segunda-feira, 12 de abril de 2010

A Teologia das $emente$ dos “itinerantes”


Alguns “itinerantes” estão pedindo $emente$ para o seu ministério. Por que me refiro a eles entre aspas? Porque, em primeiro lugar, não existe o ministério de “itinerante” na Bíblia, e sim ministérios que envolvem itinerância. Segundo, porque a Teologia das $emente$ é uma falácia.

Na Palavra de Deus, temos os ministérios de apóstolo, de evangelista, de profeta (um pregador, nesse caso), de pastor e de mestre (e não exibicionista).

Primeiramente, o Senhor pôs na igreja o ministério apostólico — e não o título de apóstolo —, para que os ministros verdadeiramente enviados por Ele conduzam na terra a Igreja, seguindo às diretrizes da Cabeça, Cristo (1 Co 12.28; Ef 4.11-15). Há também os ministérios de pastor (Hb 13.7,17), de pregador (1 Tm 2.7), que pode ser um profeta ou um evangelista (ou ambos) e de mestre ou ensinador (Ef 4.11; 1 Co 12.28). Já o ministério de “itinerante” é uma das muitas invenções desses últimos dias.

O que existe, na verdade, são os ministérios mencionados, e alguns deles envolvem itinerância. Mas ninguém deve sair por aí pedindo $emente$ e dizendo: “Eu tenho o ministério de itinerante e você deve semear na minha vida, para que Deus semeie em dobro na sua”. É claro que, por outro lado, as igrejas que convidam expoentes da Palavra devem tratá-los da melhor maneira possível. Um pregador ou ensinador convidado para pregar ou ministrar palestras não deve ser confundido com um missionário que visita as igrejas em busca de hospedagem.

Nada tenho contra os missionários que procuram as igrejas em busca de hospedagem. Mas é preciso distingui-los de quem é convidado para um evento. Pasme, mas há igrejas que convidam expoentes e não sabem recebê-los como convidados. Não consideram que estes deixam a sua família — pois dificilmente o convite é extensivo à família do preletor —, a sua igreja local, os seus projetos profissionais, e os recebem com frieza e pouca (ou nenhuma) atenção. Às vezes, o pastor da igreja sequer conversa com o convidado. Deixa isso a cargo de pessoas despreparadas, descorteses... Algumas sequer são cristãs!

Eu comecei a viajar, atendendo a convites, em 1995. E tenho sido muito bem recebido, na maioria das igrejas por onde tenho passado, graças a Deus. Mas já enfrentei algumas dificuldades no exercício do ministério que o Senhor me outorgou. Certa vez (risos), fui levado para jantar em uma grande casa de forró! E o pior: era um self-service, a comida estava parcialmente estragada, a dançarina, seminua, vinha rebolando para o meu lado, e o “hospitaleiro” irmão que me acompanhava, olhando para mim com “cara de poucos amigos”, disse: “Já terminou, irmão? Estou com pressa”.

Em outro lugar — não me pergunte onde —, a igreja que me convidou “hospedou-me” na casa de um irmão cujo pai acabara de chegar do hospital! Para não parecer exigente ou antipático, fiquei quieto, mas fiz uma oração, em espírito, pedindo a Deus uma solução, pois a casa estava cheia de visitantes, e a esposa do irmão tendo que atender ao marido, de cama, e a mim... Felizmente, o pastor da igreja me ligou e perguntou-me a respeito da hospedagem. Ao se inteirar do que estava acontecendo, ele resolveu me transferir para um hotel... Ufa!

Fui a outra igreja em que um austero pastor me entregou uma carta de boas-vindas, na qual havia uma lista do tipo não-faça-isso-e-não-diga-aquilo. Fui “hospedado” num quartinho nos fundos do templo onde não havia janela, e o calor era grande. E o sanitário? Ficava do lado de fora. E o lugar para escovar os dentes? Era num lugar coletivo... É assim que se recebe um convidado?!

Depois de algumas experiências negativas, tenho sido obrigado a deixar claro a quem me convida que faço questão de ficar em hotel. Isso não é exigência! Como convidado para ministrar a Palavra, preciso ficar em um lugar funcional, isolado, para que possa meditar e descansar antes e depois das ministrações. Exceções existem, é claro. E o convidado pode preferir ficar na casa de um amigo, mas é ele quem deve fazer essa escolha.

Atendo a convites quando posso, e com prazer. Amanhã, inclusive, se Deus quiser, estarei embarcando para Portugal, a fim de atender ao pastor luso Carlos Salgado, da Assembleia de Deus em Caldas da Rainha. Mas faço questão de dizer a todos que não sou “itinerante”. Não vivo de viajar para lá e para cá. Não sou pregador profissional. Tenho o meu trabalho autônomo no âmbito da palavra impressa. Longe de mim sair por aí pedindo $emente$. Isso é mercantilismo!

Viver do Evangelho não é pecado, quando isso ocorre de modo natural, através da ação direta do Senhor sobre a nossa vida. Afinal, Ele cuida de nós (1 Pe 5.7; 1 Co 9). Mas os líderes das igrejas devem se conscientizar de que, ao convidarem um expoente da Palavra de Deus, é preciso dar-lhe também uma contribuição financeira, um pagamento, por assim dizer, o que chamamos de oferta.

Qual deve ser o valor da oferta? Quando se convida um especialista em determinado assunto, um escritor, um educador, no meio secular, ele estabelece um cachê e faz algumas exigências. Isso não deve ocorrer em nosso meio, a menos que parta da própria igreja a iniciativa de combinar com o convidado um valor. Seja como for, cabe à igreja contribuir com liberalidade, justiça e amor. Não foi o expoente quem se ofereceu para estar ali; ele foi convidado.

Alguém poderá perguntar: “Pastor Ciro, e as igrejas que não têm condições de hospedar um preletor em hotel? E as que não podem pagar uma passagem aérea? E as que não podem dar uma oferta?” Ora, por que precisam convidar um preletor de outro Estado ou país, se não têm condições de recebê-lo? Que convidem algum expoente de uma cidade vizinha, por exemplo.

Mas a Teologia das $emente$ está em voga entre os telepregadores e alguns “itinerantes”. Estes não mais estabelecem cachê, pois se valem de uma ótima estratégia de subtrair do povo quantias que superam o valor que cobrariam das igrejas. Eles contam várias histórias sobre $emeadura e “profetizam” bênçãos materiais para quem lhes der $emente$.

E mais: eles estabelecem os valores das $emente$ — R$ 10,00, R$ 100,00, R$ 900,00, R$ 1.000,00, etc. —, os quais sempre estão atrelados a algum prognóstico numerológico. Por exemplo, “Eu profetizo que aquele que semear R$ 100,00 no meu ministério terá cem dias de prosperidade” ou “Esta semente de R$ 1.000,00 é para ganhar 1.000.000 de almas”.

Como nos alerta a Palavra de Deus, “Assim como no meio do povo surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão dissimuladamente heresias destruidoras [...] também, movidos por avareza, farão comércio de vós, com palavras fictícias...” (2 Pe 2.1-3, ARA).

Em Cristo,

Ciro Sanches Zibordi

10 comentários:

FLAVIA MARA disse...

A paz do Senhor, Pr Ciro!
Muito esclarecedor este artigo.
Gostei também do "$EMENTE$" (risos), muito criativo.
Pr. Ciro, fico preocupada quando vejo esses pregadores saindo do caminho correto, pedindo as $emente$, ocupando grande parte do tempo com isso, pois penso nas muitas pessoas não evangélicas e outras, evangélicas, que ja se decepcionaram com igreja, mas que sempre param diante da TV para ouvir uma pregação. É triste isto que tem acontecido com esses pastores, pois quantas pessoas vão ter mais uma decepção e com isso podem cada vez se afastarem mais das coisas de Deus. Pois eu sei que isso acontece e muito, devido a decepção.
Quanto ao pastor convidado, concordo que deve ser bem recebido sim, com certeza. O que está exagerado é essa petição de dinheiro, ou melhor $EMENTE$, que temos visto na TV.

Evandro Lemes disse...

Pr. Ciro...

Concordo com o texto mas infelizmente esses agricultores da prosperidade continuarão exercendo a itinerância com muito sucesso. Que Deus nos proteja!

Evandro Lemes.

Geziel Silva Costa disse...

A paz pr Ciro

Ouvi de um grande pregador da palavra de Deus em nosso país, algo que me deixou intrigado. Primeiro pela admiração que tenho por ele, em interpretar corretamente a palavra de Deus segunda as leis da hermenêutica. Mas no tocante a lei da semeadura, em especial o assunto que ele abordou, quero discordar aqui neste texto, uma vez que sua interpretação deixa a desejar.

Devemos ofertar dizimar, contribuir em todos os trabalhos da igreja em busca da retribuição? Segundo alguns pregadores como este que me refiro, devemos semear para colher. Se semearmos uma oferta parca, colheremos algo insignificante. Se, contudo semearmos com abundância, colheremos com fartura.

A lei da semeadura é semelhante a uma colheita de uma lavoura? Muitos estão seguindo o conselho de Glória Copeland, diz ela: "Se você der $ 1 por amor ao Evangelho, $ 100 já serão seus; Se der $ 10, receberá $ 1, 000; dando $ 1, 000 receberá $ 10, 000. Eu sei que você sabe multiplicar, mas quero que veja esse fato preto no branco... Dê um avião e receberá cem vezes o valor do avião. Dê um carro e terá de retorno, carros para a vida toda. Em resumo, Marcos 10.30 é um ótimo negócio.” (Escapando da sedução Dave Hunt). Isso é lei da semeadura?

Poderíamos dizer então que descobrimos a Chave Mestra das Riquezas, como disse Napoleon Hill. É só vir para a igreja, e começarmos a semear, que dentro de pouco tempo, seremos milionários. Não será por isso que temos pessoas sem caráter, sem integridade, sem uma vida nova transformada na igreja, porque não estão buscando Jesus, mas as riquezas?

Newton Carpintero, pr. e servo disse...

Nosso prezamado pr. Ciro Zibordi,

A paz do Senhor!

Dura palavra! Seria desnecessário esta informação se todos os líderes atuassem com cortesia e lógica. Para a honra e a glória do mundo, muitos não o fazem. Esquecem que este convidado representa ao Senhor.

A necessidade do pregador, capacitado por Deus a estar em diversas igrejas, em diferentes partes do mundo, é importante para a transferência de conhecimentos através de seminários ou das Escolas Bíblicas, tão necessárias ao aprendizado e ao comportamento da liderança, em especial, com referências bíblicas à contento e com extrita base na verdade.

O momento é de revigorar com transparência o Evangelho de Verdade, diante dos evangelhos apresentados em qualquer esquina, com todos os sintomas de uma plaga que está enganando a muitos através de todos os tipos de heresias.

Dou graças a Deus por sua vida, pastor Ciro Zibordi, e pela disposição em não se calar diante deles.

Muitos tratam os verdadeiros homens de Deus, como se fôssem uma caixa de sapato vazia.

E muitos querem "experimentar" a "vítima", ou seja, o próximo "palestrante" e "desejar", malandramente "conhecer" a sua fé.

Muitos "sentem prazer", em "tentar" a fé do palestrante com péssimos hotéis ou residências sem o conforto adequado, conforme a localização do evento, ou até mesmo quase que exigem do convidado o "sacrifício da prisão de Paulo."

Devemos, sim, proceder com o máximo cuidado, carinho e amor com os que se dedicam à pregação, exortação, ensino e a qualificar - principalmente - vidas à igreja, espalhada por toda a terra.

Lembro-me de há muitos anos, estar com um grupo de irmãos em uma certa cidade de Minas Gerais, e ter recebido para dormir, um local que era o subsolo da casa, com teias de aranhas, e possíveis ratos, sem falar que era algo incrível e desconfortável(penso que queriam nos provar). Bem, nesta noite, o Senhor me revelou o que aconteceria durante todo o dia seguinte de forma espantosa. Acordei falando em mistério com Deus, e não consigo esquecer esta dura e agradável experiência. Risos!

O Senhor seja contigo, nobre pastor, e com os que o acolherem no futuro, claro com todo o necessário e correspondente a um servo de Deus que se dispõe a deixar de lado momentos com sua família.

O menor de todos.

Cícero Leandro Júnior disse...

A paz do Senhor!

Fiquei triste com este texto, pr. Ciro. Já estava pensando em hospedar o senhor aqui em casa... o pior que só tem eu de crente aqui. rsrsrsrs... brincadeira!=)

Mas brincadeiras à parte, é triste e vergonhoso a postura deste pastor. Um homem que outrora foi um homem de Deus, um grande expoente da Palavra, se se deixou levar progressivamente por esta falsa teologia, e hoje está completamente perdido. Devemos orar a Deus, para que o Senhor o traga de volta à Sua presença, pois de fato está perdido.

Uma coisa que me deixa angustiado é a falta de ação da CGADB. Embora outros blogueiros estejam atacando de maneira errada a Convenção, não podemos deixar de dizer que se uma medida não for tomada com urgência, isso vai se espalhar pela denominação como um câncer, e a maioria dos pastores e pregadores vai encarar essa teologia agrícola como uma coisa normal nas Assembleias de Deus. Não creio que foi pra isso que o Senhor Deus levantou esta denominação. Uma punição, ou até mesmo o desligamento de tal pastor, seria um "balde de água fria" nestes que fomentam o desenvolvimento e a proliferação desta doutrina.

Oremos a Deus para que as coisas não tomem este rumo.

Em Cristo, a pedra angular,
Cícero Leandro Júnior.
Assembleia de Deus em Teotônio Vilela/AL

Adeilton disse...

Gostaria de indicar os livros de Dave Hunt:(A sedução do cristianismo).E também (Escapando da sedução)da chamada da meia noite, sao muito edificantes.Fala exatamente dessa sedução da teologia da prosperidade que está levando muitos pastores para longe da palavra de Deus e do proprio Deus.

René disse...

Perfeita abordagem e, também, opinião!

Faça uma boa viagem a Portugal (a Europa está necessitando muito da operação do Espírito Santo), na Graça e na Paz do Senhor!

Fabio disse...

Sorocaba, SP

Pr Ciro, tenha uma ótima viagem.

Claudio Silva disse...

Pr. Ciro!
A Paz!

Suas palavras são sábias e quem for prudente as aplicará.
O problema é que temos um povo (felizmente não posso generalizar) viciado em espetáculos, ganacioso em receber "bençãos" e essa ganancia se torna a armadilha onde estes caem no "conto do vigário", no caso específico "conto do profeta".
Mas temos a esperança nas vozes como a sua que se levantam, indignadas, porem com amor a fim de que os que estão em erro se arrependam e voltem ao primeiro amor.
Abraço fraterno e boa viagem.
Claudinho

Ciro Sanches Zibordi disse...

Querido irmão Cícero,

Não fique triste! Risos...

Um grande abranço!

CSZ