terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Devolvam o nosso bom e velho trema

Dizem que o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, em vigor desde 1 de janeiro de 2009, restringe-se à língua escrita. Mas isso não é 100% verdade. Inevitavelmente, a nova grafia afetará a língua falada, e algumas mudanças ortográficas alterarão a pronúncia das palavras, a médio prazo, principalmente por conta da abolição — que considero injustificável — do bom e velho trema.

Para que servia o trema? Substantivo masculino, o trema era, até o ano passado, um sinal muito útil, posto sobre a letra u para indicar que ela devia ser pronunciada nos grupos gue, gui, que, qui. Ah, não aguento de saudades do trema! Perco a tranquilidade só de pensar que as palavras em negrito neste artigo com o tempo poderão ser lidas sem a pronúncia do u. Não seria melhor escrever logo “trankilo”, já que a letra k agora faz parte do nosso alfabeto?

A bem da verdade, antes de o aludido Acordo Ortográfico entrar em vigor, palavras sem trema, como “distinguir”, já eram pronunciadas como se tivessem o tal sinal. Mas com outras palavras, grafadas com trema, acontecia o inverso. São os casos de vocábulos pouco usuais, como iniquidade, quinquagésimo, etc. A tendência é que agora, sem o trema, aumente o número de pessoas que pronunciam palavras de forma errada.

Estou me adaptando à nova grafia. Não estou fazendo oposição ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Mas gostaria muito de arguir os legisladores que aprovaram o Decreto Legislativo número 54, de 18 de abril de 1995 (certamente há linguistas entre eles
), quanto à abolição do trema, pois tenho certeza de que, antes de eu completar cinquenta anos, várias palavras já estarão sendo pronunciadas, por algumas (ou muitas?) pessoas, sem o u, inclusive as usadas com relativa frequencia, como linguiça e bilíngue...

Sinceramente, não me conformo com o sequestro do trema! Devolvam-nos, por favor! Ele pode não fazer falta aos outros países lusófonos: Portugal, Angola, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e Timor Leste. Mas nós, brasileiros, temos um forte vínculo sentimental com o bom e velho trema!

Sim, o trema faz muita falta, prezados reformadores da Língua Portuguesa. E os senhores, se tivessem pensado nas consequências, evitariam esse quiproquó. Espero que esse meu apelo seja eloquente e os faça reconhecer que delinquiram, ferindo nosso vernáculo e deixando-o ensanguentado.

Creio que daqui a, no máximo, dois quinquênios, muitos já terão abandonado a pronúncia da letra u. Mas eu, como brasileiro, não desisto nunca e continuarei protestando. Quem sabe na próxima reforma ortográfica — que deverá ocorrer entre o quinquagésimo e o quingentésimo ano deste milênio — os senhores nos devolvam o bom e velho trema...

Ciro Sanches Zibordi

15 comentários:

Lisnei disse...

graça paz pastor Ciro. Sebpara o senhor que é tão bom em lingua portuguesa o trema está fazendo falta, imagine para mim? Se os nossos nobres deputados fossem filólogos(?) ou linguistas, eles com certeza poderiam abolir o bem amado trema, mas trariam uma arcaica substituição, então fariamos cincoenta anos, e minha filha fará catorze anos. Nestes parâmetros poderei até convidar o ilustre pastor para comer uma "lingoiça" assada (esta doeu? Doe mais em mim)fiquemos trancoilo,(acho que lingoiça e trancoilo,podem comprometer a raíz etmológica da palavra) nossos netos não sentirão falta e ainda vão rir bastante do jeito esquesito que o vovô fala. Eu ria da minha vó quando ralhava comigo e meus irmãos para não brincar na cama pois ia estragar o enxergão ou quando ela me dava algum dinheiro e mandava eu por na algibeira, achava que ela falava aquilo por ser analfabeta, mas depois descobri que aquela era forma correta de falar.

Blog do Jordanny Silva disse...

"Trema" de pavor com as novas regras, que se apresente sem uma justificativa consistente...

Ótimo protesto pastor Ciro!

Jordanny Silva
Brasília

Robson Silva de Sousa disse...

E COMO FICA A SITUAÇÃO DOS POBRES PINGÜINS? SERÃO CHAMADOS PINGOUINS? PINGINS? POMBO DE FRAQUE?

ÜÜÜÜÜÜÜ

Abrassos... HA HA HA

Anônimo disse...

Amado Pastor Ciro, Graça e paz! Sou um leitor diário do seu Blog. Graças a Deus existem homens como você que defendem a palavra e também o nosso vernáculo. Sou um jovem de 22 anos, mas mesmo assim estou "odiando" essas mudanças absurdas. Sempre me pergunto: "Quem tem o poder de fazer tais alterações e impôr desta forma?". Deus lhe capacite a sempre escrever e denunciar os abusos não apenas da igreja, mas também de todos os segmentos de nossas vidas. Deus te encha de graça e paz. Daniel Seixas

Pr. Newton disse...

Prezamado pr. Ciro,

O bom deste artigo, é podermos evidenciar que os os pastores, em sua minoria, pelo menos, possuem conhecimentos vastos e cultura geral.

Com a convivência, nestes últimos quase 15 anos de EUA, mesclando o Inglês, Espanhol e o Português, por vezes me confundo no Espanhouguês.

Imagino com estas alterações - ainda à deriva -, como será na vida de muitos internautas, que já não sabem mais digitar, palavras completas e sim, uma síntese de cada e por vezes confusamente codificadas.

Eu, já havia colocado de lado o trema há muito tempo. Sabia que com as indugências da Internet, mais cedo ou mais tarde seria fato consumado sua eliminação, bem como, o retorno das bonitas letras K, Y e Z, que por muito tempo senti falta, afinal o meu nome possui a letra W. Mas "tremo" com as novas mudanças, pois, com certeza, se criou uma maior dificuldade e desencontro com quem sabia escrever e com o que está aprendendo ou se desinibindo.

Uma sugestão: BraZil com "Z", ficará melhor do que BraSil com "S".

Deus seja contigo!

pr. Newton Carpintero
www.pastornewton.com

Anderson H.A. disse...

Parabéns pastor Ciro.Este blog tem sido uma fonte de informações riquíssimas.É bem notável seu vasto conhecimento nos mais variados assuntos que permeiam nossa sociedade e nossas igrejas, em especial a Assembleia de Deus.Haja vista este belo artigo sobre o ``trema´´.
Acredito que este assunto trará muita repercussão na sociedade brasileira.Se é que já não está!! rss
Continue assim pastor, refutando contra tudo que causa transtorno a nós brasileiros, e principalmente contra essas heresias absurdas que surgem no meio da nossa querida Assembleia de Deus, que completará em breve 100 anos!! Glórias a Deus!! Este blog é uma benção!!

Que as bençãos do Eterno Deus estejam sobre ti a cada dia!!!

Artur Ribeiro disse...

Amado pastor Ciro, a paz do nosso Senhor Jesus.

Sou, como já sabe o senhor, leitor não só do seu Blog como também dos seus três mais recentes livros. Além disso, sou seu conservo e partidário dos seus textos. Acredito que o senhor de fato escreve o que escreve à luz das Santas Letras.

Todavia, creio que poderíamos rever sua afirmação (ligeiramente redundante) de que "Inevitavelmente, a nova grafia afetará a língua falada, e algumas mudanças ortográficas alterarão a pronúncia das palavras, a médio prazo, principalmente por conta da abolição (...) do bom e velho trema."

(Em tempo: saiba o senhor que também gosto do trema e fico pensando o que será, p. ex., do pinguim, sem o trema. É difícil se acostumar.)

Essa revisão leva em conta duas coisas: primeiramente, que a palavra "ortografia" vem de orto = correto (daí ortopedia, ortodontia) e grafia, do grego graphos = escrita (daí psicografia, caligrafia). Dessa forma, o Acordo não trata de "fala", mas de "escrita".

Depois, considero necessário, nobre pastor, revisar a ideia de que o Acordo "afetará inevitavelmente a língua falada". Não, essa ideia ignora que os novos falantes "repetem" (como podem) a fala (e os exemplos, bons ou não) dos mais velhos. Basta verificar, p. ex., uma criança que imita os sons da mãe e do pai.

Quero dizer que, apesar de a palavra "sequestro" não ter mais o trema, as pessoas todas (especialmente as gerações que vierem surgindo) NÃO vão pronunciar [sekéstro]*.

Por quê? O senhor, eu, seus pais, os meus, nossos pastores, os músicos, repórteres etc falam [sekuéstru]* e não vamos deixar de fazê-lo, vamos? Logo, a tendência é que, nessa área, sejamos imitados pelos que vêm e virão.

Considerando isso, reitero: o Acordo é ortoGRÁFICO e não FONOlógico.

Um grande abraço.
Fique com Deus.

Artur Ribeiro



* Essas palavras estão entre colchetes porque é assim que se representa a pronúncia. P. ex.: "casa" - [kaza].

Ciro Sanches Zibordi disse...

Prezado professor Artur,

A paz do Senhor.

É bom ter um especialista para nos instruir. Mas as redundâncias leves servem, em alguns casos, para enfatizar um pensamento.

Que a nova grafia já está afetando a língua falada, isso é um fato. E eu comecei o texto com "Dizem que o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, em vigor desde 1 de janeiro de 2009, restringe-se à língua escrita. Mas isso não é verdade" porque, na prática, tal reforma, conquanto ORTOGRÁFICA, gerará sim mudanças na língua falada.

Creio que o público ledor sabe que, a rigor, o Acordo não trata da fala, mas da escrita; é ORTOGRÁFICO. De qualquer modo, a sua aula de etimologia foi muito enriquecedora!

Mantenho a minha opinião de que o Acordo em apreço afetará inevitavelmente a língua falada, posto que o ideal está longe da realidade. Haja vista a dificuldade que já existe há algum tempo, em nosso meio, com a pronúnia de palavras como "iniquidade", "distinguir", etc.

Não ignoro que os novos falantes "repetem" (como podem) a fala (e os exemplos, bons ou não) dos mais velhos. Uma criança imita os sons da mãe e do pai, mas também dos professores e dos colegas de escola, além de ser influenciada pela leitura.

A palavra "sequestro" é uma exceção, em razão de ser muito mencionada no noticiário. Mas não tenho dúvidas de que o Acordo Ortográfico gerará mudanças na língua falada.

Portanto, também reitero: o Acordo é ortoGRÁFICO e não FONOlógico, mas, sem dúvida nenhuma, influenciará a fala.

Que Deus o abençoe mais e mais!

CSZ

Debora Zibordi disse...

Olha, pr. Ciro, para falar a verdade, eu não gostava mesmo do trema! Por outro lado, adorei esta postagem!!!
Muito engraçada! Rsrsrsrs!!!

Parabéns! Além de edificar nossas vidas com a Palavra Viva do Senhor, você ainda nos diverte e informa, mostrando estar sempre atualizado! Fala sério! É brincadeira o que fizeram com a nossa ortografia!!!

Deus te abençoe e um beijo a todos!

Anônimo disse...

O tosco é que o Estado que me ensinou a escrever de um jeito agora exige que eu escreva de outro.
Imagina esses caras (elegemos eles )legislando sobre questões de vida e morte.

A paz
Tamar (SP)

Wander Ribeiro disse...

Pastor Ciro, dê uma olhada em meu blog... Abraço.

Pr. Carlos Roberto disse...

Caro Pr. Ciro Zibordi,
A Paz do Senhor!
Parabéns pela exposição do tema, bem como pelo prostesto.
Uno minha pequena voz ao seu grito de séparação do trema.
Um grande abraço!
Pr. Carlos Roberto

Ciro Sanches Zibordi disse...

Caro Wander,

Agradeço-lhe pela indicação.

CSZ

Ciro Sanches Zibordi disse...

Irmão Artur Freire Ribeiro,

Mais uma vez agradeço-lhe pela participação neste modesto espaço.

Que Deus o abençoe com muitas bênçãos! Ops! Desculpe-me da redundância...

CSZ

Anônimo disse...

Olá Pastor Ciro!

Aproveitando a sua deixa.

Sou contrário ao acordo no tocante ao trema e a certos acentos que considero “estratégicos” para a boa interpretação de nossa já difícil, complexa e BELA Língua Portuguesa.

Acontece Pastor Ciro que minha geração (em maior número os mais jovens – mesmo os “estudantes”) já não sabem diferenciar a necessidade do uso e da importância de um simples infinitivo verbal.

Uma pessoa com grande deficiência em se expressar fatalmente será também mal compreendida e interpretada!

Apenas para citar um exemplo simples, o verbo parar (na terceira pessoa do presente do indicativo) em certos casos pode ser confundido com uma preposição... e mudar todo um significado! Caso do acento diferencial – quarta regra - que também foi abolido!!!!!!

Num País onde se escreve mal e não se se tem a cultura da leitura? (Não lemos direito nem mesmo a Bíblia!)

Agravamos isso com inúmeras regras e complexidades - como se não bastasse ainda temos as péssimas interpretações dos significados e valores que arrebentam como uma Tsunami em nossas “praias” ...

Vide o caso do termo “Gospel” em substituição ao termo (de minha preferência) Música de Adoração ou Louvor que já em sua raiz traria o compromisso das mesmas (em tese)...

Mas não! Adotamos o termo comercial norte-americano que possui significado e visibilidade lá!
O selo Gospel. Nós o usamos como quem dependura um “poster” na parede de um quarto e nada têm de valores e significados conosco...

Uma forma talvez “inconsciente(?)” para permitirmos uma “brecha” necessária para o tal comércio de músicas mascaradas de enganos, quando seu repertório muitas das vezes sem significação ou real compromisso com valores Cristãos ditam as modas nas Igrejas...

Não se trata aqui de uma defesa de um nacionalismo inconsistente e burro. Não é nada disso Pastor ! Mas de observações que considero pertinentes e que somam para criar a tal “onda” de novos costumes, estes sim, de critérios e gostos duvidosos.

Na França, por exemplo é proibido, por Lei, o uso de expressões estrangeiras para os termos que já existam em sua Língua. Isto é um nacionalismo burro ou uma tentativa de defesa de valores e de sua cultura?

Pois aqui no “Brazil” nem o debate podemos realizar, porque o argumento, em comportamento contrário, usado é o de sempre levantar a síndrome da ditadura! Isso também é uma forma de terrorismo!

Penso da seguinte maneira: se substituímos com tamanho desleixo o significado categórico de nossas músicas de Louvor por um termo que a mim nada diz teremos condições e argumentos de exigirmos que estes mesmos norte-americanos escrevam o nome de nosso País da forma que apreciamos: Brasil em lugar de Brazil?

Somos realmente um País de refugos e manias importadas.

Apenas uma noção da complexidade e profundidade em que o tema pode chegar. É no mínimo para se refletir...

Obrigado e desculpe o desabafo.

Mauricio Moreira
maush.directo@gmail.com