quinta-feira, 1 de maio de 2014

Os dons espirituais à luz das Escrituras (4)


Neste quarto artigo sobre os dons espirituais, discorrerei sobre os dons de elocução — ou dons verbais —, constantes de 1 Coríntios 12-14: a profecia, a variedade de línguas e a interpretação das línguas. A fim de ajudar alguns irmãos, responderei as perguntas mais frequentes, começando pelos dons de variedade e de interpretação de línguas.

O que são as línguas estranhas e a interpretação delas? No contexto dos dons espirituais, falar noutras línguas é uma manifestação do Espírito; portanto, elas não são aprendidas, mas vêm de modo sobrenatural, sendo estranhas, desconhecidas, aos que as pronunciam. A promessa do batismo com o Espírito, com a evidência de falar noutras línguas, é mencionada nos dois Testamentos (Is 28.11,12; 44.3; Jl 2.28,29 com At 2.14-17; Mt 3.11; Lc 24.49; At 1.8). E o cumprimento dessa promessa começou no dia de Pentecostes (At 2.1-4). Há relatos históricos de que tal evidência ocorreu nas vidas dos crentes da Igreja Primitiva (At 4.31; 8.15-17; 10.44-48; 19.1-7), bem como nas de outros salvos, ao longo da História. A promessa do revestimento de poder, com a evidência de falar noutras línguas, é para hoje (At 2.39; 11.15; Hb 13.8), haja vista a “dispensação do Espírito” estar em curso (2 Co 3.8).

Qual é a utilidade das línguas estranhas? Primeiro: elas são a evidência inicial do batismo com o Espírito Santo (At 2.1-8; 10.44-46; 19.6; 9.18; 1 Co 14.18). Segundo: elas edificam o crente (1 Co 14.4). Terceiro: elas são dadas pelo Espírito ao crente a fim de capacitá-lo a orar em espírito — ou “pelo Espírito [gr. pneumati]” (1 Co 14.2,14-16; Ef 6.18; Rm 8.26). Quarto: elas são dadas pelo Consolador como uma mensagem profética (dom de variedade de línguas), em conexão com o dom de interpretação das línguas. O crente, ao receber momentaneamente a variedade de línguas, dirige-se à igreja (1 Co 12.29,30), mas sua mensagem precisa de interpretação (1 Co 14.5,13,27,28).

Como deve ser o uso das línguas estranhas no culto? Primeiro: deve haver autocontrole. O crente, quando fala em línguas que não são mensagens proféticas, deve se controlar, pois não fala aos homens, e sim a Deus (1 Co 14.2), edificando-se a si mesmo (1 Co 14.4,19). É errado falar em línguas só para mostrar aos outros que é pentecostal. Todos podem e devem falar em línguas (1 Co 14.5,39), mas sem exageros (1 Co 14.8,9). Segundo: é necessário que haja ordem. Quando um irmão estiver sendo usado em profecia, não deve outro falar em línguas em tom alto, visto que isso gera confusão e desordem (1 Co 14.33). Há momento de falar “de Deus” (audivelmente), e momento de falar “com Deus” (em tom baixo). No culto, deve haver duas ou três mensagens proféticas, umas depois das outras, com ordem (1 Co 14.29-31).

Em terceiro lugar, deve haver decência (1 Co 14.40). Decência diz respeito à conformidade com padrões morais e éticos; envolve dignidade, correção, decoro, modéstia, honradez, honestidade. Quarto: é preciso haver harmonia. O dom de variedade de línguas só é útil em conexão com o de interpretação das línguas. Quem fala em línguas deve se calar, caso não haja intérprete (1 Co 14.13,28).

O que é o dom de profecia? É uma capacitação momentânea para se transmitir uma mensagem específica de Deus através de uma inspiração direta do Espírito Santo (1 Co 14.30; 2 Pe 1.21). Trata-se de uma manifestação sobrenatural, cuja função precípua é a edificação da igreja (1 Co 14.4). Nos tempos do Antigo Testamento, os profetas eram intermediários entre Deus e o povo (1 Sm 3.20; 8.21,22; 9.6,9,18-20). Esse tipo de ministério profético durou até João Batista (Lc 16.16). Hoje, o profeta não é mais uma espécie de mediador. E ninguém precisa consultar profetas, e sim ao Senhor, diretamente (1 Tm 2.5; Ef 2.13; Hb 10.19-22; Gl 6.16; Fp 4.6).

Deve-se fazer uma distinção entre o ministério profético e o dom de profecia. Tanto o portador deste quanto o ministro são chamados de “profeta” (1 Co 14.29; Ef 4.11), mas há diferenças entre ambos. Primeiro, quando ao modo da concessão: o dom de profecia pode ser concedido a quem o busca (1 Co 14.1,5,24,31); já o ministério depende de chamada divina (Mc 3.13; Ef 4.11). Segundo, quanto ao uso: o dom de profecia decorre de uma inspiração momentânea, sobrenatural (1 Co 14.30); o ministério profético está relacionado com a pregação da Palavra de Deus (At 11.27,28; 15.32; 13.1). O dom de profecia era uma realidade nos dias da igreja primitiva (At 19.6; 21.9; 1 Co 14). Ali, o ministério profético e o dom de profecia, às vezes, eram intercambiáveis (At 21.8-10).

Por que vemos poucas manifestações do dom em apreço em nossos dias? Isso ocorre, primeiramente, por causa da ignorância. Pouco se fala nas igrejas acerca desse dom, como ocorria em Éfeso (At 19.2,3). Segundo: tem havido uma substituição. Coisas supérfluas têm ocupado o lugar que devia ser destinado à manifestação do Espírito no culto (1 Co 14.26). Terceiro: existe uma apatia espiritual, inclusive nas igrejas ditas pentecostais. Em muitos lugares não tem havido lugar para o Espírito operar (1 Ts 5.19). Quarto: há muito receio. Líderes há que, preocupados com as “meninices”, têm desprezado as profecias (1 Ts 5.20), esquecendo-se de que devem ensinar os “meninos” quanto ao uso correto desse dom (1 Co 14.22-24,28-30; 13.11).

Como julgar a profecia? Primeiro, segundo a reta justiça (Jo 7.24); isto é, por meio da Palavra de Deus (Jo 17.17; At 17.11; Hb 5.12-14). Segundo, mediante a sintonia do Corpo com a Cabeça (Ef 4.14,15; 1 Co 2.16; 1 Jo 2.20,27; Nm 9.15-22; Jo 10.4,5,27). Terceiro, pelo dom de discernir os espíritos (1 Co 12.10,11; At 13.6-11; 16.1-18). Quarto, através do bom senso (1 Co 14.33; At 9.10,11). Quinto, pelo cumprimento da predição (Ez 33.33; Dt 18.21,22; Jr 28.9), conquanto apenas isso não seja suficiente; Deus permite que, em alguns casos, predições de falsos profetas se cumpram (Dt 13.1-4). Finalmente, o julgamento deve se dar com base na vida do profeta (2 Tm 2.20,21; Gl 5.22). Tem ele uma vida de devoção a Deus? Ele honra a Cristo em tudo? Demonstra amar e seguir a Palavra do Senhor? Ama os pecadores e deseja vê-los salvos? Detesta o mal e ama justiça? Prega contra o pecado, defende o Evangelho de Cristo e conduz a igreja à santificação? Repudia a avareza?

Quais são as funções do dom de profecia? Primeiro: edificação. A Igreja é comparada a um edifício, e o Senhor Jesus é o seu fundamento (1 Co 3.10,12,14; Ef 2.22). Os salvos são pedras desse edifício (1 Pe 2.5), e a profecia é um dos meios pelos quais eles são edificados (1 Co 14.3,4,12,17). Segundo: exortação. Por meio da profecia, o crente é incentivado, despertado, fortalecido na fé (1 Co 14.3). Terceiro: consolação. O Senhor se utiliza desse dom para consolar o crente com palavras semelhantes às de Deuteronômio 31.8 ou Isaías 41.10; 45.1-3. Quarto: sinal para os incrédulos. Esse dom é de grande valia para convencer os descrentes (1 Co 14.20,22-25).

Finalmente, deve-se observar que os dons de elocução não têm autoridade canônica; não se manifestam para alterar ou contradizer o que está escrito na Bíblia Sagrada (2 Pe 1.21; 1 Tm 4.9; Jo 17.17; Sl 119.142,160; Ap 22.18,19; Pv 30.6). Eles também não são prioritários para o governo da igreja. As finalidades principais dos dons de saber, de modo geral, são: edificar, exortar e consolar (1 Co 14.3). O Espírito orienta a igreja por meio dos dons espirituais (At 13.1-3; 16.6-10), mas o ministério eclesiástico não deve se subordinar a “profetas” (Ap 2.20-22; At 11.28-30; 15.14-30). É uma prática antibíblica consultar profetas em nossos dias, pedindo respostas quanto a casamentos, viagens, negócios, etc. Os dons em apreço devem ser usados “na igreja” (1 Co 14.3,13,26,28).

Ciro Sanches Zibordi

12 comentários:

Anônimo disse...

Depois de batizado no Espirito santo eu posso falar em linguas a hora que eu quiser em casa para minha edificação pessoal ? Se eu quiser eu posso falar agora mesmo.É assim mesmo ?

Escola Bíblica Dominical - Seminário Teologico Permanente disse...

A paz do Senhor, Pr. Ciro,

Mas um excelente artigo! Glorifico a Deus por isso! Glorifico a Deus por sua vida, Pastor.

Prossiga! Longa é a caminhada. Estaremos intercedendo pelo seu ministério, em nome de Jesus!

Se a igreja se propuser a buscar com zelo os dons espirituais e fizer deles bom uso, certamente não haverá espaço nos nossos cultos para doutrinas heréticas. A falta dos dons ou o mau uso deles implica sempre na descentralização de Cristo e na pregação de um falso evangelho.

Isso é óbvio, pois se os dons são presentes concedidos por Deus para a edificação da igreja justamente para promoverem a ordem e seu crescimento, a falta deles (cessacionismo) ou mesmo o seu mau uso (neopentecostalismo), traduzirá um evangelho meramente filosófico (Cl 2.8).

“E a minha palavra, e a minha pregação, não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder; para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria dos homens, mas no poder de Deus.” (1 Coríntios 2:4-5)

Em Cristo,
Simone Tavares.

Anônimo disse...

Querer negar as manifestações sobrenaturais do Espírito Santo no AT e nos Evangelhos, é ignorar os relatos nos quais alguns dons estão evidentes. Com exceção dos dons de variedades de línguas e interpretação das línguas, os demais dons listados em 1 Co 12, são encontrados antes do pentecostes. É óbvio que após o pentecostes, os dons passaram a ser distribuídos de forma mais abundante. Observo também que um crente batizado com o Espírito Santo que permanece cheio, é mais sensível ao Espírito e por isso estará mais receptivo aos dons. O que ocorre em nosso meio é a falta de investigação bíblica para se descobrir o que a Bíblia tem a dizer por si mesma. Existe dogmas pentecostais que não resistem a uma exegese bíblica. Eles só permanecem por força de alguns nomes que os transmitem. "Se é fulano de tal que está dizendo, então é verdade"! SERÁ??? Que tal sermos cristãos bereanos, que conferiam nas Escrituras os ensinos de Paulo. Nota: Paulo não se importava com isso, pois anunciava todo o conselho de Deus pregando a Palavra como ela é. Ouso a dizer que se fizermos assim, seremos mais pentecostais do que somos!

Pr Alessandro Garcia

Luiz Fernando Oliveira disse...

A paz do Senhor, Pr. Ciro

Já andei por muitas igrejas pentecostais por ai, e só o que vejo é bagunça, todo mundo orando em línguas estranhas ao mesmo tempo e em voz altíssima, muito pula pula e pouca ou nenhuma edificação da igreja num todo. Particularmente eu nunca presenciei e nunca ouvi falar de alguém que tivesse o dom de interpretar línguas estranhas, será que esse é um dom que não existe mais?

Marcio disse...

A paz do Senhor JESUS !!

Pr. CIro .

No paragrafo, O que é dom de profecia ?.

Tenho visto videos e irmãos que diz isso é uma revelação de DEUS. que uma pessoa estava dormido ou semelhante em sonho que foi para o ceu e inferno viu varis coisa e falar para as pessoa .

Isso é uma profecia ?

Não vejo argumento bíblico para isso .

Irmão Márcio Miguel

Anônimo disse...

Infelizmente tenho que compactuar com o amigo Luiz Fernando.

Sabe aqueles cultos chamados de "fogo puro", vigílias, congressos e cultos de avivamento: um monte de gente falando em línguas estranhas ao mesmo tempo. Avivamento para uns é pular, rodar, bater palmas com força, fazer avião, falar em línguas...

Em minha opinião a liderança (presidência) da Igreja deveria ensinar e corrigir essas coisas aos desinformados.


Att. Jonathas

Lucy Araújo disse...

Quero lhe dar os parabéns e glorificar ao Senhor Deus por sua vida. Essas frases refletem a ortodoxia bíblica, conhecimento sadio de profundas verdades extraídas das Escrituras. Tenho sido profundamente edificado com tais máximas e oro ao Senhor para que o amado irmão continue nessa caminhada, edificando, repreendendo, corrigindo, consolando e exortando o Corpo de Cristo. Ao amado em Jesus, deixo a amorosa exortação feita pelo escritor sacro:

"Porque Deus não é injusto para se esquecer da vossa obra, e do trabalho do amor que para com o seu nome mostrastes, enquanto servistes aos santos; e ainda servis." (Hebreus 6:10).

A propósito, caso ainda não esteja seguindo o meu blog deixo aqui o convite, acesse o link abaixo:

Fruto do Espírito

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Em Cristo,
***Lucy***

Márcio Miguel disse...

A Paz do Senhor !!!

Na parte ,o que é dom de profecia ?

Tenho uma duvida canto a essas profecia, que tem visto no youtube e irmão meu na fé dando credito!

que diz que DEUS levou para visita o inferno ou o céu .E revela as pessoas o que viro la. tem estrutura Bíblica .

http://www.youtube.com/watch?v=RjTXWIngVpY

http://www.youtube.com/watch?v=s_ht5HSxHAo

Espero tira mias duvida ?

Que DEUS continue na vida do Pr. para nos abençoa com a mensagem bíblica .

Depois que comecei ler seus livros e o blog abriu meus olhos para palavra de DEUS .

Irmão Márcio

Luciano Gonçalves disse...

As línguas não são um dos 9 dons do Espírito Santo, portanto creio que não seja a única evidência do batismo pois como me explicaria este dom ter ficado a século na vida dos reformados e somente nos avivamentos de Finney , Wesley, etc... Do século 19 e 20 , você acha que
Lutero falou línguas estranhas, Calvino, Wicliffe, não seria um equívoco achar se isto a única evidência e o que podemos dizer dos frutos em Galatas não poderia serem também evidência do batizado no Espírito Santo?

Samuel Brito disse...

Pr. Ciro na sua opinião qual é o mais excelente PREGADOR EXPOSITOR PENTECOSTAL que se encontra vivo?

Jairo goncalves ribeiro disse...

concordo com o comentário do Luciano Gonçalves pois quer dizer que se não oro em línguas não sou batizado pelo espirito santo,ou por exemplo as igrejas batistas tradicionais que não fazem uso desse dom da maneira que muitas fazem significa que os batistas não são batizados pelo espirito santo!!!!

Joao Souza disse...

Tenho uma dúvida também quanto ao falar em línguas como evidência do batismo com o Espírito Santo, uma pessoa que começa a falar em línguas ela foi batizada ou recebeu o dom de línguas? Pelo que sei o batismo é uma coisa e o dom é outra totalmente diferente, e a pergunta retórica de 1º Coríntios 12.30,"falam todos diversas línguas?" E o porque das palavras "como nós ao princípio" de Atos 11.15? Também em 1º Coríntios 14 vemos que as línguas são dos homens para Deus e não de Deus para os homens e porque nas "interpretações que vemos nas Igrejas são sempre de Deus para os homens? Mas o capítulo 14 é muito claro o que ora em línguas, orar é do homem para Deus ou de Deus para o homem? Da bem as graças é do homem para Deus ou de Deus para o homem?