Uma brincadeira de mau gosto em um site de humor me fez refletir sobre o perigo de nos apegarmos a verdades que nos desviam de outras verdades. Motivado pelo mal-estar que o presidente Lula sentiu em Recife, Pernambuco, o editor do tal site noticiou: “Lula morre em Recife”. Essa notícia é verdadeira e falsa, ao mesmo tempo. Como assim? Ela é verdadeira, se considerarmos que realmente morrem lulas em Recife. E é falsa porque o presidente Lula não morreu em Recife; apenas passou mal.Outro exemplo de verdades que desviam pessoas de outras verdades seria a seguinte notícia, em época de eleições: “Garotinho vence com folga no Rio de Janeiro”. Ela seria verdadeira se acompanhada de uma foto mostrando um garotinho feliz da vida por ter chegado em primeiro lugar em uma competição de natação. E falsa se usada para induzir o leitor, numa brincadeira, é claro, a acreditar que Antony Garotinho venceu a eleição para governador do Rio de Janeiro.
Os falsos mestres também se valem de verdades incompletas, parciais, fora de contexto, ignorando que a Bíblia é análoga, harmoniosa e sincrônica. O estudioso desse maravilhoso Livro deve saber interpretá-lo corretamente, a fim de que, por causa de uma verdade isolada, não se afaste de outras verdades. Não devemos abrir mão de verdades, e sim abraçarmos a Verdade.
Vamos a alguns exemplos de verdades que desviam de outras verdades e, consequentemente, da Verdade:
Jesus disse que não devemos julgar. Essa é uma grande verdade que vem sendo usada de maneira inconveniente. Por quê? Porque o Senhor Jesus proibiu apenas o julgamento como forma de calúnia (Mt 7.1,2). Ele não nos proibiu de julgar pregações, canções, profecias, milagres, etc. Aliás, o cristão que se preza julga bem tudo (1 Ts 5.21, ARA; 1 Co 2.15), segundo a reta justiça (Jo 7.24), inclusive as profecias (1 Co 14.29) e as manifestações espirituais (1 Jo 4.1).
A palavra “trindade” não aparece na Bíblia. Outra verdade. A palavra citada realmente não aparece nas páginas sagradas. Entretanto, isso não invalida a cristalina verdade de que Deus é triúno, tampouco torna nulas as inúmeras passagens bíblicas que destacam a tripessoalidade divina (2 Co 13.13; Mt 28.19; Jo 14.16; Rm 5.1-5, etc.). Os antitrinitarianos (ou unicistas) dizem ter a voz da verdade, porém isso não os torna verdadeiramente verdadeiros.
Deus é preciente. De fato, o Senhor conhece o fim antes do começo (Is 46.10). Mas muitos teólogos têm se valido dessa verdade para apresentar objeções à outra verdade: o livre-arbítrio (ou livre-vontande, livre-escolha). Eis o grande questionamento deles: “Se Deus conhece infalivelmente o futuro, como existem criaturas livres?” Ora, o Senhor conhece o que haveremos de fazer livremente, mas não interfere na nossa tomada de posição. Ele mesmo estabeleceu que o recebimento da salvação se dá mediante escolha e decisão humanas (Jo 3.15-19; Mc 16.15-18; Mt 7.13,14; Hb 7.25, etc.).
Na salvação somos batizados pelo Espírito Santo. Muitos têm usado essa verdade para se contrapor ao batismo com o Espírito Santo, confundindo duas ministrações diferentes do Espírito Santo. No momento da salvação, fomos batizados pelo Espírito, isto é, inseridos, “mergulhados” no Corpo de Cristo (1 Co 12.13). Isso, de modo algum, invalida o batismo com — ou no — Espírito, que é um revestimento de poder para quem já é salvo (Lc 24.49; At 1.8).
O culto deve ter decência e ordem. A passagem de 1 Coríntios 14.40 apresenta essa verdade. Contudo, os cessacionistas se valem desse argumento para se contraporem à multiforme manifestação do Espírito, pormenorizada no mesmo capítulo (1 Co 14). Embora a Palavra de Deus nos alerte quanto à falta de ordem e decência no culto, ela não nos estimula a desprezar a ação sobrenatural de Deus no meio do seu povo (1 Ts 5.19,20; 1 Co 14.39).
Que Deus nos ajude a aceitarmos todas as suas verdades, e não apenas uma parte delas. Afinal, como diz a Palavra de Deus, em 2 Coríntios 13.8 (ARA), “nada podemos contra a verdade, senão em favor da própria verdade”.
Ciro Sanches Zibordi





























