sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Diga para o seu irmão: "Perante Deus até a tristeza salta de prazer"

Perdi a conta das vezes em que ouvi pregadores — alguns de renome — afirmando, com base em Jó 41.22, que "perante Deus até a tristeza salta de prazer". Alguns expoentes, após a leitura desse versículo bíblico, até mandam os irmãos olharem uns para os outros e dizerem: "O Deus que põe fim à tristeza, transformando-a em alegria, está conosco".

Ora, a quem o aludido texto de Jó se refere? Intuitivamente, qualquer pessoa responderia: "A Deus, é claro", visto que o Senhor, de fato, espanta a tristeza por meio da alegria, uma vez que na presença dEle há abundância de alegria, diz o salmista (Salmos 16.11). Que tal fazermos uma leitura rápida do capítulo 41 do livro de Jó? Aliás, antes disso, é importante observar que, no capítulo 38, Deus começou a chamar a atenção do patriarca Jó para a obra da sua maravilhosa criação: "Onde estavas tu, quando eu fundava a terra?” (v. 4).

A partir do capítulo 40, Deus mostra a Jó a força de alguns animais, destacando o beemote (um grande quadrúpede das selvas, similar ao hipopótamo) e o "monstro das águas", o leviatã, termo que o famoso filósofo — e teólogo — inglês Thomas Hobbes tomou emprestado, no século XVII, para descrever o Estado. Segue-se que o texto de Jó 41.22 (ARC) —"No seu pescoço pousa a força; perante ele, até a tristeza salta de prazer" — é a continuação da descrição das características do leviatã e nada tem que ver com Deus! Mas, antes que alguém resolva sair por aí pregando que a tristeza salta de prazer diante do leviatã, permita-me explicar o versículo em apreço à luz da Teologia Exegética, ciência que abarca Hermenêutica e Exegese.

Em Jó 41 vemos uma descrição hiperbólica do leviatã — animal similar a um crocodilo, mas muito maior em tamanho —, a qual aponta para a ferocidade desse animal. A versão bíblica Revista e Atualizada de Almeida (ARA) apresenta uma tradução um pouco mais clara do versículo 22: "diante dele salta o desespero". Já a Almeida Revista e Corrigida (ARC) foi baseada num manuscrito que contém uma falha do copista — em tempos remotos, todas as cópias eram feitas à mão; no hebraico bíblico, um pequeno sinal, quase imperceptível, é capaz de mudar completamente o sentido de uma palavra.

O capítulo 41 de Jó apresenta, também, uma descrição do leviatã difícil de se entender: "Cada um dos seus espirros faz resplandecer a luz" (v. 18); "Da sua boca saem tochas" (v. 19); "Do seu nariz procede fumaça" (v 20); e "O seu hálito faria acender os carvões" (v. 21). Essas características, evidentemente, devem ser interpretadas como figuras poéticas de grande valentia do animal, e não como características reais.

Por que o texto de Jó 41.22 faz referência ao leviatã, e não a Deus? Porque, diante do exposto, o Criador — ao descrever a Jó as características de suas criaturas — tinha como objetivo convencer seu servo, que estava se gabando de sua justiça perante seus amigos, de sua pequenez. Veja a ironia de Deus nesta pergunta retórica: "Poderás pescar com anzol o leviatã, ou ligarás a sua língua com a corda?" (v. 1). Ele queria mostrar a Jó, através do indomável, terrível e indomesticável animal (v. 7), coberto de escamas duras como o ferro (vv. 15-17,26), o seu poder como Criador e Senhor: "Ninguém há tão atrevido, que a despertá-lo se atreva; quem, pois, é aquele que ousa erguer-se diante de mim?" (v. 10).

Portanto, o expoente das Escrituras que se preza nunca deve desprezar o contexto de uma passagem bíblica. As Escrituras foram divididas em capítulos e versículos apenas para que haja maior facilidade na procura de textos, mas isso não significa que um versículo tem autoridade em si mesmo, de forma isolada. A interpretação de cada versículo deve ser feita em sintonia com os contextos geral, imediato, referencial, histórico-cultural e literário. ‪#‎FicaADica‬.

Ciro Sanches Zibordi

6 comentários:

Gilmar Valverde disse...

Pena que eu não li algo assim há um mês atrás (risos).

Um abraço,

Gilmar

Jacqueline disse...

Gostei muito desse estudo, Pr. Ciro.
Sempre que ouço essa expressão no culto, geralmente com a intenção de forçar as pessoas à ficarem alegres ("na liberdade"), me parece mais com um trecho de música sertaneja.

António Jesus Batalha disse...

Foi bom encontrar o seu blo,e poder ver e ler o que está a escrever pois tenho encontrado bons textos, que edificam e ajudam a cada um.
Continue nesta força e na firmeza da Santa Palavra, pois é essa nos trás conforto e segurança.
Sou António Batalha, do Peregrino E Servo.
Deixo-lhe a minha bênção, e que a paz de Jesus encha sempre
seu coração.
Abraço.

Célio de Castro disse...

Mais um mito derrubado. Mas tenho a impressão que ainda vou ouvir isso em algum culto por aí.

Walter Filho disse...

Muito bom! Que Deus continue a usa-lo pastor!

God bless you!

Lucas Borges disse...

Prezado Pastor, compreendi perfeitamente sua reflexão acerca do versículo. Tenho em mente a seguinte dúvida: mesmo sabendo todo o contexto deste versículo, eu posso afirmar (sem me basear em Jó 41.22) que Na presença do nosso Deus até a tristeza salta de alegria, já que em sua presença há abundância de alegria?

Desde já agradeço.