quinta-feira, 19 de julho de 2012

É bom ser do bem?

Desde 2006, existe uma campanha no Brasil denominada “É bom ser do bem”, que começou tímida, por meio da iniciativa de poucas pessoas, e agora conta com o apoio de empresas e artistas.

O leitor já deve ter visto adesivos, camisetas e até tatuagens com a frase citada. Ela tem como objetivo difundir a ideia de que vale a pena ser altruísta, honesto, educado, respeitador, paciente, equilibrado, etc. Considero essa campanha nobre, mas, a cada dia, me decepciono com a hipocrisia dos cidadãos brasileiros, sobretudo os de boa formação, bem-sucedidos profissional e financeiramente, os quais sabem e podem fazer o bem e não o fazem.

Lembro-me de que, há alguns anos, estava em voga colar adesivos com versículos bíblicos no vidro traseiro dos automóveis. Cidadãos brasileiros, evangélicos e não evangélicos, aderiram ao modismo, cuja mensagem era praticamente a mesma da campanha em apreço: “É bom ser do bem”. Pois é... Mas cansei de ver motoristas hipócritas dirigindo perigosamente e ostentando dizeres “do bem”, como: “O caminho de Deus é perfeito”, “A Deus tudo é possível” ou “Tudo posso naquele que me fortalece”.

Francamente, já perdi a conta das vezes em que meu carro foi fechado, ultrapassado pela direita, em alta velocidade, por carros contendo adesivos “do bem”. Ah, também tenho visto muitos cidadãos brasileiros que, ao saírem das garagens, avançam com os seus carrões sobre os pedestres, em plena calçada!

Ser do bem é colocar-se no lugar do próximo; é muito mais que colar adesivos no carro. Motorista do bem respeita o pedestre; não avança sobre ele, ao vê-lo atravessar a rua, mesmo que o tal esteja fora da faixa de pedestres. Em alguns países, especialmente na Europa, se uma pessoa aparecer no meio de uma avenida, fora da faixa, os carros param, em respeito à vida humana. Afinal, por mais que o pedestre esteja errado, não tem nenhuma proteção, ao contrário do motorista, que está seguro dentro de seu automóvel.

No Brasil, o pedestre não é respeitado nem na faixa ou na calçada. Aqui em Niterói-RJ, onde moro desde 2001, os motoristas, inclusive alguns que usam o adesivo “É bom ser do bem”, saem de suas garagens apressados e não querem nem saber se há pessoas à sua frente. Egoístas, avançam sobre idosos, mães empurrando carrinhos de bebês, estudantes, etc. Onde estão os cidadãos brasileiros do bem? E olha que estou falando de bairros nobres, como Boa Viagem, Ingá, Icaraí e São Francisco, onde residem cidadãos de boa formação e bem-sucedidas na vida, como juízes, advogados, engenheiros, médicos, etc. Têm essas pessoas, privilegiadas, abastadas, o direito de viverem irritadas e serem intolerantes, querendo passar por cima de todo o mundo?

Tenho (aliás, tinha, pois mudei de residência há alguns dias) um vizinho “do bem” que torce pelo Corinthians. Descobri isso por causa dos gritos horrorosos que ouvia nos dias de jogos, que acontecem geralmente às 22 horas. Durante as partidas, ele gritava palavrões, pulava, xingava moradores dos outros prédios, especialmente quando seu time jogava contra equipes cariocas. Ao ouvir músicas ou assistir a filmes, ele regulava o som no último volume. Certa noite, pouco depois das 22 horas, minha filha fez um pequeno barulho, ao balançar na rede. O “amável” cidadão brasileiro, sem nenhuma tolerância, ligou para a portaria e mandou avisar que gostaria de descansar. O camarada tem boa aparência, parece ter boa formação, mora bem, possui carro importado... Mas é um “perfeito” estúpido e egoísta. E é esse tipo de gente que se considera do bem!

Além de “É bom ser do bem”, a campanha em apreço utiliza outras frases de efeito, como: “Não corra, não morra”, “Se beber, não dirija”, “Seja luz, independente de religião, fé ou crença”, “O palmeirense ou o corintiano ao lado não é seu inimigo”. Blá, blá, blá... Desculpe-me! Estou cansado da hipocrisia da sociedade brasileira. Falar que é do bem é fácil. Onde está a mudança de atitude desse pessoal que gosta de colar adesivos, usar camisetas e até fazer tatuagens “do bem”?

Outra frase de efeito da campanha é “Valorize as pessoas”. Mas valorizar pessoas não é fazer o bem apenas à nossa família ou aos nossos amigos. Para que haja mudança significativa na sociedade, temos de valorizar o próximo. Você é capaz de fazer isso, prezado leitor? Consegue se preocupar com pessoas que não fazem parte do seu mundo? Jesus Cristo, o Mestre dos mestres, ensinou que devemos amar, inclusive, os nossos inimigos e fazer o bem àqueles que nos aborrecem (Lc 6.27,28). Isso, sim, é ser do bem!

Veja mais uma frase de efeito da campanha “do bem”: “Invista sua energia em uma causa nobre”. O objetivo dos seus propagadores é induzir pessoas a usarem a sua energia no que é relevante, evitando “brigas, discussões ou impasses bobos”. Excelente! Mas, a cada dia, o que vemos é hipocrisia e egoísmo. Quanto mais ganham dinheiro e prosperam, as pessoas se tornam mais irritadas, amargas, egocêntricas, capazes de brigar por motivos banais.

Lembro-me de que, há alguns anos, ao chegar, alegre, com a minha família, à Feira da Gestante e do Bebê, no Riocentro, no Rio de Janeiro-RJ, fui chamado para a briga por uma pessoa “do bem”. No estacionamento da feira, um veículo (um bom veículo) me ultrapassou em alta velocidade e, depois, mais adiante, cruzou à minha frente. Fiquei assustado e comentei com a minha esposa: “Que absurdo”. Minutos depois, ainda procurando uma vaga, o mesmo carrão cruzou à minha frente em alta velocidade e quase bateu em meu automóvel. Minha reação foi a de buzinar prolongadamente. Quase não uso buzina, porém agi por impulso ante a imprudência e a irresponsabilidade do motorista agressor.

Ao estacionar, coloquei minha filha sobre os ombros – à época, ela devia ter uns 2 anos de idade – e seguimos para a entrada da feira. Um casal veio em nossa direção, e o rapaz, bem vestido, 
que parecia ser “do bem”, musculoso, com aparência de praticante de MMA, me abordou: “Você é o dono daquele Peugeot verde?” “Sim”, respondi. Para quê? O cidadão brasileiro ordenou que eu pusesse a minha filha no chão, pois ele me encheria de p... Ops! Você sabe: o equivalente a pancadas, socos e pontapés. Graças a Deus, a outra cidadã brasileira, sua esposa, gestante, gritou: “Ele é um pai de família, seu idiota! Pare com isso”. Afastei-me, e resolvemos ir embora, a fim de evitarmos o pior. Afinal, percebi que o valentão controlara-se por pouco tempo, mas ainda poderia retomar a questão, caso me visse de novo. Minha esposa e eu resolvemos nos desviar do mal e fomos passear num shopping, bem distante dali.

Reconheço que a campanha “É bom ser do bem” é bonita, perpetrada por cidadãos brasileiros cheios de boas intenções. Eles estão de parabéns pela iniciativa. Para mim, inclusive, que sou cristão, ser do bem é um dever, haja vista o que está escrito em Gálatas 6.10: “Façamos o bem a todos”. O cristão que se preza deve andar como Jesus andou (1 Jo 2.6), e Ele andou fazendo o bem (At 10.38). Entretanto, repito: a hipocrisia da sociedade brasileira me decepciona.

Antes de colar um adesivo, vestir uma camiseta ou tatuar frases de efeito no corpo, os cidadãos brasileiros deviam refletir sobre o quanto têm sido hipócritas, egoístas e inimigos do bem, principalmente os que possuem boa formação. Não tenho nada contra a mensagem “É bom ser do bem” e outras similares. Mas só vamos mudar, efetivamente, quando pararmos de agir como se o mundo girasse em torno de nós e nos colocarmos no lugar do próximo.

Ciro Sanches Zibordi

16 comentários:

Anônimo disse...

É interessante sua concepção apurada do caráter de algumas pessoas, as vezes é bom percebermos e falarmos claramente sobre isso com outras pessoas, mais, eu tenho um breve questionamento, vc como pessoa também consegue miudar esse tipo de coisa ou parecida em si mesmo e em outras pessoas. Era só isso que vc deveria ter relatado, ou proposto no seu texto. OBG pela atenção. És 1 bom crítico da sociedade. Precisamos de pessoas como vc.

Anônimo disse...

A Paz do Senhor,
Amado Pr Ciro, vemos muitas propagandas (frases) Lindas mas na realidade só da boca para fora , como Jesus falou mim Honra só de lábios Mt C:15.Vs: 8,9
Querido já passei por várias situações aonde fui mau interpretado e até mesmo querendo mim agredir, mas O DEUS DOS ALTOS CÉUS MIM SOCORREU E VAI CONTINUAR MIM DANDO LIVRAMENTO A MIN A TI E A TODOS QUE NELE CONFIA.

Claudiano

Ciro Sanches Zibordi disse...

Caro anônimo,

Tenho me esforçado para ser do bem. Não estou acima do bem e do mal. Mas relatar o que quiser é um direito que me assiste.

Grato pela opinião. Só lhe peço que se identifique, no próximo comentário.

CSZ

Ciro Sanches Zibordi disse...

Claudiano, meu amigo!

Deus é com o irmão.

A paz do Senhor.

CSZ

Fabio disse...

Pastor Ciro, a Paz do Senhor Jesus.
Parabéns pelo artigo.
Mas gostaria de fazer uma pergunta: O e-mail do senhor está desativado? Pois já enviei algumas mensagens para tratar de compra de alguns de seus livros e não obtive resposta.
No aguardo.

Anônimo disse...

Saudações em Crsito, parabéns pelo belo texto. Estou terminando de ler "Erros escatológicos que os pregadores devem evitar", é um ótimo livro como os outros publicados pelo senhor (tenho todos os seus livros. Nesse livro em questão apenas senti falta do senhor não falar sobre a invasão de gogue e magogue de Ez. 38 e 39.

Abraços no amor de Cristo - Pb. João Eduardo Silva - AD Min. Belém - SP.

Ciro Sanches Zibordi disse...

Caro Fábio,

Estou em processo de mudança de residência. Já estou em meu novo apartamento, mas ainda estou com problemas, em razão de depender de uma empresa que cuida de telefonia, Internet e TV. Estou usando a Internet de modo precário, através de 3G (lento demais) e modem da Vivo. Ainda não pude responder a todos os e-mails. Priorizei os que continham mensagens de compra acompanhadas de depósito. Peço-lhe desculpas, mas vou verificar os e-mails e lhe responderei.

Em Cristo,

CSZ

Ciro Sanches Zibordi disse...

Caro Pb. João Eduardo,

A paz do Senhor.

Grato pelas palavras sobre o livro. Mas gostaria de lhe dizer que eu menciono Gogue e Magogue. Reconheço que não é uma grande menção, mas pelo menos situo o evento dentro do contexto. Talvez o irmão ainda não tenha chegado nessa parte.

Em Cristo,

CSZ

Valdirene Alcantara disse...

Querido Pr.Ciro,
A paz do Senhor.
Congreguei com o irmão na Lapa desde a época do saudoso Pr. Valdir Bísego, e agora comecei a acompanhar seu blog, e tenho gostado muito dos temas apresentados.Em um deles falando sobre a análise das músicas, eu fiquei pensando sobre um hino da Harpa Cristã o de número 151 Fala Jesus querido.Não entendo a parte da primeira estrofe que diz:"Fala com tua bondade;fica ao pé de mim."Parece que ele está dizendo pra Jesus ficar aos meus pés, não sou eu que devo ficar aos pés de Jesus? O que eu estou interpretando errado? Por favor me esclareça.Obrigada, fique na paz do Senhor Jesus.
Valdirene Alcantara.

Tadeu de Araújo disse...

Pastor Ciro, graça e paz!
Reconhecemos que temos, infelizmente, a maldade herdada da queda de Adão no jardim do Éden.
Por isso, não acreditamos que a bondade seja uma virtude nascida do próprio homem.
Chama-nos à atenção, entretanto, termos presenciado atitudes dignas de elogios, tanto de ateus quanto de agnósticos. E de maneiras recorrentes.
Enquanto que muitos de nós que dizemos ser cristãos autênticos, deixamos de dar testemunho.
É claro que,por mais cuidado que tenhamos em relação a todas as áreas de nossa vida, não estamos imunes a deslizes acidentais, ainda que não sejam coisas graves.
Assim sendo, é preciso vigilância no tocante a servimos de exemplos para um mundo que se encontra em trevas ( Mateus 5.13-16).
Que o Altíssimo continue nos admoestando enquanto estivermos nessa praia terrestre.
Em Cristo,
Tadeu de Araújo

Ciro Sanches Zibordi disse...

Irmã Valdirene,

A paz do Senhor.

A expressão "ao pé de mim" é do português arcaico, mas ainda é muito usada em Portugal. Denota "junto de mim", "bem próximo de mim". Nada tem a ver com estar aos pés.

Um grande abraço.

CSZ

Thiago Boudny disse...

A paz do Senhor pastor Ciro!
Como seria diferente se nossa sociedade vivesse a essência da piedade de fato, mas, só possuem a aparência, negando a eficácia dela.
Infelizmente é uma realidade que ganha espaço no meio evangélico, pois alguns que dizem ser do bem, ou dizem ser cristãos, não carregam sequer uma marca de Cristo, levando-os a viverem uma RELIGIÃO SIMULADA.
Que Deus tenha misericórdia de nós e continue lhe dando mais graça pastor! Um forte abraço!

Fruto do Espírito disse...

Paz, Pr. Ciro.

Gostei muito de compartilhar deste post. Há pessoas que "são do bem" aos seus próprios olhos, porém quanto vista no prisma de Deus, deixam muito a desejar. É impossivel ser do bem se não tiver conhecido (recebido) Jesus Cristo, como Senhor e Salvador.


Me chamou atenção:

"...e o rapaz, bem vestido, que parecia ser “do bem”, musculoso, com aparência de praticante de MMA, me abordou:... Afastei-me, e resolvemos ir embora, a fim de evitarmos o pior."

Só pra descontrair!

Fiquei a pensar: Quem levaria a pior?

Respondo: É claro que seria o musculoso com aparência de praticante de MMA. Pois o sr, pastor Ciro tem a seu favor os anjos do Senhor ao seu redor!

Em Cristo, com amor.

***Lucy***

Anônimo disse...

Saudações em Cristo!, terminei de ler "Erros escatológicos", parabéns é um excelente livro. O senhor tem razão (me desculpe pela precipitação), pois o senhor mencionou Gogue e Magogue.
Só me tire mais uma dúvida rsrsrsrsrs, o termo "fim" em Mt 24.14, se refere ao fim do milênio?, pois eu tinha certeza que esse termo se referia á grande tribulação.

Abraços no amor de Cristo - Pb. João Eduardo Silva - AD Min. Belém - SP.

Ciro Sanches Zibordi disse...

Caro Pb. João Eduardo, o termo "fim" ali denota "o fim de todas as coisas". Abarca os últimos acontecimentos, como Juízo Final, destruição total da terra, etc. Portanto, o fim, na aludida passagem, é posterior ao Milênio.

Em Cristo,

CSZ

Thiago Boudny disse...

A paz do Senhor pastor Ciro!
Gostaria de pedir uma ajuda, sei que aqui não é o espaço conveniente, mas se for possível aqui mesmo, gostaria de que o senhor me esclarecesse o seguinte: Na lição do trimestre passado, o Pr Claudionor de Andrade comentarista da lição As Sete Cartas do Apocalipse, comentou na lição que tem o título " O evangelho do reino no império do Mal", em um dos tópicos ele assevera que os 144000 ficarão responsáveis para pregar o evangelho após o arrebatamento. Eis aí surge minha dúvida, porque não encontrei ainda respaldo bíblico para essa afirmação.
Gostaria por gentileza que o senhor me dissesse algo a respeito para minha melhor compreensão. Muito obrigado e fique na paz de Cristo!