, reforçando a necessidade de se considerar a analogia bíblica.

Mateus 24.4-14 — sinais escatológicos gerais. Diante da pergunta tripartida dos discípulos, o Senhor faz inicialmente uma abordagem panorâmica dos sinais sobre o futuro, desde aqueles dias até o fim do mundo. Ele, por enquanto, não menciona nenhum evento específico, mas chama a atenção dos discípulos — que também eram israelitas — para sinais escatológicos gerais, como surgimento de enganadores (vv. 4,5,11), guerras e rumores de guerras, fomes, pestes, terremotos (vv. 6-8), perseguições aos cristãos (v. 9), escândalos, traições, aumento da iniquidade e esfriamento do amor etc. (vv. 10-12).

Jesus termina essa seção discorrendo sobre a pregação do Evangelho do Reino até “o fim” (v. 14). Os termos 
“Evangelho do Reino” e “fim” indicam, à luz de Apocalipse, que o Senhor se referiu ao Evangelho que será pregado durante a Grande Tribulação, especialmente pelas duas testemunhas e os 144 mil judeus selados por Deus, e por ocasião do Milênio, quando toda a terra se encherá do conhecimento do Senhor, de modo intuitivo e também por meio da pregação (cf. Hc 2.4; Jr 31.33,34; Is 2.3; 54.13). Tudo isso que Ele disse teve como objetivo incentivar os salvos a serem perseverantes em qualquer época ou circunstância (Mt 24.13). 

Mateus 24.15-28 — predições e advertências para Israel sobre a Grande Tribulação. A partir do versículo 15, com a menção da “abominação da desolação, de que falou o profeta Daniel” (no Templo), fica claro que o Senhor Jesus passa a tratar especificamente de predições relativas ao que acontecerá em/com Israel — haja vista estar falando também a israelitas — na Grande Tribulação, antes da Manifestação do Senhor. Até o versículo 28 não há dúvida de que Ele está tratando do que acontecerá em/com Israel durante a Grande Tribulação. Jesus faz predições e advertências específicas para Israel, como o alerta de que surgirão falsos cristos (vv. 23-26). E sabemos que os israelitas tementes a Deus também creem na vinda do Messias; mas estão esperando ainda a sua primeira vinda, enquanto nós já esperamos a sua volta ou Segunda Vinda (Jo 14.1-3; Hb 9.28).

Quem pensa que nessa seção Jesus se refere à invasão de Jerusalém, no ano 70, precisa ler com atenção o versículo 21: “nesse tempo haverá grande tribulação, como desde o princípio do mundo até agora não tem havido e nem haverá jamais” (ARA). A Segunda Guerra Mundial, por exemplo, foi muito pior para os israelitas que a invasão de Jerusalém. O Mestre conclui essa seção afirmando que, “assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até ao ocidente, assim será também a vinda do Filho do Homem” (v. 27), numa alusão clara à sua Manifestação em poder e grande glória, com a sua Igreja, no fim da Grande Tribulação (cf. Zc 14.1-11; Jd vv. 14,15; Ap 19.11-21).

Mateus 24.29-35 — a Manifestação do Senhor em poder e grande glória. A partir do versículo 29 o Senhor Jesus passa a fazer menção da sua aludida Manifestação, “logo depois da aflição daqueles dias”, quando “o sol escurecerá, e a lua não dará a sua luz, e as estrelas cairão do céu, e as potências dos céus serão abaladas”. Observe que todas as tribos da terra se lamentarão (v. 30), pois Ele então se manifestará para julgar os adoradores da Besta — reunidos na “grande Babilônia”, cidade de Jerusalém tomada pelos inimigos de Israel —, pondo fim ao império do Anticristo (cf. Ap 18.9-24). Segundo Apocalipse 19, a Igreja já estará com o Senhor, por ocasião de sua Manifestação em poder e grande glória.

Nesse caso, quem são os escolhidos, ajuntados por anjos “desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus” (Mt 24.31)? Não há dúvida, com base na analogia geral da Bíblia e no que o Senhor dissera anteriormente, no sermão profético em apreço, que se trata de uma referência ao remanescente dos israelitas tementes a Deus. Estes serão reunidos para o Julgamento das Nações, mencionado pelos profetas do Antigo Testamento, como em Joel 2.30-32; 3.1,2:

“E mostrarei prodígios no céu e na terra, sangue e fogo, e colunas de fumaça. O sol se converterá em trevas, e a lua, em sangue, antes que venha o grande e terrível dia do SENHOR. E há de ser que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo; porque no monte Sião e em Jerusalém haverá livramento, assim como o SENHOR tem dito, e nos restantes que o SENHOR chamar. Porquanto eis que, naqueles dias e naquele tempo, em que removerei o cativeiro de Judá e de Jerusalém, congregarei todas as nações, e as farei descer ao vale de Josafá; e ali entrarei em juízo, por causa do meu povo e da minha herança, Israel, a quem eles espalharam entre as nações, repartindo a minha terra”.

O Senhor Jesus faz menção desse grande acontecimento em Mateus 25.31,32: “quando o Filho do Homem vier em sua glória, [...] se assentará no trono da sua glória; e todas as nações serão reunidas diante dele”. O remanescente israelita (cf. Rm 9.27; 11.26) não participará do aludido julgamento na qualidade de réu, pois, “naqueles dias e naquele tempo”, Deus removerá “o cativeiro de Judá e de Jerusalém” (Jl 3.1). Em seguida, será instaurado o Milênio, e “o SENHOR será rei sobre toda a terra; naquele dia, um será o SENHOR, e um será o seu nome” (Zc 14.9).

Mateus 24.36-51; 25.1-13 — o Arrebatamento da Igreja. Jesus conclui a seção pela qual trata do futuro de Israel e começa outra. A transição está clara em 24.34-36 (leia com atenção). De 24.36 até 25.13 o Mestre fala especificamente à sua Igreja e discorre sobre o Arrebatamento, fazendo menção, também, do Tribunal de Cristo (24.45-51), das Bodas do Cordeiro (25.10) e do Inferno (24.51). Quem diz que a parábola das dez virgens alude a Israel precisa observar que ela começa com o conectivo “Então”, que liga o início do capítulo 25 ao que o Senhor já vinha abordando anteriormente: sua iminente vinda e a importância de estarmos prontos para ela (24.36-51).

Mateus 25.14-30 — o Tribunal de Cristo. Após concluir a parábola das dez virgens dando ênfase à iminência do Arrebatamento da Igreja: “Vigiai, pois, porque não sabeis o Dia nem a hora em que o Filho do Homem há de vir” (v. 13), o Senhor Jesus passa a discorrer sobre o Tribunal de Cristo, que é melhor compreendido à luz das explicações do apóstolo Paulo (Rm 14; 1 Co 3; 2 Co 5 etc.). Mas observe que, ao tratar do julgamento dos salvos para efeito de galardão, o Senhor também faz menção do Inferno (Mt 25.30), deixando claro que muitos que estão entre nós sequer comparecerão ante o Tribunal de Cristo (cf. Mt 7.21-23), visto que este será destinado apenas aos santos arrebatados (1 Ts 4.16,17; Ap 22.12).

Mateus 25.31-46 — o Julgamento das Nações. O último assunto apresentado pelo Senhor Jesus em seu sermão profético é o Julgamento das Nações, o qual se dará durante toda a Grande Tribulação (Zc 12-14; Jr 50.20), tendo a sua consumação com a Manifestação do Senhor. Quem não considera a analogia geral da Bíblia terá grande dificuldade de entender essa parte da revelação apresentada por Jesus. Ele compara as nações reunidas a bodes e ovelhas, postas à esquerda e à direita do Justo Juiz. Fica claro, à luz de Joel 3, que as nações-bodes e nações-ovelhas são as que, respectivamente, fizeram mal e bem a Israel.

Jesus conclui a presente seção — e também o seu sermão profético — dizendo: “E irão estes para o tormento eterno, mas os justos, para a vida eterna” (Mt 25.46). Isoladamente, os termos “tormento eterno” e “vida eterna” poderiam ser grosso modo chamados de Inferno e Céu, mas, como a Bíblia é análoga, não podemos deixar de conferir outras passagens escatológicas e o próprio contexto imediato do versículo em apreço. À luz de Mateus 10.28 e Apocalipse 20.15, o primeiro termo, “fogo eterno”, equivale a “tormento eterno” (gr. kolasin aiõnion), Geena e Lago de Fogo (gr. limnem ton purós).

Quanto ao segundo termo, “vida eterna”, está claramente associado ao que o Senhor havia dito a respeito do Reino, isto é, o Milênio: “Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o Reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mt 25.34). Ou seja, os representantes de países absolvidos no Julgamento das Nações irão para a vida eterna no sentido de que, ao ingressarem como povos naturais no Reino de mil anos previamente preparado por Deus, terão a oportunidade de receber a salvação eterna por meio de Jesus Cristo e permanecer nEle, assim como ocorre hoje, antes do Arrebatamento da Igreja (cf. Jo 3.16; Mt 24.13).

Maranata!

Ciro Sanches Zibordi

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

O que são as Bodas do Cordeiro?


Logo após o Rapto da Igreja — um evento secreto, exclusivo para os salvos em Cristo, imperceptível para o mundo sem Deus (Jo 14.1-3; Hb 9.28; cf. At 1.11), como já vimos em artigos anteriores, neste blog —, “estaremos sempre com o Senhor” (1 Ts 4.17). E, enquanto o mundo sofre os horrores da Grande Tribulação, ocorrerá, concomitantemente, outro evento exclusivo para os salvos arrebatados: o casamento entre Cristo e a Igreja, também conhecido como as Bodas do Cordeiro. Neste artigo discorrerei sobre algumas características desse glorioso evento reveladas nas Escrituras.

1. A Palavra de Deus não dá muitos detalhes sobre as Bodas do Cordeiro. Elas serão um grande banquete como nunca houve, no qual se cumprirão tipos, parábolas e profecias relacionadas com Cristo e sua Igreja. O melhor dessa festa só será conhecido após o Arrebatamento da Igreja (cf. Rm 8.18; 1 Pe 5.1). O que precisamos saber está escrito de modo direto em Apocalipse 19.7-9: “Regozijemo-nos, e alegremo-nos, demos-lhe glória, porque vindas são as bodas do Cordeiro, e já a sua esposa se aprontou. E foi-lhe dado que se vestisse de linho fino, puro e resplandecente; porque o linho fino são as justiças dos santos. E disse-me: Escreve: Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro. E disse-me: Estas são as verdadeiras palavras de Deus”.

2. As Bodas do Cordeiro são o casamento entre Cristo e a Igreja. A Palavra de Deus afirma que o Senhor Jesus é o Noivo ou Esposo celeste (Ef 5.25-27,32; Mt 9.15; 25.1-10 etc.). E, por isso, o apóstolo Paulo dirigiu-se aos crentes de Corinto com as seguintes palavras: “estou zeloso de vós com zelo de Deus; porque vos tenho preparado para vos apresentar como uma virgem pura a um marido, a saber, a Cristo” (2 Co 11.2). Quanto à Noiva do Cordeiro, a Igreja, estará vestida de linho fino, puro e resplandecente, que representam as justiças dos santos (Ap 3.4,5; cf. 4.4).

3. A Igreja estará preparada para as Bodas do Cordeiro. O texto de Mateus 25.1-13 tem sido aplicado erroneamente a Israel. O conectivo “então” (v. 1) revela que o Senhor Jesus continua falando a respeito do futuro glorioso da Igreja, e não de Israel. Nos versículos anteriores à parábola das virgens vemos que o Mestre começara a falar especificamente sobre a sua iminente Vinda e a importância de estarmos prontos para ela (Mt 24.36-51).

Como a Bíblia é análoga, nota-se, à luz de Mateus 25.10 e Apocalipse 19.7, que a Noiva — a Igreja do Senhor arrebatada — já estará pronta, preparada, para as Bodas do Cordeiro. A Noiva, a Igreja, já chegará ao local do banquete ataviada, devidamente trajada com as suas vestes nupciais. E o Noivo, o Senhor Jesus, com grande alegria, a apresentará diante de seu Pai (Mt 10.32; Ap 3.5) e dos seus anjos (Lc 12.8). Participaremos da Ceia prometida pelo próprio Noivo: “E eu vos destino o Reino, como meu Pai mo destinou, para que comais e bebais à minha mesa no meu Reino e vos assenteis sobre tronos, julgando as doze tribos de Israel” (Lc 22.29,30).

4. As Bodas do Cordeiro são mais uma prova de que a Igreja não passará pela Grande Tribulação. Em Apocalipse 19, mencionam-se os exércitos do Céu — claramente, uma alusão à Noiva do Cordeiro — que, triunfantemente, seguem Jesus montados em cavalos brancos, “vestidos de linho fino, branco e puro” (v. 14). Fica claro que a Noiva, na Manifestação do Senhor em poder e grande glória, já terá participado das Bodas do Cordeiro (vv. 6-9), visto que estará vestida plenamente com “os atos de justiça dos santos” (v. 8, NASB).

Não há dúvida de que, nesse momento — como o número desses atos já terão sido completados —, o Arrebatamento e o Tribunal de Cristo já terão ocorrido. Como os eventos em Apocalipse 19 a 22 estão em ordem cronológica, fica claro também que as Bodas ocorrerão no Céu antes que Cristo se manifeste em poder e grande glória para derrotar o Anticristo e seu exército (Ap 19.11-21).

5. A Igreja entrará nas Bodas do Cordeiro já galardoada. Quando ela entrar na sala do banquete, estará coroada, galardoada, e será honrada pelo Noivo. Isso foi o que João viu quando contemplou 24 anciãos no Céu — antes de Deus lhe ter revelado o início da Grande Tribulação (cf. Ap 4-6) —, os quais simbolizam a totalidade da Igreja. O número 24, à luz de Apocalipse 21, alude claramente às doze tribos de Israel, representando os salvos dos tempos do Antigo Testamento, e os doze apóstolos do Cordeiro, representantes da Igreja estabelecida pelo Senhor nos tempos neotestamentários (Mt 16.18).

Deus mostrou a João como serão a adoração e o louvor a Deus no Céu, logo após o Arrebatamento da Igreja. Observe que os mencionados 24 anciãos (gr. presbuteros) — que não são anjos, pois em nenhum lugar da Bíblia anjos são chamados de “presbíteros” — estão assentados em tronos e têm vestes brancas e coroas na cabeça (Ap 4.4). E note também que o Senhor Jesus mostrou tudo isso a João logo após ter prometido às igrejas da província da Ásia — igrejas reais, mas que também representam a totalidade da Igreja (cf. Ap 2.7,11,17,29; 3.6,13,22) — que os fiéis e vencedores receberiam coroas e vestes brancas, e se assentariam em tronos (Ap 2.10; 3.4,5,21).

6. Até o fim das Bodas do Cordeiro os mártires da Grande Tribulação se unirão à Igreja. A Noiva do Cordeiro é formada por todos os remidos, de todas as épocas. Todas as pessoas salvas, inclusive as dos tempos do Antigo Testamento, foram salvas por meio do sangue do Cordeiro (cf. Hb 11; Ap 13.8). Como as Bodas ocorrerão no Céu, e a Grande Tribulação, simultaneamente, na Terra, até o fim desse período os salvos em Cristo que forem mortos pelo Anticristo por não adorá-lo, os mártires, integrarão os mencionados exércitos, que seguirão aquEle que se chama “Fiel e Verdadeiro e julga e peleja com justiça”, cujos olhos são “como chama de fogo; [...] vestido de uma veste salpicada de sangue, e o nome pelo qual se chama é a Palavra de Deus” (Ap 19.11-13).

7. Como parte das Bodas haverá uma grande e gloriosa Ceia. É um tanto difícil para muitos entenderem o porquê dessa “alimentação” no Céu. Uma vez que estaremos em outra dimensão e já teremos, então, corpos glorificados — não mais sujeitos às leis da natureza (Fp 3.20,21) —, que necessidade haverá de comida e bebida, e como isso se dará? Não me arrisco a especular sobre a gloriosa Ceia das Bodas do Cordeiro. Mas faço minhas as palavras de Paulo: “para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (Rm 8.18, ARA).

Maranata!

Ciro Sanches Zibordi

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

O perigo da arminiolatria


A Palavra de Deus é contrária a qualquer tipo de facção no Corpo de Cristo. E, por isso, o apóstolo Paulo, inspirado por Deus, disse aos crentes de Corinto e a nós, por extensão: "cada um de vós diz diz: Eu sou de Paulo, e eu, de Apolo, e eu de Cefas, e eu, de Cristo. Está Cristo dividido? Foi Paulo crucificado por vós? Ou fostes vós batizados em nome de Paulo?" (1 Co 1.10-13). Entretanto, sedento por responder ao que considera desvios doutrinários do calvinismo, um grupo de jovens — muitos deles cultos, mas imprudentes — está formando, possivelmente sem ter consciência disso, uma espécie de seita arminiana.

Na maior parte do tempo, eles só leem, falam e discutem acerca de Armínio, arminianismo, arminianos ou verberam contra o calvinismo e calvinistas. E o pior de tudo é a conduta desses jovens, que zombam ou desdenham de pastores — calvinistas ou arminianos — quando estes os desagradam. Ao mesmo tempo, eles querem ser reconhecidos como os autênticos defensores e profundos conhecedores do arminianismo, além de viverem fazendo patrulhamento de quem opina sobre seu objeto de pesquisa quase idolátrico: a "teologia arminiana".

Triste a situação da nova geração evangélica. Se, por um lado, há proselitistas calvinistas que — sem nenhuma modéstia — se consideram superiores em tudo e riem dos "pobres" e "fracos" arminianos, estes, por outro lado, resolveram "pagar com a mesma moeda" e usar as mesmas armas... Ora, a Bíblia não diz que as armas da nossa milícia não são carnais? Então, por que vocês, só porque estão lendo livros e mais livros sobre o arminianismo, consideram-se soberbamente a "nata arminiana" e recorrem a expedientes tão carnais?

Sejamos humildes! Respeitemos os pastores chamados por Deus. Que negócio é esse de menoscabar decanos em razão de eles supostamente não conhecerem alguns pormenores da vida de Armínio! Quem é Armínio, o novo Senhor da Igreja? Pastores há que nada sabem a respeito desse teólogo holandês, mas conhecem a Palavra de Deus e trazem no seu corpo as marcas de Jesus Cristo! Estou cansado dessa arminiolatria! E também da calvinolatria! Jesus Cristo é o centro do Evangelho! Ele é o fundamento da Igreja! ‪#‎ProntoFalei‬.

Ciro Sanches Zibordi

Para um pentecostal, o que é o arminianismo


Há algum tempo, por causa da amizade que tenho com irmãos calvinistas, alguém me perguntou: “Afinal, você é calvinista ou arminiano?” E eu, vendo que o irmão tinha senso de humor, lhe respondi: “Nenhum dos dois. Sou pentecostal”. Risos. Na verdade, brincadeiras à parte, considero que ser pentecostal — pentecostal, mesmo! — é mais que ser arminiano, uma vez que a soteriologia arminiana remonstrante e wesleyana está contida no genuíno pentecostalismo. Neste artigo pretendo fazer uma abordagem histórica do arminianismo, procurando distingui-lo do pelagianismo e do semipelagianismo, que em parte prevalecem em alguns círculos pentecostais.

O QUE NÃO É O ARMINIANISMO?

Especialmente por causa da conduta de Charles Finney, grande evangelista do século XIX, e dos remonstrantes liberais que surgiram no século XVIII, como Philip Limborch, John Taylor e Charles Chauncy, os pentecostais arminianos têm sido acusados — com certa justiça — de pelagianos ou semipelagianos. De fato, Finney pendeu um pouco para o pelagianismo e um pouco mais para o semipelagianismo, mas estes nada têm a ver com o arminianismo clássico, o qual definirei depois de discorrer brevemente sobre o pelagianismo e o semipelagianismo.

O pelagianismo tem origem em Pelágio de Bretanha (350-423), um monge que escreveu sobre pecado, livre-arbítrio e graça. Ele negou o pecado original e elevou as habilidades humanas. E, por isso, foi duramente contestado por Agostinho de Hipona (354-430) e seu contemporâneo Jerônimo (347-420). As heresias de Pelágio, em resumo, foram as seguintes: ele disse que o homem nasce sem a mancha do pecado original, herdado de Adão; negou que a graça seja essencial para a salvação; e defendeu que o homem, por meio do livre-arbítrio, é totalmente responsável por sua salvação — este tipo de sinergismo é herético porque minimiza o papel da graça divina. Segundo o arminianismo clássico — de Armínio, dos primeiros remonstrantes (como Episcópio e Grótius) e de Wesley, o homem nasce pecador (cf. Sl 51.5; Rm 3.23), e a salvação ocorre exclusivamente pela graça (cf. Ef 2.8-10).

Já o semipelagianismo — que não é o mesmo que arminianismo antes do tempo, como alguns críticos têm dito — surgiu a partir da controvérsia de Pelágio e Agostinho. Um teólogo chamado João Cassiano (360-435) tentou construir uma ponte entre Pelágio e Agostinho, que defendia a eleição incondicional tendo por base o fato de que os descendentes de Adão nascem espiritualmente mortos e culpados da culpa de Adão, e a partir daí surgiram duas outras escolas soteriológicas, por assim dizer: o semipelagianismo e o semiagostinianismo. Para a primeira, a salvação começa a partir da vontade humana, que é assistida por Deus. E, para o segundo, Deus coopera com a vontade na obra salvífica, mas é Ele quem dá o start. Alguns teólogos têm preferido ver as duas escolas como se fossem uma só. Eles afirmam que os termos citados são empregados de modo intercambiável, como sinônimos. O certo é que ambos não estão de acordo com o arminianismo clássico.

Quais são as heresias semipelagianas (ou semiagostinianas)? Essa escola prega que o homem, apesar de pecador, tem uma força remanescente, mesmo em seu estado caído, depravado, para iniciar a salvação através de sua boa vontade. Diz também que a depravação do ser humano caído é parcial, uma vez que o homem é capaz de exercer uma boa vontade para com Deus, independentemente de qualquer infusão de graça sobrenatural. Isso não é pregado pelos pentecostais que se prezam, os quais são, em geral, arminianos clássicos. Estes afirmam, com a Bíblia na mão, que a salvação ocorre exclusivamente pela graça, conquanto a santificação seja progressiva (cf. Ef 2.8-10; Hb 12.14). Eles têm a certeza de que a salvação é obra exclusiva de Deus e creem que o sinergismo, à luz das Escrituras, não denota que a salvação depende da cooperação entre Deus e o homem. Os pentecostais estão convictos de que a depravação do homem é total e de que a iniciativa para a salvação é sempre de Deus, que capacita o ser humano para crer e se arrepender (cf. Tt 2.11; Jo 6.44).

O QUE É O ARMINIANISMO?

Em primeiro lugar, o arminianismo não tem nada com o país da Armênia! Jacobus Arminius (1560-1609) foi um teólogo holandês do período da Reforma Protestante, um reformador que tentou fazer uma reforma dentro da Reforma. E ele não possuía ascendência armênia! Risos. Grosso modo, o arminianismo é a teologia dos seguidores de Armínio. E é bom dizer que Armínio não foi um estudioso que quis “reinventar a roda”. Pelo contrário, em sua argumentação, ele evocou os pais da Igreja, empregou métodos e conclusões teológicas da Idade Média, bem como baseou-se em teólogos protestantes que o antecederam. Ele acabou morrendo no auge da controvérsia sobre a soteriologia, aos 49 anos, e seu pensamento quanto a salvação e sua segurança foi expresso num documento póstumo chamado Remonstrantie (Protesto, Objeção, um ato de oposição), publicado em 1610 e apresentado por seus seguidores a uma conferência em Gouda, Países Baixos (Holanda).

Por causa do nome do documento, os cerca de 45 seguidores de Armínio ficaram conhecidos como remonstrantes. Simão Episcópio (1583-1643), provavelmente, foi quem compilou os escritos de Armínio e tornou-se, posteriormente, o primeiro professor do Seminário Remonstrante, na Holanda, fundado depois de seu exílio (1619-1625). Outro remonstrante famoso foi o estadista e cientista político Hugo Grótius (1583-1645). O documento citado foi examinado pelo Sínodo de Dort (1618-1619). Para dar credibilidade ao seu posicionamento, os remonstrantes argumentaram que Melanchton, um líder luterano conservador, e outros luteranos mantinham posicionamentos similares ou idênticos aos de Armínio. Mas o sínodo (uma assembleia) condenou formalmente o pensamento de Armínio, e muitos de seus seguidores foram banidos e passaram a ser perseguidos.

Após rechaçar a remonstrância, os teólogos contrários às ideias de Armínio, divulgaram seu posicionamento, que hoje é conhecido como “os cinco pontos do calvinismo”, apresentado mediante o acróstico TULIP, em inglês: total depravity (depravação total); unconditional election (eleição incondicional); limited atonement (expiação limitada); irresistible grace (graça irresistível); e perseverance of saints (perseverança dos santos). Depois do Sínodo de Dort, o arminianismo foi suprimido nos Países Baixos (Holanda), acolhido na Inglaterra e nos Estados Unidos; e disseminado através do ministério do pregador John Wesley.

QUANTOS TIPOS DE ARMINIANISMO EXISTEM?

A partir do século XVIII, o arminianismo dividiu-se em dois grupos: o clássico e o liberal. O arminianismo clássico é o que se mantém fiel ao pensamento de Armínio, dos primeiros remonstrantes, de John Wesley e seus herdeiros. Aliás, uma clara prova de que nem todos os arminianos se tornaram liberais — como alguns têm dito, de modo injusto — é que Wesley defendeu Armínio e o arminianismo das acusações de que essa escola levava à heterodoxia ou à heresia. Wesley defendeu o sinergismo através da graça preveniente de Deus e pregou a justificação exclusivamente pela graça através da fé. Ele é, sem dúvidas, a maior fonte do arminianismo clássico.

Quando se critica o arminianismo, hoje, é por causa dos remonstrantes liberais, visto que a ênfase deles ao livre-arbítrio está alicerçada no Iluminismo, por influência do arminiano liberal Philip Limborch (1633-1712). O arminianismo liberal tem recebido várias críticas justas, pois, em razão de sua falta de compromisso com as Escrituras, ora se mostra pelagiano ou, no mínimo, semipelagiano, ora universalista ou até ariano, negando a plena deidade de Cristo. Não foi por acaso que o famoso calvinista Jonathan Edwards (1703-1758) se opôs de maneira veemente ao arminianismo liberal, de Limborch.

QUAIS SÃO AS DOUTRINAS BÍBLICAS DEFENDIDAS PELOS PENTECOSTAIS ARMINIANOS?

A teologia arminiana também tem os seus cinco pontos, expressos por meio do acróstico FACTS, que é, por assim dizer, uma tréplica do arminianismo wesleyano aos cinco pontos do calvinismo: freed by grace to believe (liberto [por assim dizer] pela graça para crer); atonement for all (expiação para todos); conditional election (eleição condicional); total depravity (depravação total); e security in Christ (segurança em Cristo). Examinemo-los de modo breve.

Freed by grace to believe (liberto [por assim dizer] pela graça para crer). Este ponto responde à quarta letra de TULIP: irrestible grace (graça irresistível) e alude à graça preveniente, que é persuasiva, e não coercitiva. A doutrina da graça preveniente é interpretada pelos pentecostais arminianos como uma graça convincente, convidativa, iluminadora e capacitadora, que atencede a conversão e torna o arrependimento e a fé possíveis. É a graça preparatória do Espírito Santo exercida no homem abandonado em pecado. A salvação não vem antes da fé e do arrependimento; o que vem antes é a capacitação do Espírito Santo, pela graça preveniente, que precede e capacita os primeiros indícios de uma boa vontade para com Deus, a fim de que o pecador tenha a fé salvadora e o arrependimento.

Segundo os pentecostais arminianos, o novo nascimento é totalmente pela graça, pois o pecador está morto (Ef 2.5,6). Assim como não pudemos ajudar em nada quando do nosso primeiro nascimento, muito menos em nosso segundo (novo) nascimento (cf. GILBERTO, 2008, p. 333-378). Graça preveniente é persuasiva, e não coercitiva; a ação por parte do Espírito para convencer o pecador não é uma coerção, e sim como uma persuasão (Jo 16.8-12). Ou seja, Deus não impõe, mas oferece a salvação (Mt 13.37). Todas as pessoas nascem moral e espiritualmente depravadas e incapazes de fazer qualquer coisa boa ou digna aos olhos de Deus, sem uma infusão especial da graça divina para superar as inclinações do pecado original.

Atonement for all (expiação para todos). Este ponto responde à terceira letra da TULIP: limited atonement (expiação limitada). Expiação geral não significa salvação geral; denota expiação geral do pecado adâmico. Por isso, arminianos acreditam na salvação das crianças que morrem antes de alcançar a idade do despertamento da consciência. A obra expiatória é ilimitada porque se refere ao pecado (Jo 1.29; cf. Lv 4; 16; 23); a expiação é o ato de tirar o pecado, em potencial; é diferente da redenção. Mas a obra redentora é limitada porque se refere ao pecador; a redenção diz respeito à salvação concretizada, de modo eficaz, na vida do pecador.

Segue-se que, para os pentecostais, a expiação precede a redenção, visto que sem expiação pelo sangue não há perdão do pecado (Lv 4.35). Jesus expiou o pecado do mundo, para que todos os que crerem sejam redimidos, uma vez que "todos pecaram" (Rm 3.23), e Deus amou a todos os pecadores (Jo 3.16; Rm 11.32), desejando que todos sejam salvos (1 Tm 2.4). Mas a salvação só se realiza eficaz e efetivamente na vida do pecador quando este crê no Redentor (Jo 5.24; Rm 5.19; Hb 5.8,9). Se a redenção (e não a expiação) fosse ilimitada em sua extensão, o universalismo seria bíblico, visto que o Senhor Jesus provou a morte por todos os homens (Jo 1.9; Tt 2.11; 1 Jo 2.1,2; 1 Tm 2.4-6; Hb 2.9; Rm 11.32).

Conditional election (eleição condicional). Este ponto responde à segunda letra de TULIP: unconditional election (eleição incondicional). Mas há duas grandes escolas arminianas quanto a isso: a que interpreta a eleição segundo a presciência de Deus e a que não nega a presciência de Deus, mas defende prioritariamente a eleição corporativa, condicionada a seu plano. Para um grupo de teólogos de linha arminiana, Deus elegeu de antemão os que receberiam a salvação pela fé, isto é, responderiam livremente, de maneira positiva, à graciosa oferta de salvação. A predestinação, nesse caso, é a determinação (decreto) de Deus para salvar por intermédio de Cristo todos os que livremente respondem à oferta divina da graça livre ao se arrependerem do pecado e crerem em Cristo. Mas um outro grupo — do qual faz parte este articulista — não despreza as doutrinas bíblicas da presciência de Deus e da predestinação, porém afirma que Deus nos elegeu nEle; ou seja, não foram eleitos indivíduos para a salvação, e sim a sua Igreja, a Universal Assembleia dos Santos (Ef 1.1-4; 1 Pe 2.9,10).

Total depravity (depravação total). Este ponto equivale, aparentemente, à primeira letra da TULIP. Mas, para eruditos arminianos, como Stanley Horton, Antonio Gilberto, Roger Olson e Dave Hunt, por exemplo, a depravação total é extensiva e corruptora, e não intensiva e destruidora. Em outras palavras, ela é uma corrupção do bem, e não uma destruição do bem. O ser humano nasce com a propensão de pecar, e não com a necessidade de pecar. A vontade do homem foi diminuída, e não destruída. Alguns teólogos, arminianos ou calvinistas moderados, entendem que, se a depravação tivesse destruído a capacidade do ser humano de distinguir o bem do mal e escolher o bem antes que o mal, então teria destruído a capacidade do ser humano de pecar (cf. GEISLER, 2001). Para o arminianismo, a despeito dos efeitos deletérios do pecado, o ser humano ainda tem livre-arbítrio (cf. Dt 30.19; Lc 9.23; Ap 22.17).

Security in Christ (segurança em Cristo). Este ponto responde à quinta letra da TULIP: perseverance of saints (perseverança dos Santos). A bem da verdade, Armínio e os remonstrantes não se posicionaram em relação a essa questão. Como bem observou um dos maiores especialistas em arminianismo, na atualidade, a Remonstrância não é uma declaração completa da teologia arminiana (OLSON, 2013). Por isso, aqui também há duas escolas: a dos arminianos “calvinistas moderados” (como Norman Geisler), que dizem “uma vez salvo, sempre salvo, haja o que houver”; e a dos wesleyanos — da qual este articulista faz parte —, que acreditam na possibilidade de perda de salvação. Estes creem que a salvação pode ser perdida, mas não por qualquer motivo. Eles não ignoram as contundentes passagens em defesa da possibilidade de cair da graça, como Apocalipse 3.8, 2 Pedro 2, Hebreus 3; 6; 10 etc.

QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS ARMINIANOS DA HISTÓRIA?

Sempre me perguntam, quando participo de eventos envolvendo calvinistas e arminianos: “Quais são os principais arminianos, ao longo História?” É difícil responder essa pergunta de modo objetivo, sem uma explicação sobre cada nome, pois muitos abraçaram o arminianismo em parte; outros tornaram-se arminianos no fim da vida; outros deixaram de sê-lo; outros não fazem questão de declarar-se arminianos etc. Mas vou tentar apresentar aqui uma lista de arminianos, a partir de Armínio, embora reconheça que a soteriologia armininana preceda o próprio Armínio, como afirmou Norman Geisler: “Se afirmar que Deus não viola a livre-escolha de qualquer ser humano a fim de salvá-lo é considerado pensamento 'arminiano', então todos os grandes da patrística, desde o começo, incluindo Justino, Ireneu, Atenágoras, Clemente, Tertuliano, Orígenes, Metódio, Cirilo, Gregório, Jerônimo, Crisóstomo, Agostinho o jovem, até Anselmo e Tomás de Aquino foram arminianos!” (GEISLER, 2001).

Séculos XVII e XVIII. Começo minha lista pelo século XVII, citando os primeiros remonstrantes, além do próprio Armínio (1560-1609): Simão Episcópio (1583-1643) e Hugo Grótius (1583-1645). Do século XVIII, cito John Wesley (1703-1791), lembrando que todo o movimento metodista e suas ramificações, como o multifacetado movimento da santidade, adotaram a versão de Wesley da teologia arminiana, que pouco se difenciava do próprio Armínio. E também menciono John Fletcher (1729-1785), primeiro teólogo sistemático do metodismo, que teve grande influência sobre Wesley, e Richard Watson (1781-1833), metodista britânico e um dos teólogos arminianos mais influentes dos séculos XVIII e XIX. Mas é bom lembrar que ainda no século XVIII surgiram os remonstrantes liberais, como Philip Limborch (1633-1712), John Taylor (1694-1761) e Charles Chauncy (1705-1787).

Século XIX. Neste, temos os metodistas Thomas Summers (1812-1882), William Burton Pope (1822-903) e John Miley (1813-1895). Este, porém, foi um dos arminianos mais controversos do período, a despeito de ser fortemente apegado à supremacia das Escrituras. Mas os dois nomes mais importantes desse século foram, sem dúvida, Finney e Moody. Charles Finney (1792-1875), a despeito de seus desvios semipelagianos, tão criticados pelos calvinistas e reconhecidos pelos arminianos, teve uma carreira brilhante como pregador avivalista. Dwight Lyman Moody (1837-1899), por sua vez, foi tão usado por Deus com pregador e editor, a ponto de ser chamado de “Célebre ganhador de almas” no livro Heróis da Fé, publicado no Brasil pela CPAD.

Século XX. São muitos os arminianos desse período: H. Orton Wiley (1877-1961), líder da Igreja do Nazareno, produziu a excelente obra Christian Theology, de três volumes, mesclando o arminianismo de Armínio e dos remonstrantes com o perfeccionismo de Wesley. Henry Clarence Thiessen (1883-1947), que, grosso modo, ensinou a posição arminiana clássica em seu livro Palestras Introdutórias à Teologia Sistemática (Imprensa Batista Regular, 1987). Aiden Wilson Tozer (1897-1963), famoso pastor norte-americano, pregador, autor, editor etc., conhecido com "O profeta do século XX". Clive Staples Lewis (1898-1963), arminano em grande parte, professor universitário, escritor, romancista, poeta, crítico literário, ensaísta e apologista cristão britânico. Leonard Ravenhill (1907-1994), escritor e avivado evangelista britânico. William Franklin (Billy) Graham Jr. (nascido em 1918 e ainda vivo), pregador batista norte-americano, conselheiro espiritual de vários presidentes e o mais proeminente membro da Convenção Batista Sulista dos Estados Unidos.

Outros nomes impontantes do século XX: Carl O. Bangs (1922), erudito norte-americano, autor de Arminius: A Study in the Dutch Reformation (1971). Dave Hunt (1926-2013), um dos mais renomados pesquisadores de Escatologia. Thomas Oden (nascido em 1931 e ainda vivo), que não se declara arminiano, mas endossa de modo fervoroso a teologia de Armínio. David Wilkerson (1931-2011), reconhecido evangelista norte-americano, pastor da Times Square Church, em New York, Estados Unidos. Ouso mencionar, ainda, Norman L. Geisler (1932), apologista cristão, erudito, filósofo, o qual é um exemplo de que calvinistas e arminianos podem se entender, pois se declara calvinista moderado e, ao mesmo tempo, agrada, em grande parte, os arminianos. E também Roger E. Olson (1952), professor, erudito, autor de obras meritórias, como Arminian Theology: Myths and Realities.

Há vários nomes ainda no século XX (batistas, metodistas etc.), como Ray Dunning, Dale Moody, Stanley Grenz, Clark Pinnock, Leroy Forlines, Jack Cotrell, Howard Mashall, Jerry Walls etc. Mas quero finalizar a minha longa lista de arminianos ilustres citando o nome de pelo menos dois eruditos pentecostais brasileiros e da Assembleia de Deus: Antonio Gilberto, o principal erudito pentecostal do Brasil, na atualidade, o qual aqui representa todos os eruditos assembleianos que já partiram para a glória (como Stanley M. Horton, brilhante teólogo, que partiu para eternidade há poucos anos, e Donald Stamps, editor da Bíblia de Estudo Pentecostal, etc.). E, como a lista é muito longa, cito por último o erudito, pastor e escritor Esequias Soares como representante dos inúmeros expoentes pentecostais e arminianos da Assembleia de Deus, na atualidade. Ciro Sanches Zibordi

REFERÊNCIAS

ARMÍNIO, Jacó. As Obras de Armínio. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
GEISLER, Norman. Eleitos, mas Livres. São Paulo: Editora Vida, 2001.
GEISLER, Norman; BOCCHINO, Peter. Fundamentos Inabaláveis. São Paulo: Editora Vida, 2003.
GILBERTO, Antonio. Soteriologia — a doutrina da salvação. IN: GILBERTO, Antonio et al. Teologia Sistemática Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2008. São Paulo: Vida Nova, 1997.
OLSON, Roger E. Arminian Theology: Myths and Realities. Downers Glove, IL: InterVarsity Press, 2006.
PALMER, Michael D. Panorama do Pensamento Cristão. Rio de Janeiro: CPAD, 2001.
PIPER, John; TAYLOR, Justin. A Supremacia de Cristo em um Mundo Pós-moderno. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.
RADMACHER, Earl et al. Compact Bible Commentary. Nashville, TN: Thomas Nelson, 2004.
THIESSEN, Henry Clarence. Palestras Introdutórias à Teologia Sistemática. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 1987.
ZACHARIAS, Ravi; GEISLER, Norman. Sua Igreja Está Preparada? Rio de Janeiro: CPAD, 2007.
ZIBORDI, Ciro Sanches Zibordi. Procuram-se Pregadores como Paulo. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
______. Escatologia — a doutrina das últimas coisas. IN: GILBERTO, Antonio et al. Teologia Sistemática Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2008.
______. Mais Erros que os Pregadores Devem Evitar. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.
______. Evangelhos que Paulo Jamais Pregaria. 1. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O que é o Tribunal de Cristo?


Em Mateus 16.27 está escrito: “o Filho do Homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos; e, então, dará a cada um segundo as suas obras”. E, em Apocalipse 22.12, também lemos: “E eis que cedo venho, e o meu galardão está comigo para dar a cada um segundo a sua obra”. Logo após o momento mais esperado pela Igreja de Cristo, o seu Arrebatamento, os salvos em Cristo serão julgados, ainda nos ares. A despeito de a Bíblia asseverar que nenhuma condenação há para quem está em Cristo Jesus (Rm 8.1), os salvos serão julgados, não para efeito de salvação ou condenação, mas para receber ou não a premiação pelo trabalho desempenhado para o Senhor. Neste artigo apresento sete pormenores desse importante evento escatológico.

1. O Tribunal de Cristo não é o Juízo Final. Como já vimos, neste blog, no artigo escatológico anterior a este, o Tribunal de Cristo não deve ser confundido com o julgamento dos ímpios, que também serão julgados segundo as suas obras, no Juízo Final — o do Trono Branco —, mas para efeito de condenação eterna (Ap 20.11-15). Todos os salvos arrebatados serão julgados pelas suas obras apenas para receber ou não galardão (2 Co 5.9,10; Rm 14:10-12). Embora tenhamos sido salvos exclusivamente pela graça de Deus, por meio da fé (Ef 2.8,9), também somos “feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” (v. 10). Esse julgamento não se refere à posição que temos em Cristo, e sim à nossa condição como servos do Senhor.

2. O Tribunal de Cristo ocorrerá entre o Arrebatamento da Igreja e as Bodas do Cordeiro. Se o Senhor Jesus trará consigo o nosso galardão, em sua volta, podemos afirmar que o Tribunal de Cristo se dará logo após o Arrebatamento da Igreja, ainda nos ares, por ocasião da nossa reunião com Ele (1 Ts 4.16,17; 2 Ts 2.1). Cada salvo, de todas as épocas, participará dessa gloriosa reunião, pois Jesus afirmou que haverá recompensa na ressurreição dos justos (Lc 14.14). Os heróis do Antigo Testamento, que, tendo o testemunho pela fé, morreram sem alcançar a promessa (Hb 11.39), ressuscitarão incorruptíveis (1 Co 15.51,52) para receber do Sumo Pastor a coroa da justiça, “a incorruptível coroa de glória” (1 Pe 5.4). Assim como Paulo, eles combateram o bom combate, acabaram a carreira e guardaram a fé (2 Tm 4.7,8).

No Tribunal de Cristo já estaremos glorificados. No momento em que cremos em Jesus Cristo e o confessamos como Senhor, obtivemos a certeza da vida eterna (Jo 5.24; Rm 10.9,10). No entanto, a salvação — no sentido de glorificação — só ocorrerá no momento do Arrebatamento da Igreja. À luz da Bíblia, a nossa preciosa salvação possui três tempos e um tríplice aspecto. No passado, ela é posicional. Passamos a estar em Cristo! No presente, é progressiva. Estamos nos aperfeiçoando, a cada dia (Hb 6.9; Ef 4.11-15). No futuro, ela será perfectiva. É a nossa glorificação (Rm 13:11; Hb 9.28), que ocorrerá por ocasião do Rapto da Igreja (1 Co 15.50,51; Fp 3.20,21).

3. No Tribunal de Cristo receberemos a sentença em relação a tudo o que tivermos feito a partir da nossa conversão. A parábola das minas ou moedas de ouro revela que cada crente redimido tem a responsabilidade de empregar fielmente aquilo que de Deus recebeu: “Negociai até que eu venha” (Lc 19.13). Naquele grande Dia, o Justo Juiz pedirá o nosso “relatório” (Lc 16.2). Mas Ele não pedirá conta apenas da administração do nosso trabalho. Tudo o que nos foi outorgado será levado em consideração: a vida — espírito, alma e corpo (1 Ts 5.23) —, que é um dom de Deus (Ec 9.9); a maneira como nos conduzimos em relação à nossa gloriosa salvação (Fp 2.12); os talentos (1 Per 4.10); o livre-arbítrio (1 Co 6.12); o uso do tempo (Ef 5.16); os bens (Lc 12.16-20) etc.

4. Haverá surpresas no Tribunal de Cristo. Quando partirmos deste mundo, as nossas obras nos seguirão (Ap 14.13). Tudo o que temos feito está registrado. E, no Arrebatamento, Jesus — que conhece todas as nossas obras (Ap 2.2,9,13,19; 3.8,15) — trará consigo o resultado, a avaliação de nosso trabalho, a fim de nos galardoar. Coisas encobertas, positivas ou negativas, virão à tona. Em 1 Coríntios 4.5 está escrito: “nada julgueis antes do tempo, até que o Senhor venha, o qual também trará à luz as coisas ocultas das trevas e manifestará os desígnios dos corações; e, então, cada um receberá de Deus o louvor”. Daí ser prioritária a aprovação do Senhor (2 Co 10.17,18), e não a dos homens (Pv 25.27; 27.2).

5. Não há muitos detalhes na Bíblia sobre a natureza do galardão. As obras que ninguém vê na terra serão expostas pelo Senhor, naquele Dia, para que todos tomem conhecimento (Hb 4.13). Muitos pensam que os galardões serão, literalmente, coroas de ouro, com pedras preciosas. “Quanto maior a fidelidade, maior a coroa”, dizem. Alguns gostam até de mencionar os tipos de coroa que serão entregues aos servos do Senhor. Na verdade, há muitas coisas relacionadas com o futuro glorioso da Igreja que só serão revelados na glória (Rm 8.18; 1 Pe 5.1). Se os galardões são, literalmente, vários tipos de coroa, então elas serão postas uma sobre a outra? Qual seria posta primeiro, a da vida, a da justiça ou a de glória? E, no caso das coroas grandes ou pequenas, de acordo com o tamanho da fidelidade, não teria o galardoado de possuir uma cabeça no tamanho compatível com as coroas recebidas?

A coroa dada no Tribunal de Cristo simboliza a nossa posição no Reino de Deus. O termo “coroa” alude, figuradamente, a posição, domínio, poder. Na parábola das minas, um senhor — que representa o nosso Senhor Jesus — disse aos seus servos fiéis: “Bem está, servo bom, porque no mínimo foste fiel, sobre dez cidades terás autoridade” (Lc 19.17). O Senhor também prometeu: “Ao vencedor, que guardar até ao fim as minhas obras, eu lhe darei autoridade sobre as nações, e com cetro de ferro as regerá e as reduzirá a pedaços como se fossem objetos de barro” (Ap 2.26,27, ARA).

6. A base para o julgamento, no Tribunal de Cristo, serão as obras, e não os títulos. A passagem de 1 Coríntios 3.10-15 mostra que as obras aprovadas por Deus são as realizadas em Cristo, o fundamento da Igreja. Os elementos ouro, prata e pedras preciosas representam, figuradamente, o trabalho feito com humildade e temor, para a glória do Senhor (1 Co 10.31). Já os materiais madeira, feno e palha — facilmente consumíveis pelo fogo — aludem às obras feitas por vaidade e orgulho, para receber glória dos homens (Mt 6.2,5). Somente serão galardoados os servos cujas obras resistirem ao fogo da presença do Senhor (Hb 12.29). Sofrer detrimento pelo fogo (1 Co 3.15) denota perda de galardão, em contraste com o que está escrito no versículo 14: “receberá galardão”. São os materiais que se queimam, isto é, as obras. Não há nessa passagem qualquer margem para o falso ensinamento do purgatório, visto que, após a morte, segue-se o juízo (Hb 9.27).

7. No Tribunal de Cristo seremos julgados como servos, e não como filhos. Para o filho de Deus não há adjetivos negativos no Novo Testamento. Quanto ao servo do Senhor, vemos na parábola dos talentos — narrada por Jesus em Mateus 25.14-30 — que ele pode ser útil ou inútil, previdente ou negligente, bom ou mau e fiel ou infiel. Mencionam-se nas páginas neotestamentárias dons, ministérios e operações que o Senhor concede à sua Igreja (Rm 12.6-8; 1 Co 12.4-6; Ef 4.11). Cada salvo, além de chamado para proclamar as virtudes do Senhor (1 Pe 2.9; Mc 16.15), recebeu pelo menos uma incumbência específica no Corpo de Cristo (1 Co 3.6-9). Todos os servos do Senhor, de todas as épocas, hão de prestar contas de sua administração.

Ao sermos salvos, recebemos Jesus como Senhor e Salvador (Fp 3.20; 2 Pe 3.18). Relacionamo-nos com o Salvador como filhos (Jo 1.11,12). Mas, como Ele é Senhor, nosso comportamento perante Ele deve ser, também, de servos fiéis até o fim (Ap 2.10; 3.11), para que tenhamos confiança no Dia do Juízo (1 Jo 4.17) e recebamos a coroa incorruptível (1 Co 9.25). Jesus não galardoará apóstolos, bispos, missionários, reverendos, escritores, teólogos, conferencistas internacionais, cantores... O prêmio da soberana vocação (Fp 3.14) será dado aos “servos bons e fiéis” (Mt 25.21,23)!

Ciro Sanches Zibordi

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

O Arrebatamento da Igreja será mesmo secreto?


A doutrina bíblica do Arrebatamento da Igreja tem sofrido muita oposição na atualidade. Dizem que o termo “arrebatamento” não está na Bíblia; que tudo acontecerá de uma só vez, “naquele dia”; e que não haverá nenhum rapto secreto. Neste artigo, procurarei responder de modo sucinto e objetivo a essas três objeções.

Dizem que o termo “arrebatamento” não está na Bíblia

O termo “arrebatamento”, de fato, não aparece nas Escrituras, mas a doutrina do Rapto da Igreja deriva delas, assim como a doutrina da Trindade, por exemplo. Embora a palavra que dá nome a essa doutrina — “trindade” (ou “triunidade”) — não seja mencionada nas páginas sagradas, a doutrina o é, em ambos os Testamentos. Outrossim, conquanto creiamos que Deus possui atributos incomunicáveis, como onipresença, onisciência etc., não encontramos na revelação escrita de Deus as palavras correspondendes a essas doutrinas: “onipresença” e “onisciência”.

Em português, o verbo que dá origem à doutrina do Arrebatamento é “arrebatar”, que aparece na frase: “seremos arrebatados” (1 Ts 4.17). Em espanhol, o verbo arrebatar também consta das versões Reina-Valera e NVI, por exemplo, mas os teólogos preferiram chamar a doutrina de “el Rapto de la Iglesia”. Em inglês, embora o verbo empregado na passagem em apreço seja catch up (“tomar”), os teólogos — preferindo usar o termo oriundo do latim: raptus — chamam a doutrina de “the Rapture of the Church”. Em francês, o verbo é enlever (“remover”): “nous serons enlevés”. Daí, “l'Enlèvement de l'Eglise”. Em grego, o verbo para “arrebatar” é harpazō, que significa “tomar com força”, “raptar” (cf. Mt 13.19; Jo 6.15; 10.12,28,29; At 8.39; 23.10; 2 Co 12.2,4; Jd v. 23; Ap 12.5).

Dizem que não haverá Arrebatamento; tudo acontecerá de uma vez só, “naquele Dia”

Comparemos 1 Tessalonicenses 4.16,17 com Apocalipse 19.1-10. Essas duas passagens bíblicas mostram claramente que a Igreja irá ao encontro do Senhor “nos ares” e entrará no Céu. À luz dessas duas verdades, examinemos a sequência cronológica de Apocalipse 19 a 22: a Igreja glorificada no Céu (19.1-10); a Manifestação de Cristo em poder e grande glória (19.11-16); o Armagedom (19.17-19); a vitória de Cristo sobre o Império Anticristão (19.20,21); a prisão de Satanás (20.1-3); a ressurreição dos mártires da Tribulação (20.4,5); o Milênio (20.4-6); a liberação de Satanás após o Milênio e sua condenação (20.7-10); o Juízo Final (20.11-15); Novo Céu e Nova Terra (21-22). Fica claro, nessa sequência, que a Igreja já estará no Céu por ocasião da Manifestação do Senhor em grande glória, o que descarta qualquer confusão entre esta e o glorioso evento escatológico em apreço: o Arrebatamento da Igreja.

Em Apocalipse 4 e 5, o Senhor revelou a João que a Igreja já estará no Céu antes que se iniciem os juízos da Grande Tribulação (Ap 6). Os vinte e quatro anciãos (gr. presbuteros), ali, representam a Igreja Universal, formada por todos os salvos, de todas as épocas. O número 24 alude aos doze apóstolos do Cordeiro e às doze tribos de Israel (cf. Ap 21). E as características desses anciãos (e não anjos, pois estes em nenhuma parte do Novo Testamento são chamados de presbuteros) deixam claro que eles representam a Igreja já galardoada: assentados em tronos, com vestes brancas e coroa na cabeça (cf. Ap 2.10; 3.4,5,11).

Dizem que não haverá um Arrebatamento secreto, exclusivo para a Igreja

A Bíblia é análoga: ou seja, a Bíblia explica a própria Bíblia. Em João 14.3, Jesus disse: “virei outra vez e vos levarei para mim mesmo”. O termo “levar” (gr. paralambanō), aqui, denota “tomar com força” ou “raptar” (cf. Mt 2.13,14; Mc 9.2; Mt 24.40,41). A quem o Senhor Jesus fez essa promessa? Ao mundo? Não! Mas a um grupo seleto, a sua Igreja, então representada pelos apóstolos. Considerando a analogia da Bíblia, não podemos ignorar o fato de que o Arrebatamento da Igreja é análogo à ressurreição da Igreja — “dentre [todos] os mortos” (Lc 20.35; Fp 3.11, gr. ek ton nekron). Comparemos 1 Tessalonicenses 4.17 com 1 Coríntios 15.50,51. Estas passagens mostram claramente que os salvos, dentre todos os vivos, irão ao encontro do Senhor, nas nuvens, em um abrir e fechar de olhos. Portanto, assim como os mortos em Cristo ressuscitarão dentre todos os mortos, os vivos salvos em Cristo serão arrebatados dentre todos os vivos.

Alguém poderá argumentar: “Eu creio no Arrebatamento, mas não creio no Arrebatamento secreto”. Ora, ou o Arrebatamento é secreto, ou ele não existe! Leiamos Hebreus 9.28. Nesta passagem está escrito que Cristo “aparecerá [gr. horaō, 'será visto'] segunda vez aos [pelos que] que o aguardam para a salvação”. A quem Ele aparecerá? A todos? Não! Ele será visto (cf. 1 Tm 3.16; 1 Co 15.5-8) pelos que o aguardam para a salvação — salvação em seu aspecto perfectivo —, isto é, a nossa glorificação (Rm 13.11; Fp 3.20,21).

Está clara, no Novo Testamento, a distinção entre o Arrebatamento, em que somente os que esperam o Senhor para a salvação o verão, e a sua Manifestação em glória, em que todo olho o verá (cf. Ap 1.7; Zc 14.1-4). E, à luz de 1 Coríntios 15.5-8, o aparecimento secreto de Jesus à sua Igreja não representa uma novidade teológica. Após a ressurreição do Senhor, Ele foi visto exclusivamente por seus discípulos (a Igreja nascente) por um espaço de quarenta dias, sem o mundo ter qualquer participação ou ingerência nisso (At 1.3; cf. Jo 12.28,29; At 22.9).

Finalmente, muitos teólogos usam o texto de Atos 1.9-11 para aludir à Manifestação do Senhor em glória, mas essa passagem também é uma clara defesa, por assim dizer, da doutrina do Arrebatamento, visto que Ele descerá do modo como subiu: “vendo-o eles, foi elevado às alturas, e uma nuvem o recebeu, ocultando-o a seus olhos. E, estando com os olhos fitos no céu, enquanto ele subia, eis que junto deles se puseram dois varões vestidos de branco, os quais lhes disseram: Varões galileus, por que estais olhando para o céu? Esse Jesus, que dentre vós foi recebido em cima no céu, há de vir assim como para o céu o vistes ir”. Em outras palavras, assim como, na sua ascensão, somente a Igreja o viu subindo até as nuvens, no Arrebatamento somente a Igreja o verá descendo até as nuvens (1 Ts 4.16,17).

“Ora, vem, Senhor Jesus” (Ap 22.20).

Ciro Sanches Zibordi
Para saber mais sobre a Escatologia Bíblica, leia Erros Escatológicos que os Pregadores Devem Evitar (CPAD, 2012), de minha modesta autoria

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Sete conselhos para ser feliz em 2016 e sempre


1. Seja otimista, sempre, pois o triunfo da Igreja é certo, haja o que houver. Em 2 Coríntios 2.14 está escrito que, em Cristo, sempre somos triunfantes. Ainda que morramos, estaremos para sempre com o Senhor (1 Ts 4.16,17; 1 Jo 3.1-3). Nada pode nos separar do amor de Deus. Nem a morte (Rm 8.37-39). Quando temos a certeza absoluta de que Deus está no controle de nossa vida, não nos deixamos levar pelo pessimismo. Por isso, não desanime nunca, mas faça a sua parte, preparando-se para as portas que, certamente, se lhe abrirão em 2016. A vereda do justo é como a luz da aurora, que brilha dia a dia, até ser dia perfeito (Pv 4.18).

2. Cultive a sua comunhão com Deus em todos os dias de 2016. Ter comunhão com o Senhor é como subir uma escada que não tem o último degrau. A cada dia devemos estar mais próximos de Jesus Cristo (Tg 4.8). Louve-o, ao acordar. Abra a janela do seu quarto, olhe para o céu, para a natureza, ouça o canto dos pássaros. Dirija seu veículo, pedale ou caminhe cantando louvores. Atravesse a rua dando glórias àquEle que dirige seus passos. Louve-o pelo dom da vida! E lembre-se, ao subir a escada da comunhão com Deus, de que a bênção principal está no topo dela. Seja feliz ao subir cada degrau, certo de que está no caminho certo, no caminho que conduz ao Céu (Mt 7.13,14).

3. Pare de querer “levar vantagem” em tudo; seja altruísta. Pense no próximo. Esforce-se para pensar nas dificuldades e necessidades das pessoas à sua volta. Seja paciente no trânsito, dirija devagar, respeite o pedestre. Esvazie-se da brutalidade que diariamente quer brotar dentro de você. Não se deixe influenciar pelo egoísmo prevalecente no mundo sem Deus. Faça o bem às pessoas à sua volta. Se você não é idoso ou deficiente físico, não use a vaga destinada a essas pessoas. Nunca “fure” fila. Não compre produto “pirata”. Seja honesto, ainda que não receba nada em troca, aparentemente; ainda que você seja o único a fazer o que é correto. Deus o recompensará.

4. Agradeça a Deus por lutas e vitórias; não seja um murmurador contumaz e vença a amargura. Ah, como é difícil conviver com pessoas que reclamam de tudo e de todos! Se chove, não está bom. Se faz frio ou calor, também está ruim. Experimente ver o lado bom de todas as coisas. Nenhum lugar do mundo é perfeito. Por isso, precisamos extrair o que é bom por onde passamos. Se chegamos ao fim de 2015 e ao começo de 2016, mesmo com lutas e sofrimento, foi graças a Ele. Agradeça ao Senhor, ao levantar-se da cama, antes das refeições, ao sair de casa, antes de dormir etc. Lembre-se da graça de Cristo, a cada dia. Ele lhe deu a maior bênção, dentre todas: a certeza da vida eterna (Jo 5.24).

5. Tenha senso de humor. Você não precisa ser mal-humorado para demonstrar que é santo. Fazem parte da vida o rir e o chorar. Por que viver chorando pelos cantos? Levante a sua cabeça! A vida segue. O cristão que se preza não vive o tempo dando gargalhadas, mas não é pecado sorrir e se divertir com parentes e amigos. Rir no momento certo faz bem.

6. Passe menos tempo nas redes sociais e leia a Bíblia diariamente. Dedique mais tempo à sua família. Use a Internet para crescer em conhecimento. Não navegue a esmo. Forme a sua coletânea de bons sites e blogs. Mesmo nas redes sociais, seja seletivo. Não perca tempo com efemeridades. Você já leu a Bíblia toda? Se sim, faça isso de novo. Se não, aproveite a chegada do novo ano para iniciar seu plano de leitura. Experiente ler as Escrituras em outros idiomas, versões, ou fazendo comparações. Dedique tempo ao estudo sistemático da Palavra de Deus. Isso, com certeza, tornará a sua vida melhor em 2016 e sempre.

7. Não guarde para si o que tem recebido do Senhor; compartilhe o amor de Deus. O verdadeiro Evangelho muda o mundo e a vida das pessoas (2 Co 5.17). Evangelize seus parentes, amigos, vizinhos, colegas de trabalho etc. Partilhe com eles os preciosos ensinamentos do Senhor Jesus e seja sempre triunfante. Feliz 2016!

Ciro Sanches Zibordi