terça-feira, 26 de outubro de 2010

Erros etimológicos que os pregadores devem evitar (2)


Todo pregador deveria se interessar por etimologia — parte da arte-ciência da Lexicografia que se ocupa do estudo da origem e da formação das palavras. Conhecer o étimo dos termos que empregamos é fundamental para os aplicarmos de maneira correta em uma exposição da Palavra de Deus.

MAIS SOBRE O TERMO “RELIGIÃO”

No primeiro artigo desta série, discorri sobre os termos “sincero” e “religião”, e alguns internautas estranharam o fato de eu apresentar para o último vocábulo um étimo diferente do propagado pela maioria dos pregadores. Inclusive eu mesmo já preguei várias vezes que “religião” vem de religare (lat.).

Entretanto, como vimos, segundo o Dictionnaire Étymologique de la Langue Latine, de Ernout e Meillet — disponível em http://www.lexilogos.com —, a raiz dessa palavra seria religìo,ónis, a qual se relaciona com lig, de “diligente” ou “inteligente” ou com leg, lec, lei, le, de “eleger”, “lecionar”, “eleitor” e “ler”, respectivamente. Já o prefixo re seria oriundo de red(i), “vir”, “voltar”, que aparece em “relíquia”, “redivivo”.


Nessa semana resolvi pesquisar mais um pouco
a respeito da palavra “religião” não no Google, mas em obras de pessoas versadas em filologia e encontrei um excelente livro do respeitado professor Francisco Balthar Peixoto, da Universidade Federal de Pernambuco, o qual atrela a palavra “religião” a religare!

Peixoto afirma que a “palavra vem de religio, religionis, derivada de religare (religo, religas, religavi, religatum), ligar fortemente; amarrar; apertar; atar; prender”. E conclui: “Parece válido, também, atribuir-se a origem da palavra ‘religião’ a relegere (relego, relegis, relexi, relectum), tornar a revisitar; percorrer de novo [...] Ambas as explicações levam a entender a etimologia do termo ‘religião’ como a ligação que o ser humano estabelece com o ser ou os seres superiores, objeto de sua crença” (Glossário de Etimologia, Editora Universitária UFPE, p.137).


Depois dessa ótima explicação do etimólogo Francisco Balthar Peixoto, podemos afirmar que o uso do termo “religião” com o sentido de “religar” é admissível, a despeito de não ser essa a acepção da palavra grega threskeia, traduzida por “religião” no Novo Testamento (At 26.5; Cl 2.18; Ap 22.8,9; Tg 1.26,27). Como se vê, não é por acaso que, para muitos, religião não se discute (risos).

COITADO É VÍTIMA DE COITO?


Já ouvi ensinadores dizendo: “Nunca diga ‘coitado’, pois essa palavra é feia, negativa e maliciosa; significa ‘vítima de coito’”. Mas essa definição pertence à etimologia popular; ela não está de acordo com o étimo do termo. O substantivo masculino “coito” — cópula, acasalamento, união, junção, relação sexual entre homem e mulher — provém de coitus (lat.).

Quanto ao adjetivo “coitado”, provém da forma do latim vulgar coctus ou coctatus, particípio passado de coctare (cocto, coctas, coctavi, coctatum), e que teria substituído coactus, coacta, coactum,
“coagido”; “forçado”, particípio passado de ogere (cogo, cogis, coegi, coactum), “impedir”; “obrigar”; “coagir”; “violentar”; “contranger”.

Etimologicamente, “coitado” não significa “vítima de coito”; o termo denota
“ser infeliz”; “miserável”; “digno de dó” (como o gatinho da ilustração acima); “desgraçado”.

Portanto, preguemos o Evangelho aos pobres e coitados pecadores, a fim de que eles conheçam a verdadeira religião, pura e imaculada para com Deus, a qual consiste em “visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e guardar-se da corrupção do mundo” (Tg 1.27).

Ciro Sanches Zibordi

5 comentários:

disse...

Que benção!

http://assocnaciuniaoemcristo.blogspot.com/ disse...

Parabéns pelo belíssimo trabalho do irmão em nosso Senhor Jesus Cristo. Eu estou seguindo e gostaria muito que seguisse conosco na associação nacional de união do povo de Deus, denominada de Associação Nacional de União de Ministros do Evangelho de Cristo. Necessitarei melhorar bastante meu Português. Graça e paz, mil vezes multiplicadas, no nome precioso do Senhor Jesus. Um forte abraço e até mais.

Tamar disse...

Ontem eu estava assistindo o programa Vitrine e o apresentador entrevistava uma atriz portuguesa e um quadrinista brasileiro.
Foi travado o seguinte diálogo

Quando a atriz ouviu a palavra "quadrinista" ela disse "Agora que aprendi essa palavra vou usá-la". O entrevistador perguntou: "Como vocês falam em Portugal?". Nesse ponto a atriz diz um termo comprido com várias palavras para denominar o desenhista de quadrinhos, (que eu não consegui entender).

O entrevistador brasileiro diz orgulhoso:"A nossa [palavra] é mais sofisticada."
A portuguesa diz em tom de concordância:"Eh a de vocês é mais simples"

Afinal a palavra quadrinista é mais simples ou mais sofisticada?
Quem tem razão? A portuguesa nascida na terra que é mãe da nossa língua ou o brasileiro que mistura várias línguas para formar uma palavra?.

Para mim sofisticado sempre foi o contrário de simples.

Mas pensando bem as duas palavras podem ser sinônimas nesse caso pois "quadrinista" agrega um monte de significados e fica mais "simples" de falar, é portanto uma palavra "sofisticada".


Será que é por isso que é tão fácil fazer uma "exejegue" e ficar se achando o tal...?

Quem faz exejegue é exejegueta?

kkkk
A paz do Senhor!

Anônimo disse...

Quando eu fazia o ginásio no Liceu do Ceará, um professor incomodado com o meu hábito de levar a bíblia para a escola, me perguntou o que eu achava do comunismo. Então falei tudo de ruim que já ouvira. Ele quis saber se eu lera algum livro sobre o assunto e eu falei que sim. Perguntou se os autores eram 'crentes' ou comunistas. Disse que eram 'crentes'. Então ele me ensinou que para se conhecer alguma coisa é bom se conhecer na fonte, não através de terceiros.
É como os erros que credulamente repetimos. Só porque confiamos demais na 'autoridade', sem nos lembarmos dos irmãos bereanos. Bem lembrados os dicionários. Parabéns ao rev Ciro, que tem toda minha admiração. Pr. Sampaio/ AD Belém.

Xavier Campos Joaquim disse...

Parabens pastor pela
postagem.
Mas fiquei em duvida agora
quanto a religiao:
Tem algo em comum entre religiao e quarta dimensao que é explicado no livro de Paul Yong Cho?

Graça e Paz.