sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Os limites do humor para o cristão


Minha entrevista à seção Cara a Cara da revista Geração JC, ano XIII, número 106 (CPAD, 2015).

O senhor é um apologista que já usou bastante do humor em algumas de suas obras e artigos, hoje até bem menos. Atualmente, talvez por influência da nova geração de humoristas no Brasil, que usam muito vídeos na internet como trampolim, muitos jovens evangélicos estão se dedicando ao humor na internet, chamando a atenção até dos não-evangélicos. Muitos destes jovens começam bem, com um humor sadio, mas acabam depois decepcionando, partindo para um humor mais escrachado, mundano. Até a GeraçãoJC já passou por essa experiência, de divulgar jovens que usam canais do YouTube para fazer humor e evangelismo, e depois se decepcionar com alguns casos. Por que muitos desses jovens acabam tomando esse caminho?

A palavra grega apologia aparece pela primeira vez, no Novo Testamento, em Atos 22.1, em alusão à autodefesa de Paulo perante seus acusadores. Esse apóstolo — que foi um grande apologista, isto é, um defensor do Evangelho (Fp 1.16) — valeu-se muito da comicidade em suas cartas. Em 2Coríntios 11.5, por exemplo, ele ironiza os falsos pregadores chamando-os de “excelentes apóstolos”. Mas Paulo usava o humor apenas como um meio de pregar e defender o Evangelho, e não como um fim. Ou seja, ele não era um humorista cristão! O problema do chamado humor evangélico é que o seu objetivo, claramente, é a autopromoção. Muitos jovens estão fazendo vídeos de humor, prioritariamente, para serem vistos, e não para glorificarem a Deus. E aí está o grande desvio do alvo, visto que a Palavra de Deus ensina: “fazei tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31).

Quais os limites para o humor cristão? O que a Bíblia fala sobre isso?

A Bíblia é um Livro de princípios. Um deles já foi citado: tudo o que fazemos deve glorificar a Deus. Outro, muito importante, é: “Abstende-vos de toda aparência do mal” (1Ts 5.22:). A Palavra de Deus também afirma que todas as coisas são lícitas, mas algumas são inconvenientes, dominadoras e não-edificantes (1Co 6.12 e 10.23). Caso um jovem me pergunte: “Posso fazer um vídeo de humor para satirizar o culto pentecostal?”, minha resposta será: “Pode”. E, em seguida, lhe farei outra indagação: “Como servo de Deus, você deve fazer tal vídeo?” Embora não haja proibição expressa na Bíblia ao humor, quando o empregamos devemos perguntar a nós mesmos: Isso glorifica a Deus, convém aos cristãos e os edifica? #FicaADica (risos).

Que orientações o senhor dá ao jovem para que ele perceba pessoalmente que está passando dos limites nessa área?

Os princípios da Palavra de Deus citados nos conduzem a uma reflexão sobre o que podemos e o que devemos fazer. Isso também se aplica aos pregadores que se valem da comicidade. Ao escrever aos crentes de Corinto, o apologista Paulo afirmou: “nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado. [...] A minha palavra e a minha pregação não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração do Espirito e de poder” (1Co 2.2-4). Em outras palavras, o legítimo pregador do Evangelho não deve aparecer mais que Jesus Cristo. Seu alvo é apresentar o Evangelho. Quando alguém prioriza o humorismo e o utiliza como o fim, e não como um meio, quem fica em evidência? A Pessoa central do Evangelho, ou o humorista?

O YouTube está cheio de vídeos que tentam evangelizar através de sátiras. Até que ponto isto é uma estratégia de evangelismo? E esta forma de evangelização, contribui para o Reino de Deus?

Como eu já disse, à luz da Bíblia, os meios de evangelização devem ser usados para atingir o fim: apresentar Cristo ao mundo. Nesse caso, “evangelizar através de sátiras” seria um meio de evangelização ou um fim em si mesmo? De que maneira vídeos que satirizam a fé cristã ou o culto evangélico de modo ultrajante estão aproximando os pecadores de Jesus Cristo? Quando há bom senso, pregar o Evangelho usando o humorismo pode ser um meio válido. Mas valer-se da comicidade para autopromoção na Internet, tendo a evangelização como álibi, é um grande engano. #PenseNisso.

Como a igreja pode orientar os jovens que estão dentro deste perfil?

Nunca houve tanta necessidade de as igrejas promoverem eventos para orientar a juventude cristã, uma vez que o mundo tem mudado rapidamente, e as novidades não param de surgir. Alguns líderes evangélicos já têm investido na instrução dos jovens e adolescentes, mas há muitos que ainda não perceberam o quanto isso é importante. O ideal é que os pastores de grandes igrejas — os líderes de líderes — sigam o exemplo de Paulo, que reunia os presbíteros para transmitir-lhes orientações, recomendando que eles as retransmitissem a seus liderados (At 20.17 e 2Tm 2.2). Algumas igrejas têm a figura do pastor ou líder geral de jovens, o qual, além de promover eventos para a juventude, reúne-se regularmente com os líderes juvenis das congregações a fim de lhes transmitir orientações. Ademais, nesses tempos cibernéticos, se os pastores querem atingir um maior número de jovens com a instrução necessária, devem também usar as ferramentas da Internet: vídeos, blogs, redes sociais etc.

Finalmente, como pastor e aconselhador de jovens, que conselho o senhor dá aos jovens para que eles saibam selecionar o tipo de conteúdo que assistem na internet?

Meu conselho final se baseia em Filipenses 4.8: “Quanto ao mais, irmãos, tudo é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai”. Todo jovem cristão pode usar a grande rede de modo passivo, assistindo a vídeos, ouvindo podcasts, lendo textos etc., bem como ativamente, propagando o que pensa por meio de aplicativos e sites como YouTube, SoundCloud, Facebook, Twitter, Google+, Instagram, Blogger etc. Em outras palavras, ele pode fazer tudo o que pensa na Internet, desde que pense somente no que é verdadeiro, honesto, justo, puro, amável, de boa fama, virtuoso e louvável. #ProntoFalei.

Ciro Sanches Zibordi

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