sábado, 15 de fevereiro de 2014

G12, M12, MDA e a “quebra de paradigmas”


Muitas igrejas — inclusive, algumas Assembleias de Deus — têm adotado, nos últimos anos, o modelo da “visão celular”, também conhecido como G12, M12, MDA (Modelo de Discipulado Apostólico), etc. Tal modelo vem sendo apresentado como o mais eficaz meio de “fazer discípulos”. E os seus defensores, que se consideram imitadores da igreja primitiva, afirmam que sua estratégia de discipulado é uma revolução, uma “quebra de paradigmas” e, ao mesmo tempo, um retorno aos princípios da igreja de Atos dos Apóstolos. Não se trata, pois, de mais um programa. A “visão celular” é, modéstia à parte, “o programa” da igreja.

Desde 2006 pesquiso sobre o modelo em apreço e tenho ouvido alguns líderes de igrejas em células, especialmente os que trabalham com a juventude, afirmarem que não seguem padrões éticos, dogmáticos, eclesiásticos de pessoas maduras na fé, experientes ou tradicionalmente respeitáveis. Preferem valorizar as “ministrações específicas” em pré-encontros, encontros, pós-encontros, encontros de líderes, etc. Ninguém está autorizado a descrever o que acontece nessas reuniões secretas. Mas todos concordam: “É tremendo”.

As igrejas em células, em geral, têm os seus próprios cursos e conteúdos pedagógicos. Não investem na Escola Dominical; consideram-na ultrapassada, uma instituição falida. Dizem, sem nenhuma cerimônia, que as igrejas tradicionais ou conservadoras seguem padrões arcaicos e “comem pão amanhecido, seco e duro”. Os adeptos da “visão” desprezam, reprovam, a liturgia tradicional das igrejas que não seguem o modelo celular.

Na prática, os líderes que dizem estar “quebrando paradigmas” estão oferecendo aos crentes vários atrativos do mundo, dentro de um contexto pretensamente evangélico. Mediante a estratégia da “contextualização”, tudo é feito para agradar as pessoas, uma vez que o objetivo primário da “visão” é o crescimento numérico, e não a formação de crentes segundo a Palavra de Deus. Prevalecem nas igrejas em células — às vezes, de maneira camuflada — doutrinas triunfalistas, como a Confissão Positiva, a Maldição Hereditária e a Teologia da Prosperidade.

Tudo gira em torno das células, reuniões realizadas em casas de pessoas favoráveis à “visão”. Há cultos nos templos, mas nenhuma reunião é mais importante que as células, definidas como “a essência da vida da igreja”. Nessas reuniões, ocorre a chamada “oração profética”, recheada com palavras de ordem ao Diabo: “decretamos”, “ordenamos”, “quebramos”, “maniatamos”, etc. Há também espaço para manifestações estranhas, como o “cair no poder” — até as crianças caem.

A liturgia das igrejas em células é baseada no princípio “Pregue o Evangelho da maneira que as pessoas querem ouvi-lo, e não da forma que precisam ouvi-lo”. A ordem é não se prender a regras ou princípios. Empregam-se, nos chamados cultos: danças, coreografias e apresentações teatrais, principalmente como atrativos para a juventude. Tudo começa com um “louvor de guerra”, que dura uns vinte minutos. A oferta é um dos principais momentos e, por isso, merece uns dez minutos. Depois disso, há geralmente uma “oração de guerra” — dez minutos — e uma apresentação teatral de uns quinze minutos. Em seguida, uns 25 minutos de mais apresentação musical... Quanto tempo para a pregação? Em média, quinze minutos!

Segundo os defensores da “visão”, o que um sermão levaria 45 minutos ou uma hora para fazer, consegue-se com uma pequena apresentação musical “ungida”. Por que, então, Jesus e Paulo pregaram tanto, se isso não é tão importante? Por que dois terços do ministério terreno do Senhor foram destinados à pregação e ao ensino da Palavra de Deus? Nada deve substituir a explanação das Escrituras (Rm 10.17; Sl 119.130).

Como a exposição tradicional das Escrituras é considerada longa, cansativa e formalista, os pregadores da “visão” têm linguagem própria e atualizada para cada público em particular. Empregam gírias, expressões em inglês e regionalismos; tudo para agradar o auditório. Adaptam as passagens bíblicas às necessidades comuns do homem de hoje, bem como à realidade existencial da juventude. E as pregações, além de sucintas, costumam ser acompanhadas de peças ou dramatizações.

Nas reuniões da “visão”, os participantes batem os pés e gesticulam à vontade, sem restrições, além de marcharem. A ênfase recai sobre as músicas, as danças, as coreografias, etc. Não há lugar para hinários tradicionais, como Harpa Cristã, Cantor Cristão, etc. Dizem que cantar hinos ultrapassados é idolatria. Tais hinos, segundo eles, parecem ter sido compostos para um funeral.

Há, ainda, nesses “cultos” dirigidos por líderes que “quebram paradigmas”: aplausos, brados, pulos de alegria, faixas, cartazes, balões, bandeirinhas, lenços... As palavras de ordem são: exagerar e extrapolar. “Sentiu vontade de fazer? Faça.” — dizem. — “Se parecer exagero, execute! O Senhor não está interessado se o adoramos de ponta-cabeça, sentados, em pé, deitados, chorando, sorrindo, cantando, falando, gemendo, gritando e até gesticulando o corpo”.

Nas igrejas em células, geralmente, os aspirantes a pregador recebem instruções como: “seja bem-humorado; use termos joviais, expressões em inglês e termos regionais; faça brincadeirinhas; pregue com emoção; não seja um chato”. Os pregadores têm de ser, obrigatoriamente, animadores de auditório. Um influente líder da juventude afirmou: “Se você quer pregar sem se contextualizar, esqueça! Estamos cansados de tanta cerimônia, de tanta opressão, de tanta mesmice”.

Os pregadores da santificação não são bem-vindos. “As pessoas não vão aos cultos para serem repreendidas, mas para buscar soluções para problemas, conflitos, receber alívio para seus sofrimentos; enfim, para satisfazer as suas necessidades.” — dizem os defensores desse evangelho antropocêntrico. À luz das Escrituras, o compromisso do pregador é com o Senhor. Quando Ele mandou Ezequiel profetizar, disse-lhe que o auditório não o ouviria, pois era “casa rebelde” (Ez 2.1-4). O homem de Deus deve pregar, quer ouçam, quer deixem de ouvir, porque o seu compromisso é com Deus (v. 5). Jesus não elogiou ou agradou Nicodemos, mas lhe disse, com franqueza, que era necessário nascer de novo (Jo 3.1-5).

Ademais, a “visão celular” valoriza as estratégias de marketing. Os líderes falam muito aos seus liderados sobre atacado e varejo; o marketing pessoal também é fundamental. “Empreender é como espalhar logotipos. É deixar a marca pessoal em tudo que se realiza. O anonimato, a modéstia são para quem não tem o que mostrar ou fazer” — afirmam. Deus, entretanto, que não dá a sua glória a outrem (Is 42.8), “atenta para o humilde; mas ao soberbo conhece-o de longe” (Sl 138.6). Daí a humildade ser uma característica marcante na vida dos verdadeiros mensageiros do Senhor (Mt 11.28-30; Jo 3.30; Gl 2.20).

Ciro Sanches Zibordi

12 comentários:

Duda Serra disse...

Ontem, pesquisando sobre críticas ao MDA, deparei-me com seus artigos.
Era membro de uma igreja batista, onde havia grupos pequenos (células), mas a igreja não girava em torno disso.
Quando a igreja aderiu ao MDA e percebi as semelhanças com o antigo G12 (embora muitos não queiram associar os dois, já que o G12, mais antigo, está desgastado), eu e meu esposo resolvemos mudar de igreja, já que creio que se a pessoa não concorda com a visão da igreja, não deve ficar para fazer oposição ao pastor, mas procurar um local onde possa ter comunhão com Deus e com a igreja.
A bola da vez é o MDA, que na minha opinião é uma cópia disfarçada do G12 e de modelos celulares semelhantes.

Anônimo disse...

Eis aí um retrato da nossa miséria espiritual. Em pouco tempo essa desgraça vai infectar todas as igrejas tradicionais e pentecostais. E, então, aqueles que erguerem sua voz contra isso, com está fazendo o pastor autor do texto, será execrado e se brincar até excluído de sua própria igreja, considerando que muitas de nossas igrejas já estão mergulhadas nessa desgraça. O pior é que em nossas convenções, não se discutem mais esse tipo de problemas, os nossos líderes só se preocupam nas disputas políticas e guerras judiciais e a disputa pelo império como estamos vendo o que está ocorrendo na CGADB. É o fim!
Marcelo
Natal/RN

Ricardo Alves disse...

A paz do Senhor!

Pr. Ciro, leio o seu blog desde o inicio e tenho quase todos os seu livros que me edificaram muito, o que vejo no "G12, M12 e MDA" é que quando um não está dando mais certo tais "pastores" tem "visões, revelações e outras" para continuar a tal "visão" ou "visões" como queiram, quando olhamos para Bíblia que é a Palavra de Deus, os profetas falaram em épocas diferentes, situações diferentes e desde o AT ao NT a mensagem era uma, Jesus Cristo. E estes homens cada um vem com uma visão dizendo que vai revolucionar e tal, tal, e acontece muitas vezes contendas, divisões e tantas outras coisas...

Anônimo disse...

E uma bencao o livros do senhor

Welington F. Medeiros - Blogger disse...

Realmente o irmão disse tudo. Se os seguidores da Visão Celular querem "voltar às raízes" deveriam aprender com Jesus! Amo o modelo tradicional! Rico em hinos de louvor que transforma! Essa "nova modalidade" não se encaixa com aqueles que querem seguir a Jesus e chegar ao céu.

Anônimo disse...

Amado pastor, a paz do Senhor! Estava pesquisando sobre este movimento chamado MDA, que ao implantarem na igreja em que me congrego, aqui em Colombo, eu achei muito parecido com o G12, e sinto muita dificuldade de me envolver com este movimento, desde que cheguei em Curitiba, pois sou das AD do RN, e por lá não tinha nada disso. Não consigo me encaixar neste tipo de movimento. Sinto falta dos cultos de doutrina, já que aqui foi trocado pelos cultos do lar missionário , que é como eles chamam aqui. Tenho vontade de sair da congregação pois não consigo aceitar este movimento ,por mais que eu tente ,não dá.
Estou angustiada e aflita, pois sinto saudades dos cultos pentecostais!

Adilson de Moura Ramos disse...

A paz do Senhor,a verdade é que essa visão, deixando de lado as heresias da certo com liderança certa, não precisamos chegar ao extremo. no mundo em que vivemos hoje precisamos de estrategia para pelo menos trazer as almas ate a igreja e depois sim discípula-las com a genuína palavra de Deus

Anônimo disse...

Mudei de congregação pq não concordava com a visão da antiga igreja, que não estava mais valorizando o ensino, a pregação, o evangelismo, oração então tava escasso. Estou numa igreja que tem grupos, entretanto eles servem para estudo da palavra, nos reunimos para estudar, temos culto tb, onde o louvor dura 30 minutos e a palavra em torno de 1h e meia, estou a pouco tempo lá, conhecendo e analisando a pregação e visão da igreja. Gostei de ler sobre isso, pq a partir do momento que sentir que há heresia não posso permanecer, achei ótimo este blog que fala disso, para que eu possa fazer um comparativo com o que tenho visto/ouvido. Deus abençoe!

Cleidiane

Rafael Moreira disse...

eu sou de uma igreja no modelo dos 12 e lá não tem nada do que você descreve ai, as celulas não são mais importantes que os cultos. Nunca vi uma pregação de 15 ou 30 minutos, sempre são de uma hora pra cima. Que Deus te perdoe por falar o que não sabe, e te de entendimento para não trazer discórdia entre o povo de Deus.

Nathally Dantas disse...

Meu querido, NADA do que você fala é caracteristica de igrejas sérias,tem várias igrejas que não são da "visão" que também vivem isso, como a igrejas na "visão" sérias e que levam o evangelho da verdade, bem como usam essa estrategia de forma sadia. Críticar pelo que ouviu falar não é válido em nenhuma área da vida. A escola dominical é uma instituição que funciona, mas precisa ser reavaliada em qualquer igreja, a minha é da visão e não aboliu, mas criou classes focadas em grupos de interesse, casais, noivos, mulheres casadas, solteiras e tem dado certo. paz

André Lopes disse...

Irmãos,
Tudo isso é uma apenas uma metodologia de preparar e fazer o ide e não vejo nenhum problema no método aplicado, mas naquela quem aplica-o. Já visitei alguns igrejas como: Deus é Amor, Assembleia de Deus (Madureira e da Igreja Mãe), Batista (Tradicional ou renovada), Quadrangular e outras de ministério próprios. Sempre haverá falsos profetas, o importante é consultar as escrituras e saber se são pessoas comprometidas com DEUS e sobre os louvores amo os da harpa e também os que não são.

MÁXIMO CRUZ disse...

AMADO PASTOR, NÃO LHE CONHEÇO MAS TE RESPEITO, MESMO SENDO O PR TRANSMISSOR DE ALGO QUE NÃO CONHECE (DESCULPE-ME)

SÓ QUERIA DIZER QUE SEUS COMENTÁRIOS NÃO SE BASEIAM EM FATOS GERAIS, MAS TALVEZ, EM FATOS ISOLADOS DE ALGUMA IGREJA EM CÉLULA. MAS PARA NÃO PROLONGAR DEIXAREI UM VERSÍCULO NO LIVRO DE LUCAS.

Jesus lhe disse: Não o proibais, porque quem não é contra nós é por nós. Lucas 9:50

OBS: NÃO FAÇO PARTE DE NENHUMA IGREJA EM CÉLULAS MAS ESTUDO UM DESSES MODELOS A UM ANO E MEIO, ESTUDO E VISITO, ME INFORMO DE VERDADE. DEUS ABENÇOE.